O melhor e o pior da tecnologia em 2022

Paulo Higa
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“O melhor e o pior da tecnologia” é o nosso tradicional Tecnocast de retrospectiva anual, mas o título do episódio de 2022 poderia ser “O pior e o pior da tecnologia”. Este foi um ano complicado não só para quem gosta de tecnologia, mas também para as empresas do setor: tivemos demissões em massa nas big techs, inflação disfarçada nos eletrônicos e estagnação no desenvolvimento de novas tecnologias.

Tecnocast 273 - O melhor e o pior da tecnologia em 2022 (Imagem: Vitor Pádua/Tecnoblog)
Tecnocast 273 – O melhor e o pior da tecnologia em 2022 (Imagem: Vitor Pádua/Tecnoblog)

Nem tudo foi ruim, é claro. O 5G puro finalmente está em operação no Brasil; uma empresa dominante em redes sociais viu seu monopólio ser ameaçado pela primeira vez; e ainda comentamos nossas expectativas elevadíssimas com o metaverso, que… nah, mentira, nem citamos essa palavra durante nosso episódio especial de duas horas. Vem com a gente relembrar os destaques de 2022!

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Transcrição

Esta transcrição foi feita com a ajuda de software, e editada antes da publicação, mas a exatidão do texto pode variar. O áudio do podcast é o registro principal.

Crise, demissões e o colapso da FTX

Mobilon

Olá, ouvinte, seja bem-vindo, está começando o último episódio do Tecnocast de 2022. Eu sou Thiago Mobilon.

Paulo Higa

E eu sou Paulo Higa.

Mobilon

O ano vai chegando ao fim como sempre, fica aquela sensação de que tanta coisa aconteceu, que a gente nem deu conta de absorver.

Mobilon

Por isso chegou a hora da boa e velha retrospectiva do Tecnocast. Nesse episódio especial a gente relembra os principais acontecimentos da tecnologia, inovação e negócios deste ano que se encerra. Então, aguenta aí que a gente já começa.

Mobilon

Todos os anos a gente costuma fazer aqui no Tecnocast uma retrospectiva do que aconteceu no ano, né? O melhor e o pior da tecnologia do ano de 2022, nesse momento. E quando a gente estava discutindo aqui os assuntos que iam entrar nessa retrospectiva, tinha uma coisa que sempre acabava voltando ali para o centro da conversa, que é a tal da crise que o brasileiro está tão acostumado já.

Só que nesse momento acontece no mundo todo, desde o começo da pandemia na verdade.

A gente falou, por exemplo, de questão de demissões em massa que estão acontecendo no mundo inteiro, nas empresas de tecnologia.

A gente conversou também sobre os novos lançamentos que não estão tão novos assim, né?

Vamos falar aí até de produtos que trocou o nome, mas parece que é a mesma coisa, o hardware não mudou, alguns literalmente o hardware, a mesma coisa.

E o que que tá acontecendo, né? Por que que as coisas estão estranhas assim, meio paradas, meio arrastadas…

E bom, já que a gente vai falar de crise, de economia, a gente precisa de um especialista aqui para ajudar a gente. Então, nesse primeiro bloco, pedimos ajuda de Felipe Ventura, nosso editor no Tecnoblog, fala Felipe!

Felipe Ventura

E aí, como vocês estão?

Mobilon

Gente, estamos aqui para falar de coisa ruim!

Paulo Higa

Qual que é a retrospectiva do ano? Crise. Por que esse ano foi, cara assim, 2020, né, a gente fez retrospectiva, tá, pô, ano de COVID, né, crise mundial, a pandemia etc., ano que vem talvez dê uma melhorada né?

Aí 2021, segundo ano, aí veio uma outra onda gigantesca ali no meio de 2021, né, que meio que jogou tudo por água abaixo nossas expectativas e tal. Aí 2022 eu acho que começou meio positivo, mas depois foi tipo

Mobilon

Guerra na Ucrânia.

Paulo Higa

É lá para fevereiro já ferrou tudo, né? É quando a guerra Rússia e Ucrânia explodiu mais assim.

Tá acontecendo há muitos anos, mas o começo de 2022 foi bem chave.

