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O enorme fracasso do Kreyos, smartwatch que arrecadou US$ 1,5 milhão no Indiegogo

Emerson Alecrim Por

O crowdfunding vem tornando realidade ideias que, de outra forma, dificilmente sairiam do papel. Muitas delas são realmente incríveis, tanto que adoramos mostrá-las no Tecnoblog. Mas também há aquelas que não cumprem o que prometem, seja por falhas no projeto, seja porque seus gestores não são um exemplo de honestidade. O Kreyos Meteor, aparentemente, é um destes casos.

Kreyos Meteor

A campanha teve início em 23 de junho de 2013, no Indiegogo, e foi fechada no dia 12 de agosto do mesmo ano. Durante este período, a arrecadação superou a quantia de US$ 1,5 milhão. Um verdadeiro sucesso: a meta inicial era de US$ 100 mil.

Os apoiadores do projeto desembolsaram entre US$ 100 e US$ 170 na expectativa de ter um dispositivo deveras sofisticado. O Kreyos Meteor foi descrito como um smartwatch que recebe comandos de voz, reconhece gestos, apresenta resistência à água, oferece compatibilidade com Android, iOS e Windows Phone, entre outros.

Parecia o relógio ideal para receber emails, executar músicas, acompanhar atividades esportivas e assim por diante. Parecia. No resultado final, até mesmo consultar as horas se tornou um desafio.

O primeiro sinal de que alguma coisa estava errada apareceu no prazo de entrega. Normalmente, o envio de produtos oriundos de crowdfunding leva seis meses ou mais para ser feito, afinal, é necessário planejar produção, logística, suporte e por aí vai. A campanha do Kreyos, no entanto, foi encerrada em agosto, mas seu envio estava prometido para dezembro de 2013.

É um prazo curto, tanto que atrasos talvez estivessem sendo esperados pelos apoiadores. Mas não exagerados. Julho de 2014 chegou e somente então pouquíssimas pessoas começaram a receber o Kreyos.

Mas nem podemos considerá-las felizardas. Estas pessoas passaram a relatar vários problemas com o smartwatch: a bateria dura apenas um dia quando a promessa eram sete, o reconhecimento de gestos não funciona, a proteção contra água é falha, o pedômetro não conta passos corretamente e até as horas são exibidas de maneira imprecisa.

É claro que a página do projeto está recebendo uma enxurrada de reclamações, tanto das falhas quanto dos atrasos. E também da falta de reembolso: quando os problemas se intensificaram, muita gente tentou reaver o dinheiro investido e descobriu que a política de devolução foi alterada recentemente para dificultar desistências.

No vídeo abaixo, um dos compradores do Kreyos relata a sua frustração:

Todo mundo que apoia projetos de crowdfunding sabe - ou deveria saber - que há riscos associados. Atrasos e fatores inesperados que alteram as características do produto são alguns deles. Nestes casos, devolução de valores, explicações convincentes ou qualquer outra ação que indique transparência e comprometimento costuma resolver.

Só que, no caso da Kreyos, quanto mais se mexe, mais complicações aparecem. Um dispositivo como este deveria reunir pelo menos uma equipe pequena, mas até agora, o único nome que aparece por trás da empresa é o de Steve Tan.

Na tentativa de descobrir informações relevantes sobre o rapaz, apoiadores indignados encontraram fotos de Steve com uma Ferrari 458 e com sacolas que sugerem compras em lojas caras.

Estaria o fundador da Kreyos gastando dinheiro da campanha em mimos luxuosos no lugar de dedicar esforços no desenvolvimento do smartwatch? É o que as imagens sugeriram, fazendo o número de reclamações sair do controle.

Resistente à água, só que não

Resistente à água, só que não

A repercussão das imagens foi tão grande que, na manhã de hoje (22), Steve publicou um post para explicar que não possui uma Ferrari e que as fotos foram feitas durante um passeio pela Itália em 2010, muito antes do surgimento da Kreyos. Ele afirmou ainda que não utilizou um centavo sequer do projeto para satisfazer interesses pessoais.

No texto, o fundador da Kreyos prometeu também publicar em breve um post detalhando tudo sobre a campanha, do início da arrecadação à situação atual, passando pela descrição dos gastos feitos até agora.

Tentando se manter longe do assunto, a Indiegogo se limita a dizer que dúvidas sobre o projeto devem ser esclarecidos com os idealizadores. A Kreyos, por sua vez, afirma estar trabalhando para resolver os problemas e trocar os relógios que ela classifica como defeituosos, embora não tenha apresentado cronogramas, planilhas ou documentos comprobatórios.

Esteja Steve Tan (e sua anônima turma) envolvido em fraude ou apenas sofrendo as consequências de um projeto mal gerido, o caso serve para mostrar que o conceito de crowdfunding não é cercado apenas de inovação e tecnologia de ponta. Também há grandes riscos, afinal, apresentar uma ideia é uma coisa, conseguir executá-la é outra.

Uma dupla de apoiadores publicou um documento detalhando as falhas do Kreyos Meteor aqui. Há também um grupo no Facebook reunindo pessoas que apostaram na ideia. O desenrolar desta história, pelo jeito, vai longe.

Com informações: Android Police

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