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E o 3DS vai mal das pernas. Você está surpreso?

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7 anos atrás
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Apesar de jurar de pés juntos que considero o SNES o melhor videogame de todos os tempos e de adotar o Mario e sua iconografia clássica como extensões da minha própria personalidade, venho há tempos sendo taxado de hater da Nintendo. Ultimamente minhas análises dos esforços da Big N são extremamente pessimistas, o que aparentemente levou alguns dos leitores à conclusão de que mantenho uma posição quase dogmática de odiar a empresa e tudo que ela produz.

Naturalmente, não é o caso. A Nintendo fez uma imensa parte da minha infância, como deve ser o caso de muitos vocês. Eu gostaria muito de ver a Nintendo repetir nesta futura geração os sucessos do Wii e do DS — inovações que praticamente definiram esta geração dos consoles —, mas temo que o reinado da Nintendo acabou.

Ao contrário do GameCube (que ocupou a lanterna de sua direção por causa da falta de interesse dos produtores independentes), eu sinto que toda a filosofia por trás do 3DS está errada. Eu espero muito estar enganado, mas tudo parece indicar o contrário. Explico.

Fracasso

Em junho escrevi uma coluna intitulada “É o fim da dominação da Nintendo nos portáteis?“. Nela, expliquei que é possível que o preço elevado do 3DS, seu parco acervode games e principalmente o ecossistema atual de videogames portáteis (que incluem aparelhos que anos atrás não competiam com consoles de bolso, como dispositivos iOS e Android) dificultariam que a Nintendo ocupasse com o 3DS seu lugar tradicional no pódio das vendas de videogames portáteis.

Antes disso, em janeiro, indaguei se “Seria o Nintendo 3DS uma sequência do Virtual Boy?” — um título provocativo, admito, mas não sem mérito. Nele argumentei que o carro-chefe que o efeito 3D sem óculos especiais é um atrativo muito tênue pra mover a migração para a nova plataforma, e que as deficiências inerentes à tecnologia (drástica redução da vida de bateria, ângulo perfeito requerido para o efeito funcionar de forma satisfatória e o inevitável cansaço visual) subtraem muito da experiência, talvez deixando-a em déficit e dissolvendo o interesse dos gamers.

Em março, numa entrevista para a Wired americana, Hideki Konno (um figurão da Nintendo envolvido no desenvolvimento do 3DS) explicou que a empresa não está forçando os desenvolvedores a produzirem conteúdo exclusivamente em 3D. Embora sites especializados como o Engadget pareçam ver esta posição da Nintendo como “encorajadora“, a meu ver é quase uma admissão de que apostar todas as fichas no hype da tecnologia 3D já começou a se revelar uma estratégia mal pensada. Daí o meu ponto de que toda a filosofia por trás do console foi um passo atrapalhado.

Historicamente, quando uma empresa bola uma nova tecnologia ou mecânica de funcionamento, é comum que ela insista que os desenvolvedores a usem para tudo. Um caso clássico foi do sistema de achievements do Xbox 360: a Microsoft insistia que todo jogo para o console tivesse gamerscore e achievements. O que aconteceu é que o modelo se consolidou, tornou-se um padrão, e estendeu-se para outros consoles.

Em resumo, deu certo. Até leitores de e-book têm achievements hoje em dia, sabia?

Kobo Touch, um ebook reader que presenteia leitores com achievements baseados nos seus hábitos de leitura. Na foto, ganhei um achievement por ler pela quinta vez durante horário de almoço.

Cabe lembrar que a contra-mão do fenômeno acontece também. Quem esqueceu dos jogos de DS que não tinham a menor necessidade de implementação com touch screen, mas tentavam mesmo assim?

Meu ponto é que quando uma empresa bola um certo elemento de gameplay — e mais que isso, usa tal elemento em algo tão fundamental quanto o nome do aparelho —, e em seguida parece dar para trás na ideia dizendo que “nem todo jogo precisará usar 3D”, me parece mais uma situação de descrença na filosofia por trás da tecnologia do que uma medida para evitar repetir os erros dos games com uso completamente desnecessário da tela touch.

E o resultado está aí. O 3DS vendeu apenas 830 mil unidades no mundo inteiro entre abril e junho, o que é uma imensa vergonha pra Nintendo. A empresa resolveu então reduzir o preço do console em 40% apenas quatro meses após o lançamento. Para qualquer pessoa que acompanhe a indústria, é notável o desespero. Esse tipo de corte de preço costuma aparecer muito mais tarde no ciclo de vida do console, pra reenergizar as vendas. Nova etiqueta assim tão cedo é um péssimo sinal.

Pra você ter uma noção de quão danoso à empresa o 3DS está sendo, a Nintendo teve que reduzir suas metas de lucro pra 2012 em 81%. Eles esperavam faturar US$1,40 bilhão, mas agora estão projetando somente US$254 milhões. Além disso, as ações da Nintendo sofreram  uma queda de 20% no dia do corte de preço do 3DS. Até mesmo os executivos da Nintendo tomaram uma significativa redução salarial, o que me parece um misto de castigo com tentativa de apertar os cintos financeiros.

Satoru Iwata, presidente da Nintendo, chegou a dizer (com o que me parece o mais próximo de mágoa que grandes executivos deixariam transparecer publicamente) que  achava sinceramente que “os fanboys comprariam o aparelho, não importando o preço“.

Parece que foi ontem que o Ken Kutaragi, na época CEO da Sony, defendeu o preço exorbitante do PS3 dizendo que potenciais compradores deveriam simplesmente trabalhar mais pra poder comprar o console. Não sei vocês, mas acho engraçado quando executivos supervalorizam o interesse público por seus produtos e são surpreendidos com a realidade. A história se repete.

Não posso mentir: ver minhas previsões de fracasso do 3DS se concretizando tão rapidamente me causa uma pequena satisfação, embora isso seja apenas pelo fato de que tantos comentaristas aqui no Tecnoblog pareceram querer ver minha cabeça numa estaca cada vez que eu declarava falta de fé no sucesso do novo portátil da Nintendo.

É possível que o sistema recupere o fôlego perdido quando os grandes títulos que costumam propulsionar hardware da Nintendo (os Zeldas, Marios, Pokemons e similares) começarem a dar as caras. E essa redução de preço — de US$250 pra US$170 — torna o 3DS bem mais atraente, embora seja drástica, inesperada, e revela que as coisas não vão tão bem na casa do Mario. Compare com o Wii: demorou três anos para a Nintendo finalmente decidir que o console precisava de uma redução de preço, e esta redução foi de apenas 50 dólares.

Acredito que a “escrita está na parede“, como dizem os gringos. Não acho que seja impossível que a Nintendo dê a volta por cima e retome sua posição dominante no ambiente portátil. Entretanto, acho que ela nunca enfrentou um desafio tão grande como o atual: convencer consumidores (que em boa parte já têm em seus bolsos aparelhos que rodam games de US$0,99) a comprar um aparelho caro e que se baseia numa tecnologia que ela própria parece considerar irrelevante.