VTOL e eVTOL: os carros voadores estão chegando, mas estamos prontos?

Cias aéreas e startups estão apostando todas as fichas em carros voadores do tipo eVTOL; setor pode movimentar trilhões de dólares

Darlan Helder
Por
VTOL e eVTOL: os carros voadores estão chegando, mas estamos prontos? (Imagem: Vitor Pádua/Tecnoblog)
VTOL e eVTOL: os carros voadores estão chegando, mas estamos prontos? (Imagem: Vitor Pádua/Tecnoblog)

Em Blade Runner 2049, Officer K, personagem ficcional de Ryan Gosling, dá um gostinho do que será o futuro da mobilidade ao andar pelos céus de uma Los Angeles moderna com o seu “carro voador”. Não é a primeira vez que o conceito aparece em longas de ficção científica e, quanto mais falamos de veículos voadores, mais distante eles parecem ficar da realidade.

Fora das telonas, muitas empresas e inventores tentaram projetar automóveis que pudessem trafegar no céu e em vias terrestres. Entre eles, o gênio Leonardo da Vinci que, no século XV, trabalhou numa engenhoca parecida com um helicóptero.

Especial carros voadores em vídeo

YouTube video

Anos depois, seguimos acompanhando a apresentação de novos carros voadores, mas eles nunca deixaram de ser protótipos.

Isso está prestes a mudar. Gigantes da aviação como Embraer, Airbus, Boeing e startups espalhadas pelo mundo entraram numa corrida milionária para mudar a mobilidade urbana nos próximos anos. Essas empresas, no entanto, não estão literalmente desenvolvendo carros voadores e sim aeronaves de pouso e decolagem vertical, de atuação bem semelhante ao do helicóptero.

VTOL e eVTOL: o que são e como funcionam?

eVTOLs chegam para substituir os carros de aplicativos e táxi (Imagem: Divulgação/Eve)
eVTOLs chegam para substituir os carros de aplicativos e táxi (Imagem: Divulgação/Eve)

Estamos falando, na verdade, de VTOL: sigla para Vertical Take-Off and Landing (ou Decolagem e Aterragem Vertical, em tradução livre). No entanto, boa parte das empresas está trabalhando com o Electric Vertical Take-Off and Landing, portanto o eVTOL, que usa energia elétrica em vez do combustível fóssil, como o querosene e a gasolina.

Um relatório da empresa de consultoria McKinsey & Company diz que, até 2030, as grandes empresas de Mobilidade Aérea Avançada (AAM, em inglês) poderão ofertar mais voos do que as maiores companhias aéreas. O relatório ainda explica que os carros voadores serão utilizados para viagens curtas, com duração de menos de 20 minutos. Dentro das aeronaves, as companhias poderão transportar até seis pessoas, mais o piloto.

5 características da aeronave eVTOL/VTOL (Imagem: Vitor Pádua/Tecnoblog)
5 características da aeronave eVTOL/VTOL (Imagem: Vitor Pádua/Tecnoblog)

Rogerio Andrade é CEO da Avantto, uma empresa de compartilhamento de aeronaves e investidora da tecnologia. Em conversa com o Tecnoblog, o executivo conta que o eVTOL tem características de helicóptero e avião, mas ao contrário dessas aeronaves, o veículo usa bateria e motor elétrico, trazendo diversos benefícios na ponta.

“O eVTOL numa leitura do prisma da aviação, eu diria que é um híbrido entre avião e helicóptero. Apesar de fazer decolagem e pouso vertical, tal qual um helicóptero, na hora de se locomover no ar, ele tem características muito similares às de um avião. Especialmente porque tem asas que ajudam na sustentação, que é uma coisa que o helicóptero não tem. Então, dá para dizer que o eVTOL é um híbrido entre esses dois, porém movido à energia elétrica.”

Rogério Andrade, CEO da Avantto

“A ideia de VTOL existe desde que a aviação é aviação. Daí até que vieram os helicópteros, que são aeronaves que já pousam e decolam verticalmente. Há muito tempo, os fabricantes tentam criar aviões que façam isso também, porque o helicóptero, mesmo, tem uma certa limitação de autonomia e velocidade.

Agora, as empresas passaram a desenvolver aviões que juntam a vantagem de um caça, de um supersônico, por exemplo, com a versatilidade de um helicóptero. Só que juntar essas duas coisas sempre foi muito difícil. Com o avanço da tecnologia, você começa a criar até o novo mercado, para a aplicação desse tipo de aeronave.”

