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A tecnologia por trás da previsão do tempo

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8 anos e meio atrás

Se você acha que meteorologia só serve para decidir entre levar ou não o guarda-chuva antes de sair de casa, precisa rever seus conceitos. (Aliás, parênteses: se você é geek e está em dúvida sobre qual carreira seguir, sem ser TI, eis uma boa opção. Ao pesquisar sobre a ciência da previsão do tempo para este artigo, fiquei admirada em constatar que ela é quase 100% hi-tech. Um prato cheio para fãs de tecnologia!)

Os recorrentes alagamentos em São Paulo e a recente tragédia na Região Serrana do Rio de Janeiro deixaram a todos nós, brasileiros, pulsando de indignação e até raiva. Diante da certeza de que todos esses infortúnios poderiam ser evitados, não há como não se revoltar com o poder público.

Mesmo estando largados à própria sorte e ocupando áreas de risco, a pergunta que fica é: será que todas aquelas mortes (devem ser mais de mil, se considerarmos os desaparecidos) poderiam ter sido evitadas? Será que mesmo com aqueles deslizamentos todos, vidas poderiam ter sido poupadas se avisadas a tempo?

A resposta é sim.


Imagem de satélite do Weather Channel

Imagem de satélite do Weather Channel

Os centros meteorológicos monitoram 24 horas por dia as condições climáticas no país. Em São Paulo, destacam-se entidades públicas como o Sistema de Alerta a Inundações de São Paulo (Saisp), que funciona através de uma parceria do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) com a Universidade de São Paulo (USP), e privadas, como o SOMAR, que fornece informações para os principais portais do país e ainda tem indústrias, agricultores, pecuaristas e seguradoras (entre outras empresas) como clientes.

As imagens de satélite mostram a cobertura de nuvens e têm o objetivo de controlar o movimento de sistemas de tempestades, especialmente onde dados de radar não encontram-se disponíveis.

Os mapas com animações são criados através da apresentação sequencial de imagens de satélite, adquiridas sobre uma mesma área ao longo de algumas horas. Assim, visualiza-se a tendência geral da movimentação das nuvens nas últimas horas. Isso é útil na compreensão da ação de sistemas de tempestade de grande extensão. As cores das nuvens em movimento estão relacionadas à sua temperatura.

As estações e radares meteorológicos monitoram chuvas, ventos, umidade do ar, temperatura, pressão atmosférica, nível dos rios e represas, atualizando tudo a cada 5 minutos.

A chuva, que é a grande vilã meteorológica do verão no Sudeste, tem especial atenção. No Rio de Janeiro, um estado topologicamente complicado e com áreas de encosta densamente habitadas, as situações de risco surgem quando o solo fica excessivamente encharcado. Em São Paulo, o inimigo são os transbordamentos de rios. Em ambas as situações, os centros meteorológicos entram em estado de alerta e procuram prefeituras, Defesa Civil, bombeiros, líderes comunitários e outros, a fim de se evitar o pior.

Velocidade da informação

Numa era superconectada como a atual, devemos tirar proveito da informação praticamente instantânea para evitar tragédias, que são as grandes perdas materiais e, principalmente, de vidas. Casas, comércios e escolas podem ser evacuados em poucos minutos. Ou menos ainda: 5 segundos podem fazer a diferença de um telhado desabar ou não sobre uma pessoa.

Na iminência de uma situação emergencial, os órgãos que recebem os alertas, como a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), por exemplo, já sabem quantos minutos faltam para um rio transbordar e quais ruas e túneis serão atingidos. Muitos alertas são emitidos por SMS. Na capital paulista, o DAEE está cadastrando até os cidadãos comuns interessados em receber os SMS, cujo custo de envio será arcado pelo Estado. Todavia, não é possível que qualquer um faça essa solicitação; é preciso aguardar a chegada de um técnico do DAEE, que visitará as áreas de risco.

Recentemente a Austrália viveu uma situação extrema com enchentes também, embora não se possa comparar a geografia de lá com a do Brasil: o terreno é relativamente plano e os rios demoram mais para transbordar. Os moradores receberam cartas do governo em suas casas alertando sobre a iminência de uma inundação. O governo também usou redes sociais como Twitter e Facebook para emitir avisos, desmentir boatos, convocar voluntários etc. Aqui no Brasil, a solidariedade das pessoas também se manifestou via redes sociais e teve grande destaque.

Em países que sofrem com neve, tornados, vulcões e terremotos, as casas são construídas pensando-se em possíveis desastres climáticos. No Brasil, infelizmente, ainda estamos longe disso. Estados Unidos e Japão treinam a população para agir corretamente em caso de emergência. Em Santa Catarina, algo parecido já está sendo feito em Blumenau, que tem um histórico notável de enchentes.

O prefeito de Areal, cidade no RJ, merece menção honrosa pela iniciativa de sair pela cidade com megafone alertando a população. Foi a única onde ninguém morreu.

Governos não parecem pensar em soluções de longo prazo. De que adianta tanta tecnologia e todo o trabalho dos centros meteorológicos sem um plano de contingência?

Arrecadação

Não é só o pagamento do IPTU, que faz o paulistano se zangar nessa época crítica, que alimenta os cofres da prefeitura nos meses de janeiro e fevereiro. Boa parte da economia de São Paulo provém do turismo. É a capital dos eventos. As reuniões, feiras e congressos mais importantes do país são sediadas na capital paulista, movimentando hotéis, táxis, aeroportos, centros de convenções, institutos educacionais. É natural que haja uma tendência das pessoas evitarem a cidade em janeiro e fevereiro, por causa do caos pluvial.

Foi assim comigo: como estou me recuperando de um problema grave de saúde, decidi não me arriscar a ficar ilhada sem assistência, como aconteceu ano passado. Foram 47 dias ininterruptos de chuva. Decidi que esse ano não iria nem à Campus Party e nem ao tradicional congresso de Odonto. Muitos colegas dentistas me disseram que também desistiram de viajar.

Talvez mil cadáveres na consciência das velhas raposas políticas não sejam nada, mas se mexermos naquilo que lhes é mais sensível, a arrecadação, é capaz que eles fujam das medidas paliativas e façam um replanejamento urbano mais sério.

Com informações: CET São Paulo, Prefeitura de São Paulo, The Weather Channel e Willians Bini (meteorologista da SOMAR que deu entrevista para o meu podcast; ouça aqui!).

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