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Vale o start: em Watch Dogs, é ainda mais divertido ser um stalker

Já ser Aiden Pearce é bem chato.

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5 anos atrás

Quando Watch Dogs foi lançado, em maio deste ano, ele já estava sendo esperado há mais de um ano. Seu lançamento era inicialmente aguardado junto com a oitava geração de consoles, no final de 2013, mas a Ubisoft achou melhor segurá-lo por mais alguns meses para entregar o jogo o mais redondinho possível.

Então, ele foi lançado com a promessa de se tornar a próxima grande franquia da publisher e com um monte de expectativas à sua volta. Depois de algumas semanas passeando pela Chicago virtual, venho contar como é a experiência.

Pode conter spoilers leves sobre o início da história.

Em Watch Dogs, você joga como Aiden Pearce, um hacker que mora em Chicago e, em posse de seu smartphone, consegue interferir na cidade e nas vidas dos outros habitantes de maneiras variadas, seja lendo um curto perfil com seus nomes, idades e uma informação extra (desde manias a DSTs que a pessoa tem), seja controlando semáforos, câmeras e outros objetos do patrimônio público.

Toda a cidade é controlada pelo sistema operacional ctOS. É por tê-lo invadido que Pearce consegue ter acesso aos smartphones, contas bancárias e tudo o mais dos cidadãos – e “tudo o mais” se relaciona até à privacidade de suas casas, já que é possível observar o interior delas pelas câmeras de seus computadores em alguns momentos do jogo, como ao destravar torres de transmissão em novas regiões da cidade.

O destravamento dessas torres é semelhante a destravar novas áreas em outros jogos, como Assassin’s Creed. E, falando nisso, o jogo divide várias semelhanças com Assassin’s Creed, como a motivação do personagem principal, o parkour, a roupa muito esquisita e que inexplicavelmente não chama a atenção de ninguém, os movimentos.

E, como outros jogos da Ubisoft no Brasil, ele tem dublagem em português – recomendo fortemente, assim como em outros jogos da Ubisoft lançados no Brasil, nem experimentá-la. Fazer isso e depois mudar de ideia (vai ser o mais cedo possível) fará com que você precise jogar toda a introdução novamente.

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Na história principal, Pearce busca vingança pela morte de sua sobrinha. Ele quer descobrir quem é o responsável pelo acidente no qual ela morreu e, por mais que sua irmã Nicky implore que ele esqueça isso para evitar mais traumas na família (o irmão da garotinha está mudo desde o acidente por estresse pós-traumático), ele faz e desfaz alianças com hackers – nem sempre amigáveis – da cidade para concluir seu objetivo.

O problema é que tanto Aiden como o resto de sua família, seus amigos e inimigos, sofre de uma terrível falta de carisma que faz com que o jogador não pudesse se importar menos com sua história, suas motivações e o que tem que fazer no jogo. Aiden é um personagem que disfarça sua falta de profundidade com uma aura de mistério forçada; Nicky, que passa boa parte da história esperando o socorro do irmão e conversa com ele nem sempre de maneira educada pelo telefone, chega a ser irritante a ponto de você desejar que ela seja levada a um lugar sem recepção e pare de te ligar.

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Inclusive, a relação desses dois é bem estranha.

Aproveitando a imagem acima, vale falar que os gráficos também não estão tão bonitos. Joguei no PS4 e fiquei impressionada com a falta de detalhes na nova geração, ainda mais comparado aos gameplay exibidos antes do lançamento. Esse é, aparentemente, um problema de todas as plataformas – tanto que dá para fazer uma alteração na versão para PC e ter os gráficos no Ultra como visto nos vídeos divulgados pela Ubisoft.

Agora voltando a Chicago, além dos personagens serem bem pouco envolventes, disputar o interesse com todas as possibilidades de hack da cidade é complicado. E é ao deixar a história principal de lado é que a verdadeira graça de ter uma cidade hackeável se mostra.

