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Tecnologia cria rede de denúncias para identificar abusadores em série

Plataforma permite que funcionários denunciem abusos no ambiente de trabalho de forma anônima, e ajuda vítimas de assédio a formarem rede de reclamações

Pedro Knoth Por

Uma plataforma desenvolvida pela startup SafeSpace pode ajudar vítimas a denunciarem assédios no ambiente de trabalho de forma anônima — desde abusos de poder ou autoridade até avanços sexuais indesejados. Além de registrar a queixa sem revelar a identidade, a ferramenta consegue gerar um histórico do perfil do abusador, para checar se ele tem mais de uma denúncia.

A SafeSpace é uma empresa que oferece a plataforma Connect, capaz de identificar abusadores em série (Imagem: HaticeEROL/Pixabay)

A plataforma que permite a denúncia se chama Connect. Ela está dentro da plataforma da SafeSpace, que é oferecida a empresas. O objetivo da ferramenta é melhorar a governança sobre problemas de assédio dentro de seus ambientes profissionais.

Como funciona a Connect para queixas de assédio

Qualquer pessoa que tenha alguma relação com a empresa — seja a de funcionário direto ou terceiro — pode fazer um relato na Connect, ou em outra ferramenta da SafeSpace. Ela pode optar por se identificar ao fazer a denúncia, ou manter-se anônima. A ferramenta não armazena os dados fornecidos pela vítima.

O relato é, então, direcionado ao departamento de RH e compliance da companhia. Cabe aos setores decidir se será aberta uma investigação sobre a conduta do denunciado.

Através da plataforma, o setor de compliance da empresa pode entrar em contato com a vítima e verificar se ela pode ou se sente à vontade para compartilhar mais informações.

Para oferecer uma denúncia dentro da plataforma da SafeSpace, a vítima deve preencher algumas informações obrigatórias: ela deve apontar quem cometeu o abuso, além de classificar que tipo de assédio foi cometido. O próprio aplicativo orienta o usuário nesse sentido, com uma página que mostra todos os tipos de comportamentos ofensivos. No fim, o app pede uma breve descrição sobre o evento.

Giovanna Sasso, co-fundadora da SafeSpace, que tem 4 mulheres na liderança, conversou com o Tecnoblog sobre a plataforma:

“Falamos que o peso do que aconteceu não deve estar na vítima. Dificilmente alguém vai assediar apenas uma pessoa — é um comportamento que ela leva para outras relações. O importante é ter a visibilidade do relato para que a empresa converse com outras pessoas dentro da própria organização. Cerca de 98% dos relatos são verdadeiros.”

Em 60% dos relatos, usuário prefere permanecer anônimo

De acordo com Giovanna, cerca de 60% dos relatos dentro da SafeSpace, incluindo o Connect, são anônimos. A maioria dos casos são de desconforto dentro do ambiente profissional: são problemas pequenos, como incômodos provocados por comportamento tóxico.

A SafeSpace vende dois produtos para negócios de pequeno porte, de 300 a 1.000 funcionários. O primeiro serviço é a própria plataforma de relatos. O segundo está focado em treinar os funcionários para usá-la, por meio de mentorias e workshops.

O treinamento pode ser realizado com todos, mas Giovanna aponta que essa deve ser uma preocupação para os executivos, principalmente. “Se alguém na empresa quer falar, o relato deve partir dentro de um ambiente de empatia e diversidade. Isso leva as pessoas a falarem em rede: uma depois da outra.”

Treinamento da SafeSpace é direcionado a todos, mas executivos devem criar ambiente de “empatia e diversidade” (Imagem: Mohammad Hassan/Pixabay)

A startup estava prestes a abrir uma rodada de capital, mas foi obrigada a segurar a prospecção de novos aportes devido à pandemia de COVID-19. Mas, desde 2020, a empresa se recuperou e fez sua primeira rodada de aportes. Ela recebeu investimentos do fundo MAYA Capital e de alguns investidores-anjo, como o co-fundador da 99, Ariel Lambrecht. A empresa já trabalha com alguns clientes famosos no mercado, como a Creditas, a Gupy e a Buser.