Fernando De Borthole, piloto de avião e apresentador do canal Aero Por Trás da Aviação

eVTOLs serão mais baratos do que helicópteros

eVTOLs serão usados para táxi aéreo dentro de cidades (Imagem: Divulgação/Volocopter)
eVTOLs serão usados para táxi aéreo dentro de cidades (Imagem: Divulgação/Volocopter)

Na Mobilidade Aérea Urbana (UAM, em inglês), uma das principais atividades que esses carros voadores exercerão é o de táxi aéreo bairro a bairro, num primeiro momento. Especialistas ouvidos pelo Tecnoblog defendem que o eVTOL não chega para substituir o transporte público, mas sim o carro, incluindo o de aplicativos e o tradicional táxi.

Em tese, o helicóptero já faz isso há muito tempo. Entretanto, com status de luxo, ele se tornou um meio de transporte inacessível para muitas pessoas. Andrade explica que uma viagem de helicóptero de aproximadamente 15 minutos custa cerca de 300 dólares. Quando os eVTOLs começarem a operar, esse valor pode despencar para 100 dólares por pessoa (algo em torno de R$ 500).

Helicóptero ainda é um meio de transporte de luxo (Imagem: Walter Gaspar/Unsplash)
Helicóptero ainda é um meio de transporte de luxo (Imagem: Walter Gaspar/Unsplash)

Existem alguns elementos que tornam o helicóptero limitado ao público. O primeiro diz respeito à operacionalização, sendo o combustível e o gasto de manutenção os principais vilões. O segundo fator é o custo da tripulação. Mas o VTOL e o eVTOL também precisam de operadores, certo? Sim e não.

Inicialmente, os veículos voadores dependerão de pilotos, mas especialistas já consideram que teremos modelos autônomos em seguida. Se as empresas conseguirem fazer isso, o custo para o público pode chegar a 50 dólares. Embora ainda seja um valor elevado, ele é inferior em relação a outros meios de transporte aéreos de luxo.

eVTOL da Wisk, empresa de Mobilidade Aérea Avançada da norte-americana Boeing
eVTOL da Wisk, empresa de Mobilidade Aérea Avançada da norte-americana Boeing (Imagem: Divulgação/Wisk)

Grandes nomes da aviação já começaram a trabalhar na autonomia. Em janeiro de 2022, a Boeing destinou US$ 450 milhões para a Wisk, sua empresa de Mobilidade Aérea Avançada. O montante será usado para promover o táxi aéreo autônomo e elétrico.

Em comunidade, a Boeing diz que “o financiamento favorecerá ainda mais o desenvolvimento da aeronave eVTOL de 6ª geração da Wisk, que será a primeira candidata à certificação de uma aeronave autônoma, totalmente elétrica e de transporte de passageiros nos EUA”.

Conceder autonomia a veículos não é tão simples como parece. Prova disso é que muitas empresas estão quebrando a cabeça para fazer essa tecnologia andar. O Tecnoblog já explicou os porquês em uma reportagem completa sobre carros autônomos, que ganhou menção honrosa no 15º Prêmio SAE de Jornalismo em 2021.

No futuro, os carros voadores (eVTOL e VTOL) serão autônomos e mais baratos (Imagem: Divulgação/Lilium Air Mobility)
No futuro, os carros voadores (eVTOL e VTOL) serão autônomos e mais baratos (Imagem: Divulgação/Lilium Air Mobility)

Andrade acredita, porém, que a independência dos VTOLs poderá ser mais fácil, uma vez que não há tantas interferências no céu como na mobilidade terrestre.

“Fazendo um paralelo com o mundo dos carros autônomos, a evolução [do eVTOL] é muito parecida. Mas eu diria que do ponto de vista da autonomia, há chances de os veículos voadores conseguirem independência mais rápido que os veículos terrestres. E a explicação é muito simples: você tem menos elementos externos interferindo numa operação aérea do que na urbana.”

Rogério Andrade

Rede de infraestrutura é fundamental

Como toda tecnologia nova, deve-se reconhecer que o tempo ainda não está aberto para os tais carros voadores. Hoje, existem três grandes desafios para a adoção da novidade: o processo de certificação pelas agências reguladoras; a infraestrutura das cidades; e a aceitação do público.

No Brasil, a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) vem sinalizando apoio à inovação. Em fevereiro de 2022, a Eve Air Mobility, empresa de eVTOL da brasileira Embraer, formalizou um pedido de Certificado de Tipo na Anac. O pedido visa atestar que a Eve cumprirá os padrões técnicos internacionais e exigências de aeronavegabilidade.

