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É possível “piratear” NFTs com o botão direito do mouse? Não é tão simples

E se você simplesmente baixar a imagem vinculada a um NFT milionário? Você poderia vendê-lo novamente e ficar rico? Claro que não

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Mosaico feito por @nicodotgay com 10 mil NFTs da popular coleção "Lazy Lions" (Imagem: Reprodução/Twitter)
Mosaico feito por @nicodotgay com 10 mil NFTs da popular coleção “Lazy Lions” (Imagem: Reprodução/Twitter)

Com o boom do mercado de NFTs em 2021, muito se discutiu sobre a tecnologia por trás deles, sobre o conteúdo que vem sendo registrado como ativos digitais e sobre os preços (às vezes milionários) pagos por “simples” tokens não fungíveis. Mais recentemente, vimos um movimento nas redes sociais que incentivava “piratear” NFTs através do botão direito do mouse (right-click), salvando assim uma cópia do arquivo.

No entanto, é possível roubar ou piratear um NFT dessa forma? A resposta para isso pode não ser o que você espera. Sim, qualquer um pode copiar e salvar o arquivo atrelado a um NFT em sua área de trabalho e alegar que “possui” uma obra de arte digital, por exemplo. No entanto, esse arquivo de imagem não possui nenhum valor e tampouco configura um ativo digital, com autenticidade garantida por um registro em rede blockchain.

Um exemplo prático e recente foi a criação do chamado “The NFT Bay”, em alusão à famosa plataforma de torrents e arquivos piratas “The Pirate bay”, em meados de novembro. O australiano Geoffrey Huntley, idealizador da plataforma, juntou todos os arquivos atrelados aos NFTs das redes Ethereum e Solana em um único torrent chamado de “o torrent de um bilhão de dólares”.

Segundo o criador do projeto, o “The NFT Bay” seria uma grande crítica ao mercado de tokens não fungíveis e às fortunas que são gastas para comprar representações digitais “inúteis”. Toda a plataforma foi baseada no download dos arquivos atrelados aos NFTs de dois dos principais blockchains que hospedam esses ativos.

“Você sabia que um NFT é apenas um hiperlink para uma imagem geralmente armazenada no Google Drive ou em outro webhost?”, questionou Huntley na página de descrição do projeto.

The NFT Bay permite o download de NFTs “pirateados” (Imagem: Reprodução)
The NFT Bay permite o download de NFTs “pirateados” (Imagem: Reprodução)

“Pessoas estão gastando milhões em instruções para realizar o download de imagens. Por isso, você pode usar o segundo clique do mouse para baixá-las, porque são apenas imagens. A imagem em si não está armazenada no contrato em blockchain… Já que webhosts são conhecidos por ficarem offline (erros 404), aqui está um torrent muito útil que contém todos os NFTs para que as futuras gerações possam estudar a atual geração ‘tulipomania’ (em referência à primeira bolha especulativa da história) e ‘Maria vai com as outras”.

Bom, Huntley não está tecnicamente errado, mas sua visão é limitada. Complexo? Não se preocupe, vou explicar tudo isso mais detalhadamente. Mas, precisamos retomar um pouco a definição de um token não fungível e o porquê dessa forma de ativo digital possui valor.

Por que um NFT tem valor?

Relembrando, um NFT, ou token não fungível, é uma ferramenta que permite que qualquer um registre essencialmente qualquer coisa em uma rede blockchain. Essa é a mesma tecnologia por trás das criptomoedas, como o bitcoin (BTC) e ether (ETH), considerada extremamente segura.

Essas redes são geralmente descentralizadas, significando que não há nenhuma empresa ou instituição que a administra. Assim, o processamento de dados e as decisões sobre atualizações importantes estão nas mãos dos usuários.

Com isso explicado, voltemos aos “NFTs piratas”. Na realidade, é impossível copiar ou piratear o token em si. Esses ativos são únicos, registrados em blockchain e contam com a mesma segurança e autenticidade de uma criptomoeda. Mas não era disso que o idealizador do “The NFT Bay” estava falando. Ele critica os arquivos de imagem, como JPGs, PNGs, GIFs e MP4s, por exemplo, que são atrelados a esses tokens não fungíveis e vendidos por até mesmo milhões.

