A OpenAI trouxe a inteligência artificial para o mainstream (Imagem: Vitor Pádua / Tecnoblog)
A OpenAI trouxe a inteligência artificial para o centro das discussões (Imagem: Vitor Pádua / Tecnoblog)

Do ano passado para cá, houve uma mudança no discurso sobre inovação no setor de tecnologia. Se entre 2021 e 2022 termos como metaverso, web3 e cripto dominavam as conversas, em 2023 foi a inteligência artificial que se estabeleceu como o centro das atenções.

Faz sentido: ferramentas como o ChatGPT e Midjourney têm usos muito claros. O funcionamento destes produtos pode ser observado aqui e agora, com aplicações que vão desde a busca na internet até melhora na produtividade. Enquanto o metaverso é um empreendimento especulativo, IA já se mostra útil na prática.

A empolgação, portanto, se justifica. E fomenta uma corrida em pesquisa e desenvolvimento no campo, uma busca por novos potenciais a serem atingidos com a inteligência artificial.

Muita gente participa dessa busca, mas há um nome que tem se destacado entre os demais. Trata-se da organização que, em muitas sentidos, é a grande responsável pela nova onda de entusiasmo em relação às inteligências artificiais: OpenAI.

Um início sem fins lucrativos

A OpenAI foi fundada em 2015. Além de Sam Altman, atual CEO, e Ilya Sutskever, cientista-chefe, o grupo de fundadores incluía Elon Musk (que saiu da empresa em 2018). Entre os financiadores do projeto estavam o investidor Peter Thiel e a Amazon Web Services (AWS).

No começo, a OpenAI não era uma empresa tradicional, fundada visando o lucro, e sim uma organização sem fins lucrativos. E o “open” do nome expressava o direcionamento de operar de forma transparente, colaborando com outros players do setor.

Segundo o post inaugural no blog da empresa, o objetivo da OpenAI era promover a inteligência digital de modo que ela promovesse o benefício “da humanidade como um todo”, sem estarem presos à necessidade de gerar retorno financeiro.

Só que pesquisa no campo de IA não é barata, e a OpenAI precisava captar mais investimento. Para isso foi criada a OpenAI LP, entidade que operaria buscando “lucro limitado” (capped-profit). Isso ocorreu em 2019. No mesmo ano, a Microsoft injetou US$ 1 bilhão na empresa, iniciando uma parceria que perdura até hoje.

Sam Altman e Satya Nadella
Sam Altman e Satya Nadella (Foto: Divulgação)

Juntas, as duas companhias começaram a mexer no jogo de buscas na internet, incomodando o Google. E aí é que está a ironia da coisa. Afinal, houve uma contribuição do Google naquilo que a OpenAI iria se tornaria.

Pesquisa feita às claras

Enquanto laboratório de pesquisa, a OpenAI fazia parte de um cenário colaborativo. Instituições privadas e universidades compartilhavam dados e modelos para que outros pesquisadores pudessem contribuir e refinar os resultados. A OpenAI se beneficiou muito disso.

É o que aponta Diogo Cortiz, cientista cognitivo e professor da PUC-SP, em entrevista no Tecnocast 282. Segundo ele, esse ambiente de cooperação se desenvolveu organicamente, com trocas entre diversos laboratórios. O progresso na área, portanto, se deu a partir de uma ciência feita com coletivamente.

Quando a gente pensa na própria ferramenta do ChatGPT, ele foi construído com base em uma arquitetura chamada Transformers, uma arquitetura de redes neurais que foi proposta pelo Google em 2017. Isso foi escrito num paper, depois foi implementado, o Google treinou o modelo, disponibilizou de forma aberta.

Diogo Cortiz

Pesquisadores da Meta também trabalharam em cima da mesma arquitetura disponibilizada pelo Google, assim como a OpenAI. De certa forma, a pesquisa aberta do Google fomentou quem viria a ser sua competição.

Aviso de que o ChatGPT está indisponível por alta procura (imagem: Emerson Alecrim/Tecnoblog)
Aviso de que o ChatGPT está indisponível por alta procura (imagem: Emerson Alecrim/Tecnoblog)

Com o tempo, devido à necessidade por mais poder computacional para prosseguir nas pesquisas, o setor privado acabou ganhando proeminência na área, com destaque para as Big Techs. É nesse contexto de muito investimento que ferramentas como o ChatGPT surgiram, jogando a inteligência artificial no colo do público.

E, à medida que isso acontecia, a OpenAI foi deixando de lado a ênfase em abertura que parecia guiar a empresa.

A caixa preta

No anúncio do GPT-4, tecnologia que faz o ChatGPT e o novo Bing funcionarem, a OpenAI optou por não revelar informações sobre o treinamento do modelo de linguagem. Não sabemos, portanto, com quais dados a IA foi treinada, nem o número de parâmetros, nem a estratégia de aprendizado. Nada de abertura por aqui.

É um movimento que vai contra a ideia de transparência e conhecimento aberto que parecia tão cara à comunidade de pesquisadores. Por essa razão, a OpenAI vem recebendo críticas no setor. No entanto, essa mudança parece ter vindo para ficar.

É o que Ilya Sutskever dá a entender. Quando questionado pelo Verge sobre o motivo dessa guinada para longe da abertura do passado, o cofundador da OpenAI respondeu, curto e grosso: “Estávamos errados.”

A chegada das inteligências artificiais ao mainstream mudou o jogo. Agora, devido à forte competição na área – afinal, o Google também trabalha em ferramentas semelhantes –, a OpenAI pode se reservar o direito de não abrir seus dados.

Quão aberta é a OpenAI?  (Imagem: Vitor Pádua/Tecnoblog)
Quão aberta é a OpenAI? (Imagem: Vitor Pádua/Tecnoblog)

A decisão pode ter impactos para além da OpenAI. Se outras empresas seguirem o mesmo raciocínio, o desenvolvimento de uma tecnologia potencialmente transformadora pode acabar avançando às escuras.

Diogo Cortiz resume a situação ao dizer que o novo modelo de linguagem da OpenAI é uma “caixa preta. Lacrada. E escondida no fundo do mar.” Após se beneficiar tanto de pesquisas abertas, a OpenAI não parece interessada em retribuir o favor.

Relacionados