E eu acho que assim, o brasileiro está tão acostumado com crise, né? Crise econômica, hiperinflação é um troço recente e tal que a gente meio que olha para o que está acontecendo no mundo e “ah normal” e tal, né? Mas é uma coisa aparentemente nova para eles, né?

Porque você vê notícia, por exemplo, do Fed, do banco central americano, e tal.

Aí o pessoal super preocupado, nossa, mas será que o Fed vai aumentar a taxa de juros, né? E aí o pessoal “ah putz aumentou para 2,25%, e aí, galera, que que vai acontecer?”

Mobilon

2,25 né? Uau [risos]

Paulo Higa

Então, tipo, a nossa tá quase 14, sabe né? Tipo é, é muito louco assim.

Eu estava vendo aqui o TreasuryDirect, né, o Tesouro Direto americano, né, pô, se você comprar um bond de 20 anos ali do dos Estados Unidos eles pagam 4% de juros ao ano, né?

Mobilon

Nossa!

Paulo Higa

Cara, a gente paga pra 2045 aqui, 2035 também, 6% de juros reais, sabe a inflação mais isso, tipo

Mobilon

E exato, 4% não cobre nem a inflação do Brasil, né. Bitch me respeita que isso aí não é nada.

Paulo Higa

Cara, você sabe que é pior?

Agora é, eu acho que a gente está tão acostumado com a inflação que a gente tá meio vacinado, não é? Então, a inflação no Brasil se comparado com resto do mundo, tá baixa!

Está 6% nos últimos 12 meses, Estados Unidos está 7%, na Zona do Euro, está 10%. No Reino Unido, a gente assina um serviço que é britânico, teve reajuste pela inflação, que era uma coisa meio louca,

Mobilon

Nossa velho!

Paulo Higa

 e tipo, foi 9% de reajuste. Agora a inflação está 11 quase. Então tem expectativa que aumente até em 2023. Então está muito ruim, o mundo todo, e está ruim em países que geralmente fazem tecnologia, desenvolvem tecnologia, onde estão as sedes das empresas de tecnologia.

Então o nosso meio foi muito afetado por isso, né.

Mobilon

Todo mundo, né, foi afetado, é que a gente não estava acostumado. Não sei se eu lembro de um momento onde a economia inteira mundial, da minha carreira cobrindo tecnologia.

Talvez ali para 2008 tenha acontecido alguma coisa assim. Mas sinceramente, eu não lembro, sei lá, não lembro de detalhes assim, desse nível, sabe?

Mas esse papo de juros é um pouco economês demais. Vamos tentar dar uma até traduzida aqui para quem está ouvindo, se não for uma pessoa que acompanha esses detalhes.

Bom, primeiro de tudo, taxa de juros é uma ferramenta utilizada para conter inflação. Então, os governos geralmente aumentam a taxa básica de juros no momento que a inflação está disparando, porque isso desaquece a atividade econômica, né? O dinheiro que iria para comprar coisas, que iria para financiar coisas à taxa de juros mais baixas e iria para o mercado de uma forma geral, ele acaba ficando contido, tem menos dinheiro circulando, não é?

E por conta disso, menos dinheiro, menos pressão, menos inflação. Os produtos tendem a segurar um pouco mais a alta dos preços. Felipe vai explicar melhor do que eu tenho certeza, mas taxa básica de juros ela guia também decisões de empreendimento. Por exemplo, eu Mobilon, tenho aqui 10 mil reais. Eu sou um empreendedor, eu quero abrir uma lojinha para vender cupcake, sim, em 2022, não sei quem faz isso, mas vamos supor que eu queira fazer isso?

Paulo Higa

Nossa, abre uma de paleta mexicana logo…

Mobilon

Aí, beleza. Como é que eu faço? Será que vai dar certo? Será que faz sentido meu investimento?

OK Se a taxa de juros está pagando 13% ao ano, e aí eu percebo que abrindo essa loja vou ter um retorno de 10% ao ano, faz mais sentido eu colocar o meu dinheiro no Tesouro Direto, Tesouro Selic, que é o título mais seguro aqui no Brasil, e sentar lá e ficar vendo Sessão da Tarde todo dia, e ganhar esse dinheiro ou faz sentido ralar, acordar de madrugada, fazer os cupcakes, enfim, me ferrar ali para ganhar 10%?