É inevitável lembrar do caso do artista digital Beeple, que leiloou sua obra “Everydays — The First 5000 Days” por mais de US$ 69 milhões na Christie´s no começo de março, considerado até hoje o NFT mais caro da história. Assim, podemos entender que a arte digital, através de tokens não fungíveis, segue o mesmo padrão de raciocínio que sempre foi aplicado sobre a arte tradicional.

Obra NFT de Beeple: "Everydays: The first 5000 days" (Imagem: Reprodução)
Obra NFT de Beeple: “Everydays: The first 5000 days” (Imagem: Reprodução)

Existe alguém com mais propriedade para falar disso. A artista digital brasileira que atende por Daisa TJ conversou com o Tecnoblog sobre o assunto:

“Se alguém vê minha obra e oferece 0,5 ETH por ela, então ela vale isso. Se outro colecionador oferecer 1 ETH, o valor do NFT sobe para isso. Basta que uma pessoa acredite e atribua um preço.”

E ela está extremamente certa. No atual mercado de NFTs, mesmo quando o produto em si não é uma peça de arte digital, mas sim um card colecionável ou um modelo 3D para alguma plataforma de metaverso, o valor desses ativos é determinado principalmente pela atribuição pessoal. No entanto, isso só é possível porque quem está comprando um desses tokens sabe que terá um certificado de autenticidade e que aquele NFT será único para sempre.

Além disso, sendo um ativo digital, um token não fungível pode ser revendido posteriormente, algo que atrai investidores do mercado de capitais que veem uma grande oportunidade para lucrar no médio e longo prazo.

Mesmo assim, essa atribuição de valor é questionada por outros ângulos. Por exemplo, Huntley, o idealizador do “The NFT Bay”, retorna repetitivamente ao fato de que o arquivo de imagem não está efetivamente armazenado em blockchain.

O que exatamente é registrado em blockchain?

Bom, isso depende muito de qual blockchain estamos lidando. Geralmente, assim como Huntley pontua, o contrato inteligente assinado no processo de criação de um NFT não armazena efetivamente o arquivo de imagem. Na realidade, essas fotos, ilustrações, GIFs ou vídeos, por exemplo, vão para um database para gerar um hiperlink que será vinculado então ao contrato do token não fungível, eternizado na rede blockchain.

NFTs não são regulamentados na maioria dos países (Imagem: Executium/ Unsplash)
NFTs não são regulamentados na maioria dos países (Imagem: Executium/ Unsplash)

A maior crítica de Huntley sobre essa mecânica é o fato de que esses webhosts podem, eventualmente, desaparecer e o arquivo vinculado ao NFT ser perdido. Por isso, em sua visão, esses tokens seriam apenas “instruções para o download de uma imagem.”

No entanto, Daisa traz um contra-argumento interessante. A artista digital brasileira, que trabalha há meses vendendo suas obras como NFTs, destaca que esse mecanismo é algo que também a incomoda, mas que varia de rede para rede. “Tudo isso depende do contrato da plataforma e é possível realizar contratos que permitem especificamente que essas imagens sejam armazenadas de forma mais segura. Por isso, existem ‘chains’ mais seguras que outras para se criar NFTs”.

Além disso, a artista lembra de algo extremamente importante e que constantemente esquecemos diante do ritmo frenético de novidades na área da tecnologia: “precisamos entender que, por mais que os NFTs, como tenologia, já existam há alguns anos, o uso desses tokens no mercado de arte acontece há apenas um ano”.

Segundo Daisa, esse período é curto demais para que as plataformas, redes e a tecnologia em si contemple todas essas questões. “Muitos problemas já aconteceram e muitos ainda vão acontecer, o setor está evoluindo. Toda tecnologia tem falhas…”

Como direitos de imagem entram na equação?

Outro ponto importantíssimo para a questão de cópias de NFTs destacado em nossa conversa são os direitos do autor do objeto registrado. Afinal, um problema muito real nesse universo cripto é que o mundo em blockchain está ainda muito desvinculado do jurídico na maioria dos países. O conceito de NFT, criptografia, moedas digitais e tudo mais ainda é pouco assimilado pela justiça.