Ao Tecnoblog, a SafeSpace confirmou que pretende abrir mais uma nova rodada de investimentos em breve.

Plataforma permite combate a abusadores em série

A plataforma é recente, mas poderia ter ajudado mulheres como a Vitória (pseudônimo). Ela trabalhava em uma grande empresa da indústria química em um cargo júnior, quando se deparou com seu primeiro caso de assédio:

“Eu estava em um dos meus primeiros empregos e era super jovem. Ouvia do meu chefe ‘nossa, vou precisar te ver sem maquiagem?’. Onde eu trabalhava era necessário ir de traje formal, por ser um ambiente corporativo muito rígido.”

Vitória relata que, em outra ocasião, após questionar as atitudes de seu chefe, ele chegou a fazer um gesto obsceno para ela. Mais de uma vez, a funcionária pensou em denunciá-lo por assédio, mas tinha medo de ser pega com o e-mail aberto, junto com o relato. “Mais de uma vez eu tentei esboçar um e-mail para a responsável do RH”, conta Vitória ao Tecnoblog.

Em casos como o da Vitória, a vítima do assédio pode usar a SafeSpace para saber se o abusador tem mais de uma reclamação feita contra ele. Quando a queixa é encaminhada ao RH, os profissionais podem identificar essa recorrência e tomar medidas cabíveis quando o for um caso de “abusador em série”.

A partir da primeira reclamação, uma espécie de “ficha” é gerada pela plataforma, que acompanha outras possíveis queixas sobre a mesma pessoa. “A maioria dos casos envolve membros de cargos de alto escalão. Então o Connect entra com peso quando é mais de uma vítima”, afirma Giovanna, co-fundadora da startup.

“A ideia é aprender”, diz co-fundadora da SafeSpace

Uma das empresas atendidas pela SafeSpace é a Facily, serviço de oferta por demanda e comércio eletrônico. “A empresa cresceu, e começamos a contratar cada vez mais pessoas, chamar mais fornecedores. Isso requer um canal consolidado de reclamações e relacionamento com os stakeholders”, conta ao Tecnoblog Marcelo Pachani, gerente de RH da Facily.

Pachani diz que cada relato feito via SafeSpace é visto com urgência pelo time de compliance da Facily, que fica encarregado de apurar a conduta do abusador em questão. Dos 450 funcionários inscritos na ferramenta, 80% acessam o site da SafeSpace com frequência.

Sobre um provável mau-uso da plataforma para perseguir outros funcionários, o gerente de RH aponta que a Facily identifica diferenças pessoais, mas que “a empresa tem uma ética e um código de conduta próprio que todos devem seguir”.

Giovanna ressalta que, geralmente, após uma reclamação no SafeSpace, a empresa não demite o funcionário que é alvo da denúncia:

“Essa ferramenta é de aprendizagem. As empresas percebem isso e chamam o funcionário em reuniões particulares, reúnem testemunhas. A ideia não é taxar, é aprender, todo mundo junto. Não é um caça às bruxas.”

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Pierre (@pierrediniz)

O relato do Connect é, então, direcionado ao departamento de RH e compliance da companhia. Cabe aos setores decidir se será aberta uma investigação sobre a conduta do denunciado.

E a denúncia morre aqui e o funcionário é demitido “por questões de performance” semanas depois.

A proposta é excelente, mas é muita ingenuidade pensar que o RH existe pra ficar do lado do funcionário em situações de abuso.

Pierre (@pierrediniz)

Até os anônimos são fáceis de identificar.

Dá pra saber quem foi analisando o padrão de escrita, pontuação ou, se for um áudio, a velocidade da fala ou o uso de certos vícios de linguagem. Eu mesmo recebi uns feedbacks anônimos ruins em avaliações de desempenho e consegui identificar quem foi, era de gente que me elogiava publicamente, mas criticava pesado pelas costas.

Quando me procuravam no trabalho perguntando se o canal de ética era confiável (eu auditava o back-end das ferramentas), dizia que sim, mas se a pessoa fosse fazer uma denuncia, dizia pra alguém de confiança fora da empresa, tipo marido ou esposa, redigir a denúncia só com o que a pessoa falou pra ela, sem ser ditado.