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Televisão digital brasileira deixa muito a desejar

Transmissões em Full HD não chegam a metade do tempo total durante uma semana.

Thássius Veloso
Por

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No mês em que completa quatro anos desde o seu lançamento, a televisão digital ainda dá passos pequeninos rumo a uma adoção mais ampla tanto entre os espectadores brasileiros como entre as próprias emissoras. Um levantamento feito pelo blogueiro Gregori Pavan, cujo site é especializado em índices de audiência e programação televisiva, revela que somente metade da transmissão das emissoras ao longo de uma semana é de fato em alta definição.

Para realizar o estudo, Gregori contou com a colaboração de mais duas pessoas. Eles monitoraram todos os principais canais de televisão na região de São Paulo, de olho no sinal digital, para verificar quando as transmissões aconteciam no desejado 1.920×1.080 pixels e quando eram na resolução tradicional (SD).

Pelos cálculos dele, 49,08% da programação no sinal digital de televisão está em Full HD. Bem pouco, eu sei.

A emissora que lidera essa história é a RedeTV. Mais nova entre as emissoras principais, a RedeTV ofereceu 163 horas de conteúdo em alta definição durante o período analisado. Cabe lembrar, porém, que a RedeTV tem aparelhagem novíssima, o que traz a facilidade de transmitir logo que a TV digital chegou por aqui em Full HD. Outras emissoras precisaram fazer investimentos de troca de equipamentos para chegar no mesmo objetivo.

Considerando as líderes de audiência, só decepção. A Rede Globo exibiu 54 horas de programação em alta definição, com 32 horas de produção própria e 22 horas de conteúdos de terceiros — séries e filmes. O SBT, que disputa o segundo lugar com a Record, figura com quase 30 horas de Full HD. A Rede Record aparece numa posição mais confortável, com 107 horas de transmissões em Full HD ao longo da semana.

(fonte: Gregori Pavan)

Os números completos e exatos do estudo você encontra no artigo publicado pelo Gregori. Como coincidência pouca é bobagem, o mesmo artigo conta com uma colaboração deste humilde editor que vos escreve comentando a adoção da alta definição no jornalismo. Sim, recomendo a leitura também do meu texto, claro…

Entrevista: Gregori Pavan

Eu conversei com o Gregori sobre a atual situação da nossa televisão digital. Confira abaixo as perguntas e as repostas.

Tecnoblog — O que te motivou a fazer o levantamento?

Gregori Pavan — Faço esse levantamento desde dezembro de 2009. Este já é o quarto estudo que publico em meu blog. Gosto de assistir e acompanhar sobre o mundo da TV, que influencia na vida do cidadão. Acho importante acompanhar o andamento da TV Digital, seja a nível de cobertura, programação ou outros aspectos.

Na sua opinião, como o governo brasileiro pode colaborar para a ampliação da televisão digital?

O governo é peça fundamental na implantação da TV Digital. Junto com as emissoras, ele definiu o modelo que deveria ser adotado. Agora tem o papel de apoiar e organizar — sendo ágil e responsável na liberação dos canais e também dando apoio financeiro, quando for o caso. Além disso, é importante fiscalizar e tornar público e transparente o andamento desse processo. Acredito que o governo tem sido ineficiente em seu papel, e isso se mostra claro na atuação das emissoras, seja em relação à cobertura ou programação.

Parece-me que são poucas as opções de interatividade. É isso mesmo? Quais comentários você tem para fazer sobre o assunto?

A interatividade na verdade é praticamente inexistente. Em parte por culpa do governo que anunciou, mas para tentar baratear o preço dos conversores e televisões não condicionou a interatividade aos equipamentos. Por outro lado, as emissoras parecem só ver a interatividade como algo comercial, e nesse momento não é algo possível de ocorrer, por culpa delas mesmas que não têm cobertura. Portanto, são poucas as pessoas que têm acesso à TV Digital, não havendo interesse comercial de agências e anunciantes. Vez ou outra aparece alguma interatividade em novelas ou programas.

Um exemplo contrário é a TV Brasil, que há alguns meses tem 24 horas de interatividade por meio de seus canais, apesar da abrangência de sinal/territorial ser pequena.

Mas vai além da interatividade. Outro exemplo: é absolutamente raro ver um comercial ser veiculado em alta definição. As agências e anunciantes se mostram indiferentes ao formato.

Atualizado à 20h38.

Thássius Veloso

Ex-editor-executivo

Thássius Veloso foi editor e editor-executivo do Tecnoblog de 2008 a 2014. Liderou o noticiário e cobriu de perto os maiores acontecimentos do mercado de eletrônicos de consumo, games e serviços. É jornalista, palestrante e apresentador de tecnologia na rádio CBN e no canal de TV por assinatura GloboNews.

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