Coleção de NFTs de avatares CryptoPunks (Imagem: Reprodução/Christie's)
Coleção de NFTs de avatares CryptoPunks são copiados constantemente (Imagem: Reprodução/Christie’s)

Então, como ficam os diretos autorais, de imagem e de utilização de cada arquivo registrado como NFT? Bom, Daisa reafirma que direitos autorais sempre serão do autor e que os tokens não fungíveis oferecem mais recursos para que se prove a autenticidade e posse do objeto em questão. Vale lembrar que a venda de NFTs quase nunca inclui qualquer direito sobre a imagem, GIF ou vídeo que se está comprando.

Portanto, se um caso desses chegar à justiça, por mais confuso que seja, o autor terá mais chances de provar a posse e autoria do arquivo, algo que não muda por um simples segundo clique do mouse.

“Uma vez registrada a obra em blockchain, o token será para sempre de minha autoria, sempre receberei os royalties de vendas… Por mais que a pessoa esteja comprando essencialmente um link, nós estamos validando o registro, é isso que tem valor”.

No entanto, há uma discussão jurídica muito complexa a ser feita aqui. Uma vez que o token é atrelado a um hiperlink, seria um argumento plausível dizer que o dono desse token não necessariamente é o dono da imagem em questão, já que ela não está presente diretamente no contrato em blockchain? Não sei as implicações futuras disso, mas escolho deixar para os especialistas.

De qualquer forma, toda essa história finalmente resultou em alguma conclusão.

O que acontece quando se faz o “right-click”

“O que alguém ganha quando da um ‘right-click’ sobre um NFT e baixa a imagem?”, perguntei à Daisa. “Você ganha um novo wallpaper”, ela me respondeu. É isso.

Produtos piratas (Imagem: Peter Dutton/Flickr)
Pirataria (Imagem: Peter Dutton/Flickr)

No final das contas, é impossível “piratear” um NFT. Claro, você pode baixar o arquivo de imagem na sua área de trabalho e achar que detém uma obra de arte digital, ou um colecionável, ou qualquer coisa que seja. Porém, é o token registrado em blockchain que representa a imagem. O NFT é o certificado de posse e de autenticidade, e é por isso que ele tem valor.

Hipoteticamente, se você baixar uma obra já registrada como NFT, e criar um outro NFT para ela, seu token não terá valor algum. O blockchain não mente e é aberto a todos. Nenhum colecionador compraria um ativo digital plagiado. Além disso, Daisa me garantiu que a comunidade de artistas digitais é extremamente unida e engajada no mundo todo.

“Já vi muita justiça sendo feita dentro da comunidade. Ao descobrir que alguém está plagiando o trabalho de outro, a comunidade, que é muito forte, garante que essa pessoa não tenha mais sucesso”, explica Daisa. Na prática, se você pretende copiar o trabalho de outro e vender como NFT, tome cuidado, pois certamente terá muitos problemas.

Por fim, eu entendo que vender uma obra digital, algo que para muitos ainda é pouco tangível, por milhões de dólares possa parecer absurdo. Mesmo assim, precisamos lembrar que são esses os casos que viralizam na internet e que chegam à mídia do mundo todo. Mas a realidade é bem diferente.

Foram os NFTs que deram uma oportunidade para que artistas digitais de qualquer nacionalidade conseguissem valorizar e vender seus trabalhos de maneira segura, consistente e para o mundo todo. Além disso, essa mesma tecnologia consegue garantir a autenticidade e escassez de uma obra, reproduzindo a lógica que ocorre há centenas de anos no mercado tradicional de arte física.

É claro que o atual mundo dos NFTs tem seus “haters”. É fácil se indignar quando vemos que alguém ganhou milhões ao vender algo “simples” (coloco muitas aspas aqui) feito no Photoshop. No entanto, Daisa disse algo importantíssimo e será com esta citação que encerrarei este texto:

“Quando você ‘pirateia’ uma obra em NFT, você não está desvalorizando o trabalho de milionários, você está atingindo nós, a maioria, artistas pequenos que encontraram agora uma chance de mudar de vida… Mas eu entendo, também não gosto de milionários, mas isso não os afeta, afeta quem buscou uma oportunidade a vida inteira e agora tem uma chance com os NFTs.”