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O cinto de segurança está ficando inteligente

Apesar de ser uma invenção antiga, o cinto de segurança pouco evoluiu. Mas ideias para deixá-lo mais eficiente estão surgindo.

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2 anos e meio atrás

O cinto de segurança é uma das invenções que mais contribuem para a proteção dos ocupantes de um carro. Apesar de ser uma ideia antiga, esse dispositivo não passou por grandes mudanças nas últimas décadas. Mas isso está começando a mudar. Ainda que devagar, é crescente o número de tecnologias que visam deixar o cinto de segurança mais… seguro. Eu mostro algumas a seguir.

Três pontos

É automático. A primeira coisa que eu faço ao entrar em um carro é colocar o cinto de segurança. Deve ser assim com você também. Não sei exatamente quando e como desenvolvi esse hábito, mas ainda bem que o tenho: graças ao cinto, eu só saí com alguns hematomas de um acidente de carro sério que sofri em 2012.

Cinto de segurança

Esse tipo de situação costuma ser marcante. Lembro, no momento da colisão, de ter sentido a minha cabeça e meus braços serem jogados para frente como se eu não tivesse nenhum domínio sobre o meu corpo. Meu tronco também estava sendo lançado, mas, de repente, algo bem forte me “abraçou” e me manteve no lugar.

Doeu. Não foi um abraço gentil. Para piorar, eu fiquei ligeiramente desnorteado, tamanha a velocidade com que tudo aconteceu. Além do susto, eu estava surpreso com o fato de não ter conseguido controlar nada. Achar que você pode se segurar em um impacto tão forte é ingenuidade. Eu só fiquei ali, no mesmo assento, porque o cinto não me deixou saber como é voar através do para-brisa.

Eu — assim como várias outras pessoas — devo a minha integridade física naquele dia ao sueco Nils Bohlin, tido como criador do cinto de segurança de três pontos. Ele introduziu o dispositivo em um carro da Volvo lançado em 1959. O acessório se mostrou tão importante que, nos meses seguintes, passou a estar presente em veículos de outras marcas.

Nils Bohlin

Nils Bohlin

Não era uma ideia totalmente nova, porém. Na década de 1940, o designer automotivo Preston Tucker desenvolveu um carro com características incomuns para a época. Comercialmente, o Tucker Torpedo, como ficou conhecido, foi um fracasso (a história envolve conspiração e sabotagem, tanto que foi retratada no filme Tucker — Um Homem e Seu Sonho), mas trouxe diversas inovações, entre elas, o cinto de segurança.

Mas havia diferenças importantes entre os dois cintos. O de Tucker era de dois pontos e, como tal, podia livrar o ocupante de ser lançado do carro, mas favorecia o surgimento de diversos tipos de lesões por não evitar, por exemplo, que o motorista batesse a cabeça no volante.

Com o surgimento do cinto de três pontos, que prende o corpo de modo mais distribuído, o risco de lesões caiu consideravelmente. Não é surpresa que esse tipo de cinto tenha virado dispositivo de segurança essencial.

Volvo Amazon, o primeiro carro com cinto de três pontos

Volvo Amazon, o primeiro carro com cinto de três pontos

Síndrome do cinto de segurança

O cinto de três pontos apareceu como uma ideia tão bem desenvolvida que, da década de 1960 (quando começou a ser adotado massivamente) para cá, pouca coisa mudou, com exceção para ajustes ergonômicos e nos materiais usados no dispositivo, nada muito além disso.

Só que o cinto de segurança, mesmo o de três pontos, também pode causar ferimentos. As lesões causadas pelo uso do dispositivo receberam até nome: síndrome do cinto de segurança. O problema ocorre, por exemplo, quando uma pessoa sofre trauma no abdômen por conta da força exercida pelo cinto durante um impacto frontal.

Teste de cinto de segurança

Na maioria das vezes, a tal síndrome do cinto de segurança ocorre devido ao uso incorreto do dispositivo. É o caso, por exemplo, de quem dá um jeito de deixar o cinto afrouxado para se sentir mais confortável dentro do carro.

Cinto inflável

Há casos de lesões que ocorrem mesmo com o uso correto do cinto. Na maioria das vezes, a região pressionada pelo cinto durante o impacto fica dolorida ou apresenta hematomas. São problemas menos sérios do que aqueles que possivelmente seriam causados se o dispositivo não estivesse sendo usado. Mesmo assim, um ou outro caso pode apresentar algo mais importante, como costelas quebradas.

Lesões causadas pelo uso do cinto ocorrem desde que a invenção virou item obrigatório nos carros. Mas só recentemente é que a indústria passou a olhar com mais atenção para o problema, afinal, sempre prevaleceu a ideia de que é melhor ter um ferimento aqui ou outro ali do que morrer por causa da falta do cinto de segurança.

