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TSE tenta explicar gasto de R$ 26 milhões em nuvem Oracle

Segundo o TSE, serviço foi contratado sem licitação após certidão apontar que só a Oracle pode oferecer "nuvem Oracle"

Victor Hugo Silva Por

Após o atraso na divulgação dos resultados do primeiro turno das Eleições 2020, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tentou explicar o ocorrido. O órgão informou que o erro aconteceu com a nuvem privada da Oracle, adquirida por R$ 26,2 milhões em processo sem licitação. O contrato foi realizado dessa forma pois o tribunal entendeu que só a empresa poderia oferecer “nuvem Oracle”.

Tribunal Superior Eleitoral (Imagem: Marcus Amorim/Flickr)

Tribunal Superior Eleitoral (Imagem: Marcus Amorim/Flickr)

Em nota divulgada na terça-feira (17), o tribunal afirmou que utiliza serviços da Oracle desde 1996, quando a urna eletrônica foi implementada no país. Nas Eleições 2020, a empresa foi contratada para centralizar a totalização dos votos no TSE — até então, a totalização acontecia em cada Tribunal Regional Eleitoral (TRE). A nova contratação foi analisada por vários setores do TSE e confirmada em março de 2020.

O processo considerou a Lei das Licitações (Lei 8.666/1993), que autoriza compras sem licitação “quando houver inviabilidade de competição, tendo em vista a existência de fornecedor exclusivo”. O TSE afirma ter se baseado na Associação Brasileira de Empresas de Software (ABES), que emitiu a seguinte certidão:

“A Oracle do Brasil Sistemas Ltda. detém exclusividade para vender serviços de cloud Oracle para entidades da Administração Pública, nas contratações cujo objeto seja exclusivamente a prestação de serviços de cloud Oracle, ou seja, sem qualquer serviço agregado relacionado ao cloud Oracle”.

Como é possível perceber, a ABES não afirma que a Oracle é a única que presta serviços de nuvem para órgãos públicos. O que a nota diz é que a empresa tem exclusividade sobre a nuvem Oracle. Portanto, ao menos em teoria, o TSE poderia buscar serviços equivalentes de empresas como Amazon, Microsoft e Google.

Em sua explicação, o tribunal não trata da existência de outros serviços e afirma que o modelo de contratação sem licitação também é usado por órgãos como a Procuradoria-Geral da República (PGR) e o Supremo Tribunal Federal (STF).

TSE explica lentidão na apuração

Pelo contrato da nuvem privada, a Oracle se comprometeu a disponibilizar no prédio do TSE dois dispositivos de processamento: o Exadata X8 Full Rack, com oito núcleos, e o Exadata X8 Half Rack, com quatro núcleos. O tribunal havia considerado que a lentidão para a totalização dos votos ocorreu por conta do desligamento de um dos núcleos do aparelho principal, de oito núcleos.

A equipe da Secretaria de Tecnologia da Informação (STI) do TSE concentrou esforços para restabelecer o núcleo desligado, mas só depois identificou que a lentidão não estava ligada a esta falha. Na verdade, o problema aconteceu no recurso que otimizaria o processamento de dados por meio de inteligência artificial.

Segundo o tribunal, ele foi treinado no domingo (15) para simular o processamento dos votos. No entanto, o treino aconteceu com tabelas vazias, um cenário muito diferente da realidade, onde são recebidas mais de um milhão de linhas por minuto.

“O plano de execução gerado pelo computador com o banco vazio mostrou-se inadequado para o processamento com o banco de dados cheio. Com isso, o equipamento não deu conta de, simultaneamente e com a rapidez necessária, aprender um novo plano de execução adequado para o processamento do grande volume de dados e realizar a totalização com a celeridade esperada”, afirmou o TSE.

O órgão eleitoral informou que o ritmo da totalização dos votos aumentou quando o sistema foi paralisado e um novo plano de execução, mais adequado, foi criado. “É normal que a aprendizagem da inteligência artificial do equipamento consuma tempo. Porém, isso poderia ter sido evitado com a realização de testes para calibrar o otimizador”, continuou o tribunal.