Logicamente faz sentido eu não fazer nada e ganhar 13, né? Agora vamos supor que eu ganhe 15% com os meus cupcakes e a taxa de juros ainda é 13.

Ainda assim, não há estímulo porque esses 2%, esses 2 pontos percentuais de diferença, não remuneram o esforço que eu vou ter para empreender e os riscos que eu vou correr como empresário, eu posso perder tudo, sendo empresário, investindo, eu ganho 13, eu ganho 13 e está certo, meu dinheiro está seguro, né?

Então, é mais ou menos essa métrica, aliás, é exatamente essa métrica, né, a taxa de juros, é o que baliza as decisões de investimento das empresas.

Então, quando a gente vê empresas que também correm muito risco, empresas que estão em setores de inovação que são altamente incertos, em momentos de desaquecimento, de alta de juros, é meio que essa dinâmica também influencia nas decisões dessas empresas, no que que elas podem ou não fazer com o capital dos investidores. Essas empresas são altamente capitalizadas ali, com dinheiro de investidores. Isso também explica um pouco a questão do mercado de cripto, né? A gente viu uma empolgação generalizada nos últimos anos com criptomoedas disparando em 2020, quando começou a crise, pandemia bateu recordes e tudo mais.

Pessoal falava que bitcoin é uma espécie de “novo ouro”.

É o lugar onde a gente coloca o nosso dinheiro quando tudo está em risco, que é essa é a função do ouro no mercado de investimentos, né?

Se as moedas estão estranhas a gente vai para o ouro.

E o que a gente viu foi que bastou o Fed subir a taxa de juros ali para esses míseros 2 e poucos por cento que despencou tudo o mercado de criptomoedas, né?

Então, num momento de incerteza, os investidores correram porque era mais seguro, né, Felipe?

Felipe Ventura

Então, e o bizarro é que meio a esse contexto macroeconômico, a gente ainda teve mais demonstrações de que o mercado cripto, né, de empresas de exchanges, né, de cripto às vezes são muito frágeis, muito voláteis.

Então, esse ano a gente teve, por exemplo, o caso da Terra, que era uma stablecoin, que deveria acompanhar o valor do dólar e a stablecoin ficou extremamente instável por causa de muitas coisas e acabou criando uma crise no mercado de cripto.

Somou isso com um contexto macroeconômico de você ter a taxa de juros aumentando e as pessoas falando “ah vou tirar meu dinheiro desse ativo que é mais arriscado, né? Que flutua mais e colocar ali num que é mais seguro”.

E aí isso fez o preço das criptomoedas despencar loucamente, né? Então, teve um pico ali do bitcoin em novembro de 2021, e desde então já caiu mais de 60%, sabe?

E a gente está num período que se chama inverno cripto inverno das criptomoedas e que só foi piorando com o tempo por causa do mercado cripto, né?

E a gente teve mais fatores contribuindo para as criptomoedas caírem ainda mais dentro, do mercado cripto mesmo, por causa das corretoras que passavam mês, aí sumia uma corretora, aí passava outro mês, outra corretora sumiu com dinheiro e tinha uma moeda que era pra ser stablecoin que era para ter o valor fixado à alguma coisa, tipo ao dólar etc., que de repente não valia nada.

Por um lado, isso acabou levando embora aquele papo de NFT um pouco. Não, não foi de 100% embora, né? Mas aquele papo de NFT de macaco finalmente começou a sumir.

Mobilon

Aí ok

Felipe Ventura

Eu lembro que aí ano passado que chegou num ponto “putz, e a gente não pode mais, falar de NFT pessoal. Os leitores vão xingar a gente, não, não, não dá mais, não dá mais.”

Realmente agora não tem mais o que falar, sabe?

Inclusive várias celebridades entraram com um projeto de NFT, a maioria abandonou, o preço acabou despencando.

Muita coisa parecia esquema pump-and-dump, sabe? Que você faz a publicidade do projeto e aí fala “a gente vai criar NFT”, não sei o que, cria NFT e aí o preço despenca porque ninguém quer comprar, né?

E especialmente agora, em 2022, uma coisa que, o valor dela, o valor intrínseco dela já era, sei lá, né? Qual o valor de um JPEG feio?

Mobilon

Já não tinha

Felipe Ventura

Piorou, sabe?