Uma ideia que vem sendo cada vez mais aceita é o cinto de segurança inflável. É como se fosse uma mistura de cinto com airbag. A Ford apresentou a ideia em 2011, a patenteou e, em 2014, a liberou para uso da concorrência.

Funciona assim: o cinto possui internamente uma espécie de bolsa que, em uma situação de colisão, se enche de ar imediatamente. Nesse processo, a bolsa ultrapassa o tecido do cinto e se expande lateralmente. Dessa forma, o cinto fica fixado de uma maneira mais abrangente sobre o corpo.

Essa técnica faz a energia do impacto ser distribuída de maneira mais eficiente, diminuindo os riscos de lesões. A expansão da bolsa também faz o cinto preencher eventuais folgas, reduzindo as chances de ferimentos na cabeça ou no pescoço, por exemplo, causados pelo efeito chicote do impacto.

 Cinto de segurança inflável

Cinto que se solta sozinho

O cinto de segurança também é importante no transporte público. No Brasil (e em vários outros países), os ônibus urbanos têm cinto apenas para o motorista. Os ônibus rodoviários — aqueles utilizados em viagens ou turismo — devem ter cinto de segurança para cada passageiro, porém.

Nos ônibus, o problema do cinto é que, em caso de necessidade de evacuação imediata — por conta de um incêndio, por exemplo — um único passageiro que se atrapalhar para tirar o acessório pode atrasar os outros.

Em julho, uma empresa de TI chamada Atos foi premiada na Europa por desenvolver uma tecnologia que permite que todos os cintos de segurança de um veículo sejam destravados de uma só vez em caso de emergência.

Cinto de segurança - Atos

Originalmente, o sistema foi desenvolvido para veículos que transportam muita gente, mas ele pode, em teoria, ser adaptado para automóveis comuns. Imagino uma ideia como essa evitando aquelas cenas que o cinema adora retratar: pessoas que não conseguem soltar o cinto em um carro pegando fogo ou que caiu em um lago.

Para proteger a ideia, a companhia não deu detalhes sobre o funcionamento, mas revelou que a tecnologia pode usar diversos tipos de sensores, como de temperatura e movimento. Isso sugere que o sistema é capaz de detectar uma colisão e destravar os cintos automaticamente se o motorista não realizar nenhuma ação em tempo hábil.

Não dorme, não!

O cinto de segurança foi desenvolvido para atuar quando um acidente acontece, mas ele também pode ser usado para prevenção. Essa é a proposta do Harken, sistema criado no Instituto de Biomecânica de Valência, na Espanha.

Com o uso de sensores presentes no assento e no cinto de segurança, o Harken monitora a atividade cardíaca e a respiração do motorista. Para quê? Uma causa bastante comum de acidentes é a fadiga e, consequentemente, a sonolência. Os parâmetros monitorados podem indicar se o condutor está perigosamente cansado. Nessas circunstâncias, o sistema pode emitir um aviso para que ele pare ou passe a direção para outra pessoa.

Faz bastante sentido que os sensores sejam colocados no cinto. O dispositivo é de uso obrigatório e está em contato direto com a pessoa, aumentando as chances de precisão nos resultados.

Além de carros de passeio, o Harken pode ser implementado em ônibus e caminhões como complemento às tecnologias adotadas por algumas empresas de transporte para evitar que condutores alcoolizados ou com algum problema de saúde capaz de afetar a função — pressão alta, por exemplo — assumam os veículos.

Quando?

A Ford já oferece cintos infláveis em alguns modelos, com destaque para a linha Fusion (incluindo as versões vendidas no Brasil). Note, porém, que o cinto inflável só é instalado no banco traseiro, pois os passageiros que viajam ali estão mais suscetíveis a lesões por movimento brusco — airbags não são tão eficientes ali.

Já a tecnologia que destrava todos os cintos de segurança deve ser oferecida em escala comercial nos próximos meses. A Atos e institutos parceiros ainda avaliam a eficácia e a viabilidade da ideia.

O Harken está mais para um conceito. Não deveremos encontrar a tecnologia no mercado, mas é possível que companhias do setor se inspirem na ideia para oferecer recursos semelhantes.

Outras ideias devem surgir por aí, como cintos com ajuste inteligente ou que se fixam sozinhos à pessoa. Não é por modismo ou mero capricho, mas por necessidade. Mesmo quando carros autônomos dominarem as ruas e tecnologias como semáforos inteligentes otimizarem o tráfego, o risco de acidentes nunca será nulo.

Sim, o cinto de segurança continuará tendo papel importante mesmo no mais futurista dos cenários. Nada mais natural que invenção evolua junto com todos os outros avanços da indústria automotiva.