A nota indica que os equipamentos passaram por apenas 2 dos 5 testes planejados. Isso aconteceu por conta de um atraso na entrega. O contrato assinado em março previa que eles seriam entregues no início de junho, mas, com a pandemia do novo coronavírus, a Oracle alegou que foi afetada pela ausência de peças eletrônicas e indisponibilidade de dispositivos. Os aparelhos foram entregues em julho e, com o processo de configuração, ficaram disponíveis para uso do tribunal em agosto.

Apesar do atraso, o TSE avalia que “a Oracle cumpriu, no curso do episódio, todas as obrigações assumidas”. O tribunal afirma ainda que a falha no plano de execução não acontecerá no segundo turno, marcado para 29 de novembro, porque o otimizador já está calibrado para processar os votos com mais velocidade.

Com informações: O Globo, Poder360.

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Andre Kittler (@Andre_Kittler)

O contrato foi realizado dessa forma pois o tribunal entendeu que só [a oracle] poderia oferecer “nuvem Oracle”.
ou
“No entanto, o treino [da A.I.] aconteceu com tabelas vazias, um cenário muito diferente da realidade”

Difícil de definir qual a melhor dessas joias…

John Smith (@john)

"Como é possível perceber, a ABES não afirma que a Oracle é a única que presta serviços de nuvem para órgãos públicos. O que a nota diz é que a empresa tem exclusividade sobre a nuvem Oracle. Portanto, ao menos em teoria, o TSE poderia buscar serviços equivalentes de empresas como Amazon, Microsoft e Google.

Em sua explicação, o tribunal não trata da existência de outros serviços e afirma que o modelo de contratação sem licitação também é usado por órgãos como a Procuradoria-Geral da República (PGR) e o Supremo Tribunal Federal (STF)."

Uma compra desse porte sem qualquer justificativa adequada. Só pode ser uma piada de mal gosto.

Em qualquer compra pública, principalmente de TI, é necessária a devida análise das soluções disponíveis no mercado, devendo ser justificada a inviabilidade de contratar uma solução em relação à outra. Como a matéria aponta, existem pelo menos outras três gigantes capazes de oferecer solução de processamento de dados em nuvem, mas a justificativa dada pelo TSE é o famoso “migué” que não engana ninguém, mas aparentemente é suficiente pros órgãos de controle.

Complementando: E vale lembrar que as justificativas ridículas do TSE também se mostraram presentes no último domingo, quando culparam o “excesso de acessos simultâneos” e “downloads de última hora” pela indisponibilidade do aplicativo e-Título, sendo que ele deveria justamente aguentar a maior carga possível no único dia em que se mostra mais necessário: eleições. E até onde eu sei, os downloads são fornecidos pela Google e Apple…

Breno (@bbcbreno)

26 milhões pra um usar por 1 dia a tal nuvem oracle?

É assim, né? A gente é obrigado a pagar impostos pra coisas desse tipo! =/

Sérgio (@trovalds)

O nome disso é “TI querendo inventar moda”. Antes as totalizações eram feitas pelos TREs, que só enviam os resultados ao TSE para homologação.

Daí esse ano “inventaram” que a totalização deveria ser feita no TSE, que receberia os dados brutos diretamente dos centros de apuração de cada cidade. É claro que eles não previram que um computador minúsculo desses não ia ser capaz de processar e validar algo em torno de 150 milhões de votos em questão de minutos.

O software pode ser o melhor do mundo e o mais capaz pra tamanho processamento (o que de fato é em vários cenários). Mas daí o software precisa de um hardware capaz pra isso.

Explicando algumas coisas: apesar da “nuvem Oracle” aparecer, o produto em si pode ser instalado como uma nuvem privada em um datacenter que o cliente detenha. Não é como os produtos da Amazon e Microsoft, em que os dados ficam nos datacenters deles. O que eles não foram capazes de prever é a capacidade de hardware pra isso.

E pra encerrar: que raio de equipe de TI faz um teste de processamento com os bancos de dados zerados? Gerar um banco de dados fictício maior que o que travou a máquina levaria minutos e evitaria essa vergonha e esse desperdício de dinheiro.