Paulo Higa

Você sabe que o caso é mais recente aqui de crise em cripto é a FTX, né? Que implodiu e alguns NFTs estavam hospedados na FTX, e o site da FTX agora está fora do ar porque a empresa faliu.

Então não existe mais o NFT. Tipo, a pessoa comprou o NFT, sei lá e não tem mais, não está mais acessível, assim.

Felipe Ventura

E essa história da FTX, assim, pra mim é deliciosa, maravilhosa, porque eu acho que já devo ter falado isso em outros Tecnocasts, mas eu adoro pesquisar sobre golpe, saber sobre golpes.

Odeio receber golpes, tipo que apliquem golpes em mim, então evitem,

[risos]

Felipe Ventura

Mas eu adoro, eu adoro acompanhar esse tipo de assunto.

E a história da FTX assim, cada texto que eu lia era tipo uma camada da cebola que ia se abrindo, se abrindo, se abrindo.

Eu fiquei muito encantado, porque assim, vai.

Basicamente a FTX era uma corretora, ela era comandada por um cara chamado Sam Bankman-Fried, também conhecido como SBF.

E essa corretora tinha sede nas Bahamas. Ela inicialmente estava nos Estados Unidos, mas foi para as Bahamas para conseguir negociar alguns ativos que eram mais arriscados, né? Tinham mais risco e que ficaria mais difícil de negociar tendo sede nos Estados Unidos por causa da legislação. Como a legislação das Bahamas é um pouco mais, bem mais livre em questão de ativo financeiro, eles foram pra lá, OK.

E, aí o Sam Bankman-Fried tem participação política, ele já fez doações políticas para o partido democrata, partido republicano. Ele estava meio que investindo em criar um contexto regulatório para criptomoedas, porque participando ativamente, a ideia é que ele conseguiria fazer com que o Congresso aprovasse uma legislação que fosse mais liberal, para criptomoedas.

E nesses papos, assim com o Congresso, ele começou a reclamar de um concorrente dele, que é o Changpeng Zhao, ou CZ, que é da concorrente Binance.

E aí é esse concorrente tinha uma criptomoeda emitida pela FTX e falou “vou vender tudo”.

Jogou no Twitter “ah vou vender tudo”. Assim começou o colapso da FTX porque teve uma rinha aí de exchange.

Mobilon

Elon-Muskizou basicamente.

Felipe Ventura

Pois é. [risos]

Mobilon

Foi no Twitter e falou que ia vender, o negócio caiu.

Felipe Ventura

Pois é.

E aí simplesmente, né? Começou ali o colapso. Muitos investidores ficaram preocupados, tentaram sacar dinheiro. A FTX chegou a um ponto que interrompeu os saques e foi daqui para baixo, né.

A FTX declarou falência em novembro, ficou devendo aí 8 bilhões de dólares em ativos dos clientes.

Mobilon

Caraca!

Felipe Ventura

E aí, quanto mais você vai procurando, mais coisa bizarra você acha.

Então, por exemplo, parece que tinha um backdoor no sistema da FTX para onde sumiu algum dinheiro que aparentemente foi para a África então, infelizmente, bizarro.

O SBF, o Sam ele cultivava há anos, uma ideia de tipo de gênio da tecnologia de um cara que, tipo, era muito humilde, não tinha tempo para se preocupar com coisas luxuosas, né?

Ele era um bilionário e ele chegou à lista de bilionários muito rápido.

E ah, ele sempre aparecia nos eventos de bermuda e um tênis simples, nunca aparecia vestido como executivo e ele não dirigia um carro de luxo, dirigia um Toyota Corolla, ficava cultivando assim essa imagem.

Aí chegou a falência e tal. E aí ficou claro que de humilde não tinha nada. O cara estava morando numa mansão de 30 milhões de dólares nas Bahamas.

Mobilon

Nossa!

Felipe Ventura

Ele não morava sozinho, ele morava com uma galera que era de poligamia, né? Então um namorava o outro e aí terminava e voltava e usavam drogas também. Droga recreativa e também para aumentar desempenho.

Paulo Higa

Nossa Senhora, dá pra fazer uma série de Tecnocasts só sobre isso. Inclusive felizmente vai virar série, vou querer assistir.

Mobilon

BBB.

