Início / Especiais / Jogos /

HDMI 2.1 é tão confuso quanto o suco que parece de limão e tem sabor de tamarindo

Há casos comprovados no qual o HDMI 2.1 oferecido é, na verdade, um 2.0 falso; e o pior: tudo é permitido pela entidade reguladora

Ricardo Syozi

Por

Especial
HDMI 2.1
Há muita confusão com o novo HDMI 2.1 (Imagem: Tecnoblog / Guilherme Reis)

Então você comprou o seu Xbox Series X ou seu PlayStation 5 e está todo animado para começar a jogar os excelentes games disponíveis, né? Já separou a sua televisão moderna ou seu monitor mais recente para curtir o melhor nível de qualidade possível. Agora só falta pegar aquele cabo HDMI 2.1 para passar horas de diversão com tudo o que esse upgrade tem a oferecer. Bom, é uma pena que não é tão fácil e simples assim.

As promessas do HDMI 2.1

Oficialmente, o upgrade de 2.0 para 2.1 traz melhorias significativas para quem curte jogar seus consoles modernos com a melhor qualidade possível. Esse tipo de conexão suporta resoluções de 4K a 120 Hz e de 8K a 60 Hz. Além disso, há outras 7 funções únicas para essa conexão:

  • HDR Dinâmico;
  • eARC (Enhanced Audio Return Channel);
  • VRR (Variable Refresh Rate);
  • QMS (Quick Media Switching);
  • QFT (Quick Frame Transport);
  • ALLM (Auto Low Latency Mode);
  • DSC (Display Stream Compression).

Faz todo o sentido para um entusiasta de games se interessar pelo HDMI 2.1. Poder usar o QFT e o ALLM para jogar com o menor nível de latência na imagem possível é sonho para muitos jogadores de FPS, jogos de luta ou qualquer outro título que exige reflexos e respostas rápidos, por exemplo.

Curtir o HDR dinâmico e o eARC para ter a melhor qualidade de imagem e áudio faz a experiência em games, filmes e seriados um show à parte. Algo que vale muito o investimento se o seu nível de exigência for mais alto, pedindo excelência em todos os quesitos possíveis desse tipo de mídia.

Para ficar mais clara a diferença de funcionalidades entre os mais variados tipos de cabo HDMI, confira a tabela divulgada pelo órgão regulador HDMI Licensing Administration:

Todas essas expressões crescem em popularidade a cada dia entre os aficionados por TVs e monitores que sempre buscam a melhor experiência. Com isso, a cada nova empreitada de cabos e afins, os testes e a animação vão para níveis atmosféricos. Sendo, muitas vezes, motivos para adquirir novos equipamentos para o uso diário.

Em dezembro de 2002, o primeiro cabo HDMI (conhecido como 1.0) foi lançado. A promessa era a de alta-resolução de imagem (1080p). Isso foi entregue, mas a tecnologia ainda estava engatinhando.

Com o passar do tempo, novas versões foram lançadas adicionando funcionalidades como áudio de DVD, vídeo em 3D, canais de ethernet e muito mais. Então, quando o HDMI 2.1 começou a chegar nas casas, é claro que uma grande melhoria estaria chegando.

A verdade, porém, é mais confusa do que deveria.

HDMI 2.1 que na verdade é 2.0 e nem tem gosto de tamarindo

Você lembra do episódio do antigo seriado Chaves no qual ele cria uma venda de suco para as pessoas? Os sabores são curiosos, por exemplo: um é de laranja, mas que parece limão e tem gosto de tamarindo. Essa mistureba acaba enganando frequentemente os consumidores e é algo muito similar com o que vem ocorrendo com as opções de HDMI 2.1.

A partir do momento no qual essa novidade foi oficializada para o consumidor em 2017, qualquer empresa que decidir incluir essa entrada em seus monitores ou televisores deve oferecer as funcionalidades citadas na imagem acima. Caso anunciasse, mas não entregasse, seria taxado de propaganda enganosa.

Ah! Mas se o mundo fosse tão simples assim, não?

Recentemente foi descoberto pelo site TFT Central que a gigante chinesa Xiaomi havia disponibilizado nas lojas o “Monitor Fast LCD versão 24,5 polegadas 240 Hz” com entrada HDMI 2.1. Porém, ao ler as entrelinhas, foi descoberto que, na verdade, o que é oferecido é diferente disso. Traduzindo do chinês:

Devido à subdivisão dos padrões de certificação HDMI, o padrão HDMI 2.1 é dividido em TMDS (a largura de banda é equivalente aos protocolos HDMI 2.0) e o original FRL. A interface HDMI 2.1 deste produto suporta o protocolo TMDS, a resolução máxima suportada é 1920 x 1080 e a taxa de atualização máxima é 240 Hz.

Resumindo: “A entrada é 2.0, mas vamos chamá-la de HDMI 2.1 porque parece o correto a se fazer”.

“Então é propaganda enganosa, Ricardo!” – Sim, eu concordo com você, mas o único órgão regulador não está na mesma página que nós.

Quando o próprio site TFT Central entrou em contato com quem regula e define as regras sobre o produto HDMI, as respostas não foram apenas desanimadoras, mas também de enraivecer. Segundo o HDMI Licensing Administrator:

  • O HDMI 2.0 não mais existe, ou seja, produtos não devem mais usar essa nomenclatura como referência;
  • Todos os recursos do 2.0 agora fazem parte de um subconjunto do 2.1;
  • Todas os recursos associados com o HDMI 2.1 são opcionais;
  • Se um produto afirma que tem o 2.1, então é preciso afirmar quais recursos realmente fazem parte e são suportados por essa entrada para não gerar confusão.

Para. Não. Gerar. Confusão.

Como garantir que o suco seja de laranja

Não é difícil de entender que a confusão já foi gerada. Graças ao órgão regulador HDMI Licensing Administrator, a prática da Xiaomi não está “legalmente” errada. A empresa está apenas seguindo as instruções e regras da entidade maior em questão.

Os itens como monitores e televisores que usam a entrada HDMI 2.0 podem (e devem) anunciar como 2.1, porém explicando as funções (ou falta delas) em seu manual ou caixa. Com isso, uma enorme gama de oportunidades para confundir o consumidor surge, dando aquela sensação de termos sido enganados.

Infelizmente, devido às decisões malucas da HDMI Licensing Administrator, cabe unicamente ao consumidor se proteger e conhecer mais sobre o que realmente espera de um monitor ou TV com entrada HDMI 2.1. Não adianta apenas ler na embalagem que o item tem essa funcionalidade. É preciso procurar nas entrelinhas se o suco realmente é de laranja, com gosto de laranja e feito com laranja.

Ou seja, quando for adquirir uma nova opção para curtir o seu PlayStation 5 ou Xbox Series X, leia atentamente cada uma das características no manual da televisão ou monitor que diz ter HDMI 2.1. Procure ter certeza de que as funcionalidades afirmadas na imagem e lista no começo deste artigo façam parte do pacote do produto.

Fica o pedido e a esperança de que empresas e órgãos reguladores revejam esse conceito falho desde sua criação. Talvez até mudar a nomenclatura para garantir que nenhum consumidor seja enganado ou confundido por essa prática.

O que você acha dessa prática? Concorda ou discorda? Conta pra gente!