E em falando em desperdício: pra que eles vão inventar um servidor pra ser usado à máxima capacidade por apenas algumas horas a cada 2 anos? E o resto do tempo fica lá aquele monstro totalmente ocioso. Pelo menos um plano pra que essa infraestrutura seja compartilhada com outros órgãos, ninguém pensou?

É muito desperdício de dinheiro.

Sérgio (@trovalds)

A nuvem que o TSE contratou é uma “nuvem privada”. Você cria os serviços de nuvem da Oracle na sua própria infraestrutura. No caso de Amazon, Microsoft e outras empresas eles só vendem o serviço que é todo feito na infraestrutura deles. A Oracle também oferece serviços de nuvem com infraestrutura deles.

Gabriel Arruda (@gdarruda)

Na verdade, esse erro que eles cometeram é bem comum. Não é tipo um cientista de dados que roda esse treinamento, é algo que já vem no banco e pouco programador conhece.

O que eles estão chamando de “IA” é o otimizador de consultas do Oracle, que usa dados descritivos da tabela para desenhar os planos de execução. Em geral, isso funciona automaticamente e a maioria dos programadores nem precisar saber disso, manda um SQL lá e o SGBD faz várias otimizações por trás e responde.

Quando é um sistema rodando há tempos, geralmente isso já está azeitado, o DBA agenda as coletas nos horários certos. Em sistemas novos e grandes cargas de dados, geralmente alguém precisa lembrar de coletar as estatísticas do banco, mas a real é que a maioria dos programadores nem faz ideia que existe essa “IA” nos bancos dados.

Infelizmente, isso acontece bastante em sistemas novos, já que no teste funcional passa e isso só acontece quando chegam os dados de verdade no ambiente de verdade. Daria para ser evitado, mas já vi acontecer bastante.

Gabriel Arruda (@gdarruda)

Boa. Alguém que entende pra nos dar uma luz acerca da parte técnica de fato. O que me fica a dúvida é se no TSE em que se afirma que usa soluções Oracle desde 1996 tem alguém treinado de fato na plataforma.

Sim, na hora da arquitetura alguém deveria ter notado que isso poderia ser um problema. O erro aí é não terem feito um teste mais real de carga, provavelmente fizerem um teste para garantir que a contagem estava certa mas usaram poucos votos ou não reproduziram igual o ambiente real.

Lembro até de um colega de trabalho que era DBA falando que existem os SGBDs e existe o Oracle, que nas palavras dele era “um monstro totalmente diferente”. Não sei hoje a quantas andam Oracle e os concorrentes mas acredito que o TSE ainda manter soluções Oracle é meio que jogar dinheiro fora, acredito eu. Na década de 90 até concordo que a concorrência era bem inferior (IBM DB2 à parte mas aí é um outro caso ainda) mas hoje em dia tem um bocado de solução aí que acredito seria tão competente quanto e não custaria tanto aos cofres públicos. No caso aqui não estou falando da solução em específico que causou esse rebuliço todo e sim pra realidade do TSE no dia a dia.

Em termos de bancos de dados relacionais, eu não sei se as outras tem a mesma capacidade de escalar em um cluster (Oracle RAC). Talvez os provedores de cloud hoje forneçam algo assim, mas desconheço.

Acho que tem Exadata – mais de um inclusive – em todos os bancos, porque é uma solução completa para usar Oracle RAC. O DBA da empresa que eu trabalhava falava que tinha meia-dúzia de gatos pingados que sabiam montar um ambiente Oracle RAC, além de caro o risco é enorme de fazer isso por fora: seja em cloud ou on-premise. O Exadata é tipo solução Apple, tudo configurado e com suporte deles.

Apareceram muitas soluções de banco de dados alternativas, que chamam genericamente de Big Data e escalam muito bem. Só que não são bancos relacionais, eles escalam melhor e mais barato, mas o Oracle é ACID. Isso é importante para sistemas com dados críticos, como é o caso do TSE e o mercado financeiro.

Em resumo, talvez tenha, mas não manjo para te falar que sim ou não. Mas digo que é comum gastar essas bicas em soluções da Oracle no mercado privado, então não vou tacar pedras sem saber. Talvez seja desnecessário, mas é bem normal optar por tecnologias consolidadas para reduzir riscos e gastar menos com pessoal e tempo de projeto.