A nova palavra de ordem no Google é “eficiência”

Para voltar a crescer, empresa aposta em diminuição nos custos e cancelamento de projetos; Google Stadia foi a vítima mais recente

Josué de Oliveira
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O Google sempre teve o costume de lançar muitos produtos. E também de cancelá-los. Sites como o killedbygoogle.com servem exclusivamente para exibir os projetos descontinuados pela empresa, que, segundo a listagem, já seriam 275 (e contando).

O cemitério de produtos do Google (Imagem: Vitor Pádua / Tecnoblog)
O cemitério de produtos do Google (Imagem: Vitor Pádua / Tecnoblog)

Apesar de ser uma das mais importantes empresas do mundo, o Google manteve uma certa cultura de startup ao longo de sua história. Prova disso é a famosa política dos 20%, a partir da qual funcionários poderiam trabalhar um dia por semana em projetos particulares. AdSense e Google News surgiram a partir da iniciativa, segundo os fundadores Larry Page e Sergey Brin.

Esse incentivo à experimentação parece estar por trás das diversas tentativas da empresa de emplacar seus lançamentos. Enquanto empresas como Apple demoram um pouco mais para calibrar bem seus produtos, o Google costuma se mover mais rápido para marcar território. O problema é que muita coisa simplesmente não emplaca e acaba sendo descontinuada.

O Stadia, serviço de games na nuvem, é o exemplo mais recente disso. Mas já há alguns anos se comenta sobre essa reputação do Google de matar projetos sem demonstrar o devido compromisso com eles. Agora, porém, a empresa pode estar dando passos para se livrar dessa má fama. Em meio a um momento econômico ruim, a diretriz na empresa é focar na eficiência.

Área 120 pela metade

No mês passado, foi revelado que o Google eliminaria 50% dos empreendimentos tocados pela Área 120. Trata-se de uma incubadora focada em projetos experimentais. De acordo com o TechCrunch, os funcionários afetados terão até o final de janeiro de 2023 para encontrar novas funções na empresa.

O corte vem num momento em que Sundar Pichai, CEO do Google, tenta tornar a empresar 20% mais eficiente. Em reunião interna, Pichai teria informado que os índices de produtividade “não estão onde deveriam” para uma companhia com a quantidade de colaboradores que o Google tem.

Seguindo nessa toada, o CEO teria pedido ajuda aos funcionários para criar uma cultura focada na missão da empresa, em seus produtos e clientes. Isso exigiria, entre outras coisas, “minimizar as distrações”.

Difícil não associar o encerramento do Stadia e o corte na Área 120 a essa cruzada de Pichai por eficiência. Soma-se a isso a próxima versão do laptop Pixelbook, que não verá a luz do dia. Os indícios apontam para um contexto em que mirar em muitas direções é visto como algo arriscado.

Controle do Google Stadia (Imagem: Silivan Munguarakarama/Unsplash)
Controle do Google Stadia (Imagem: Silivan Munguarakarama/Unsplash)

Já se sabe que a empresa está pondo o pé no freio das contratações e diminuindo investimento em certas áreas. Todos esses elementos se alinham para mostrar que, por mais que exploração e inovação estejam no DNA do Google, resultados financeiros negativos mudam rapidamente as prioridades.

Menos espírito de startup

Ainda é cedo para dizer como a ênfase de Pichai em eficiência impactará os novos empreendimentos do Google. Talvez signifique que a fase de maior experimentação da empresa venha a se encerrar; por outro lado, também pode indicar uma abordagem mais pé no chão daqui para a frente.

Muitos dos produtos descontinuados do Google pecavam pelo excesso de ambição. O próprio Stadia é um exemplo disso: as diversas promessas não cumpridas eram pistas de que o destino da plataforma já estava selado muito antes do anúncio de seu fim.

Ao mesmo tempo, o esforço de marketing necessário para fazer o serviço decolar também não parece ter ocorrido. A impressão é que o Google queria afirmar que competia no segmento de games na nuvem – onde players como Microsoft, Sony e Amazon já têm forte presença –, mas sem se colocar de verdade no jogo.

Página inicial do Google
Página inicial do Google (Imagem: Nathana Rebouças / Unsplash)

Se Pichai quer um Google mais eficiente e com menos distrações, é provável que iniciativas como o Stadia se tornem menos frequentes. Agir como startup pode ter seus benefícios – lançar muitos produtos rapidamente, ocupar espaços e ver o que dá certo –, mas é uma abordagem na qual fracassos são comuns. No atual cenário econômico, não é surpresa que o Google venha a fazer escolhas um pouco mais conservadoras.

Um cemitério de produtos

Mas, para além do Stadia, há ainda muitos outros produtos e serviços encerrados pelo Google. Lembra do Google Wave? E do curiosíssimo Project Ara? No Tecnocast 263, conversamos sobre e cultura da empresa e relembramos alguns de seus projetos descontinuados.

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