Eve, empresa da Embraer, formalizou um pedido de Certificado de Tipo na Anac (Imagem: Divulgação/Eve)
Eve, empresa da Embraer, formalizou um pedido de Certificado de Tipo na Anac (Imagem: Divulgação/Eve)

A empresa, que já recebeu pedidos de mais de 1.700 unidades eVTOLs, solicitou certificado do tipo “normal”. A Anac ainda trabalha com outras categorias: transporte regional, classes especiais e acrobática são algumas delas.

Em entrevista ao Tecnoblog, Roberto Honorato, superintendente de aeronavegabilidade da Anac, conta que o órgão vem trabalhando junto às empresas nesse período e explica que o processo de certificação, na qual a Eve se encontra, acontece ao mesmo tempo em que elas desenvolvem as aeronaves e o ecossistema.

Questionado sobre o que a Anac leva em consideração durante essa fase, Honorato responde o seguinte:

Roberto Honorato (Imagem: Divulgação/Anac)
Roberto Honorato (Imagem: Divulgação/Anac)

“São requisitos de segurança, que englobam todos os sistemas da aeronave. Obviamente, existe toda uma ciência, que já remete há anos de aviação, que nos traz parâmetros que devem ser cumpridos para que a aeronave seja segura.

Por exemplo, o eVTOL tem que demonstrar uma certa resiliência a descargas atmosféricas. Tem que ser demonstrado pelo operador de que uma falha simples não vai trazer consequências catastróficas.

Estamos falando de comprovações de engenharia mesmo, que cobrem estrutura, propulsão, toda a parte eletrônica e elétrica do veículo, compatibilidade eletromagnética, até a própria característica de voo é avaliada.”

Roberto Honorato, superintendente de aeronavegabilidade da Anac

A infraestrutura não pode ser deixada de lado. A operação de eVTOLs depende de cidades preparadas com estações físicas — chamadas de vertiports —, para pouso e decolagem, com áreas de manutenção e, principalmente, com equipamentos de abastecimento. A localização dos vertiports também é fundamental, já que o táxi aéreo tem como principal objetivo tirar as pessoas do trânsito lento, reduzindo o tempo de deslocamento na cidade.

Exemplo de vertiport para VTOLs e eVTOLs desenvolvido pela Lilium (Imagem: Divulgação/Lilium Air Mobility)
Exemplo de vertiport para VTOLs e eVTOLs desenvolvido pela Lilium (Imagem: Divulgação/Lilium Air Mobility)

Mas, quando se trata de planejamento e adequação, estamos muito longe do esperado. De 25 países analisados, o Brasil é o último da lista em preparação para a adoção de táxi aéreo. É o que revela um estudo da consultoria KPMG. A potência da América do Sul está atrás de países como Índia, Rússia e Arábia Saudita. Por outro lado, Estados Unidos, Singapura e Holanda figuram no top 3 de mais preparados, respectivamente.

A KPMG analisou quatro pilares no estudo: 1) aceitação; 2) infraestrutura; 3) política e legislação; 4) tecnologia e inovação. Olhando para o nosso quintal, o único tópico em que tivemos uma “boa” pontuação foi em infraestrutura, posicionando o país em 22º, na frente de Irlanda, Rússia e Espanha.

Brasil é o último da lista em preparação para a adoção de táxi aéreo (Imagem: Divulgação/Eve)
Brasil é o último da lista em preparação para a adoção de táxi aéreo (Imagem: Divulgação/Eve)

Fernando De Borthole é piloto de avião e apresentador do canal Aero Por Trás da Aviação, no YouTube. Ele reconhece que a aceitação ainda é o grande calcanhar de Aquiles para a tecnologia de táxi aéreo e a possibilidade de as aeronaves ganharem autonomia é outro desafio; mas isso pode mudar com tempo:

“Eu costumo dar o exemplo do elevador: quando ele começou a ser utilizado, lá na primeira metade do século 20, tinha o ascensorista; o profissional tinha que estar lá para as pessoas confiarem naquele ‘troço’. Com o tempo, passamos a ter elevadores 100% autônomos; hoje você nem precisa mais colocar o andar que vai.

Também existe metrô sem operador. Tudo é feito num sistema autônomo. Por isso que, para você chegar nesse nível tão avançado, não adianta ter a tecnologia em si, precisamos ter aceitação do público. Quando os eVTOLs começarem a operar com a malha aérea toda integrada, ainda teremos pilotos para mostrar como aquilo funciona, mostrar que há um ser humano ali trabalhando e você pode entrar porque é seguro.”