As side missions se repetem, como é de se esperar, e há diversos tipos, como identificar e interromper crimes, destruir gangues e acabar com comboios de criminosos. Há ainda outras que podem ser desbloqueadas ao colecionar itens na cidade, como os corpos largados por um serial killer e umas gravações de voz espalhadas. Se isso não for suficiente, a própria cidade é viva o bastante para que até explorá-la sem um objetivo mandado pelo jogo seja divertido.

Além das side missions, há mini games para brincar. Tem tanto de realidade aumentada quanto as virtual trips, vendidas por pessoas suspeitas e que têm inspiração óbvia no I-Doser. Ambas são bem legais, com destaque para o game psicodélico de pular em flores gigantes e da aranha robótica que destrói a cidade.

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Que viagem, cara!

Por fim, temos o multiplayer, que também deixa o jogo bem divertido e se passa no mesmo mundo que o single player. O modo mais legal é um em que você precisa hackear o smartphone de um outro jogador sem que ele descubra, até o fim do download das informações (ou do tempo), quem é você. Obviamente, ao deixar essa opção ativada, um jogador pode surgir no seu mapa roubando as suas informações enquanto você passeia por Chicago, daí cabe a você descobrir quem é ele a tempo.

No fim, a impressão que fica é de que é muito mais legal jogar Watch Dogs fazendo o que você quer do que o que você deve fazer. Essa me parece uma grande falha na narrativa, que não consegue se mostrar interessante o bastante para que o jogador queira resolvê-la o quanto antes porque quer saber o que acontece, e não porque quer tirar isso logo da frente.

Não se sinta mal se só ligar o videogame para  roubar o dinheiro das pessoas virtuais (apesar de não utilizá-lo para nada no jogo), espiar o que elas estão fazendo em suas residências ou dirigir de maneira, digamos, descuidada: Watch Dogs também desperta o pior que há em mim. O papel de justiceiro misterioso desempenhado por Pearce na história some quando utilizar seus poderes para o mal é tão mais divertido. Não que o jogo lhe dê muitas opções de fazer o bem: causar uma explosão no meio da cidade para matar duas pessoas não é exatamente correto, a meu ver.

Mas isso é pauta para outra discussão.

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Watch Dogs não chega a descumprir o prometido – Chicago realista? Sim. Cidade hackeável? Sim. Protagonista cheio de mistérios? Sim. Explosões, violência, revelação de uma trama mais problemática do que parece? Sim. Está tudo lá, mas parece que, enquanto a construção do mundo e de suas possibilidades é envolvente a ponto de justificar você chegar em casa e dar o play no jogo, a história de Aiden Pearce passa longe disso.

Como a intenção de Watch Dogs é ser o primeiro título de uma nova grande franquia da Ubisoft, é de se esperar que a continuação seja mais refinada, tanto no que diz respeito a personagens quanto à jogabilidade – carros que não causam destruição em massa a cada curva, atirar dirigindo e um uso para a reputação são alguns exemplos de coisas que mereciam mais atenção.

Pelo menos, a Ubisoft está de olho no feedback e já falou que, talvez, Aiden Pearce não volte para a sequência de Watch Dogs.

Lembra alguma coisa? Mais uma vez traçando um paralelo com Assassin’s Creed, a estreia da franquia, lá em 2007, passou por problemas semelhantes, como um protagonista chato, missões repetitivas e algumas coisas sem sentido – Altaïr não pode cair na água que morre, lembra? Mas isso foi superado em Assassin’s Creed 2, que trouxe o carismático Ezio e outros personagens mais interessantes, novas armas, formas de combate e missões de diversos tipos.

Apesar dos problemas, Watch Dogs vale o seu tempo, ainda que seja só para se divertir longe de Aiden e sua família chata. É um título de início de geração e de franquia, então esperamos que, a partir dele, venha muita coisa boa. Só não sei se ele vale tanto tempo quando a campanha principal precisa – o tempo médio para conclusão é de cerca de 40 horas.

Ficha técnica

  • Plataforma: PC, PlayStation 3, PlayStation 4, Xbox 360 e Wii U
  • Lançamento mundial:15 de novembro de 2013
  • Preço sugerido: R$ 129,99 (Steam)
  • Desenvolvedor: Ubisoft Montreal
  • Distribuidor: Ubisoft
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