Fernando De Borthole

E o espaço aéreo vai suportar?

A quantidade de empresas apostando na tecnologia acende outro alerta: como fica o controle do espaço aéreo? Vale observar que grandes centros urbanos como São Paulo, Nova York e Hong Kong já estão com o tráfego aéreo saturado e abrir caminho para uma nova modalidade exige cuidado e atenção de todos os atores envolvidos.

Não precisamos ir muito longe para encontrar desafios. Um levantamento da Associação Brasileira dos Pilotos de Helicóptero (Abraphe) revela que a cidade de São Paulo abriga a maior frota de helicópteros do mundo. Para se ter ideia, a cada 45 segundos uma aeronave pousa na metrópole brasileira.

Controle do espaço aéreo precisa ser analisado com a chegada dos eVTOLs (Imagem: Vitor Pádua/Tecnoblog)
Controle do espaço aéreo precisa ser analisado com a chegada dos eVTOLs (Imagem: Vitor Pádua/Tecnoblog)

Quando os eVTOLs e VTOLs entrarem em atividade, eles terão que dividir o espaço com helicópteros e aviões, porém a altitude deve ser diferente para evitar acidentes. No Brasil, o órgão responsável por monitorar a atuação dos carros voadores será o DECEA (Departamento de Controle do Espaço Aéreo), que é vinculado à Força Aérea Brasileira (FAB).

“Colocar muitas aeronaves dentro de um espaço aéreo que não seja autônomo, que não tenha um sistema central conectando tudo, você cria um outro problema, que é a saturação. A verdade é que já está saturado: são aeronaves de pequeno porte, helicópteros, aviões que operam em grandes aeroportos aqui em São Paulo (por exemplo, em Congonhas, Guarulhos, Campo de Marte, tem Campinas), tudo no mesmo espaço aéreo; ou seja, já tem aeronave demais. Colocar mais dezenas de eVTOLs dentro desse campo acaba criando um problema. Por isso, precisamos pensar em soluções para esse futuro problema antes de ele existir.”

Fernando De Borthole

Afinal, quando iremos andar de eVTOL?

Setor de eVTOL pode movimentar 1 trilhão de dólares até 2040 (Imagem: Divulgação/Joby Aviation)
Setor de eVTOL pode movimentar 1 trilhão de dólares até 2040 (Imagem: Divulgação/Joby Aviation)

Apesar dos inúmeros desafios, o futuro do táxi aéreo por eVTOLs parece promissor. Em 2021, o banco norte-americano Morgan Stanley informou a investidores que esse novo modelo de negócio pode movimentar 1 trilhão de dólares até 2040. Mas alerta:

“Tempere a empolgação com paciência. A oportunidade de mercado para eVTOL pode ser maior do que vocês pensam, mas acreditamos que pode levar décadas para atingir a comercialização de alto volume.”

Banco Morgan Stanley

A Uber, através da Uber Elevate, tentou entrar nesse segmento, contribuindo bastante para o desenvolvimento do ecossistema de táxi aéreo. Entretanto, assim como fez com a divisão de carros autônomos, em dezembro de 2020, a multinacional desistiu do negócio e vendeu a empresa para a Joby Aviation, que hoje aposta fortemente na inovação. O valor do negócio não foi revelado.

Gol promete ofertar voos por eVTOL a partir de 2025, assim como a Azul (Imagem: Divulgação/Gol)
Gol promete ofertar voos por eVTOL a partir de 2025, assim como a Azul (Imagem: Divulgação/Gol)

Muitas outras empresas já demonstraram interesse em adquirir aeronaves. A Avantto informa ao Tecnoblog que encomendou 100 eVTOLs da Eve e o objetivo é ter mais 500 unidades que irão operar em toda a América Latina. As companhias aéreas brasileiras Gol e Azul também pretendem explorar esse universo. A primeira empresa fechou um acordo para comprar 250 veículos da britânica Vertical Aerospace.

A Azul escolheu a alemã Lilium Air Mobility, que deve entregar 220 unidades de carros voadores; o investimento anunciado é de US$ 1 bilhão. Tanto a Gol como a Azul prometem colocar os eVTOLs em circulação a partir de 2025. A meta é agressiva, porém especialistas consultados pela nossa reportagem dizem que é viável, embora o setor ainda encontre grandes desafios.