Felipe Ventura

E assim, aí ele morava com a Caroline Ellison que era a chefe da Alameda Research, que era uma empresa, separada em tese, da FTX.

Aí o que descobriram é o seguinte: a Alameda estava pegando dinheiro da FTX para fazer investimento, sem avisar para os clientes e sem o consentimento dos clientes, porque o cliente assinava um termo de uso falando “ah é o seu dinheiro, não vai ser usado para investimento para qualquer outra coisa, a menos que você permita” e na prática não foi o que aconteceu.

Basicamente o FTX virou um banco para Alameda, para eles investirem e aí eles investiram. Quando chegou o momento de os clientes sacarem o dinheiro, a Alameda estava com esse dinheiro preso em outros lugares. O valor desses investimentos também caiu. Então por isso, a FTX parou de realizar saque e aconteceu aí toda a queda da FTX.

E o Sam Bankman-Fried ele mostra como tipo, você pode ser um nerdola, um nerdão assim ferrado e ainda assim conseguir enganar bilionários de vários países.

A voz dele é de nerdão. Eu não digo isso como ofensa porque eu sou um nerdola, né.

Mobilon

Acho que quem está ouvindo isso já sabe que somos todos, né? Mas enfim.

Felipe Ventura

Mas assim, mas eu fico, fico impressionado como ele estava, tipo ah sei lá, com aquele jeito um pouco, acho que inofensivo, mas na verdade, o cara ele é muito malandro, sabe?

Então aí mais outra coisa né. Aconteceu o colapso da FTX aí, sei lá, o pessoal achou que o Sam ia sumir, né?

E pelo contrário, ele tava dando entrevista por DM do Twitter para uma amiga que é jornalista, e ele participou de um evento do New York Times, direto das Bahamas, né?

Ele não chegou a viajar.

Ele estava participando de Spaces no Twitter com pessoal que é entusiasta de cripto. Assim, ele não calava a boca. Então eu acho que é o pesadelo de todo advogado.

E assim, ele dava entrevista e as pessoas perguntavam, “cara, a FTX e a Alameda Research estavam misturando fundos?”, e ele conseguia se esquivar da pergunta muito bem, isso de jornalista, sabe, que tem muito tempo de experiência.

Então você vê assim o vídeo foi cara, ele é um gênio do mal, assim, fantasiado ali de um nerdola inofensivo, sabe?

Mobilon

Que bizarro.

Felipe Ventura

Enfim, eu fiquei muito encantado, assim, com ele, com o exemplo dele, mostra que a gente que é CDF também, se a gente se esforçar bastante, a gente também consegue aplicar um golpe bilionário, afetando cliente, pessoas de todo mundo.

[risos]

Felipe Ventura

Investidores de todo mundo, sabe. É uma inspiração na vida.

Mobilon

Metas pra vida

Paulo Higa

Acho que a gente tem futuro, então.

Mobilon

Mas no final, ele ficou com toda a grana, então todo mundo se ferrou e ele saiu fora com o bolso cheio.

Felipe Ventura

Assim, pelo que parece, pelo que tudo indica, ele ficou com o bolso cheio. Não com tudo, né? Porque realmente bastante desse dinheiro sumiu, perdeu valor, né? Porque estava aplicado numa, numa, nu token que foi criado pela FTX, né, então como a FTX não vale mais nada esse, esse token, também não vale mais nada. Enfim, é uma história assim, excepcional.

E assim, começou em novembro, né? E foi ali se é se desenrolando, se desenrolando e findou que o Sam, ele concordou em ser extraditado para os Estados Unidos. Acho que ele tava tipo, fazendo essas entrevistas, tudo mais porque achava, “não, ninguém vai me pegar, não vai acontecer nada comigo”, não sei o que, mas parece que vai.

E aí como o fim da FTX, ela tinha cerca de uns 300 funcionários, o Sam Bankman-Fried sempre se orgulhava de ter muito menos funcionários do que concorrentes como Binance, Coinbase, que assim problema, né? Só que agora todo mundo no olho da rua porque FTX basicamente não existe mais, mas não foi só a FTX que acabou demitindo um monte de gente esse ano.

Mobilon

É, aí foi um caso isolado, né? Uma história curiosa aí que aconteceu esse ano não foi a primeira e provavelmente não foi a última no mercado de cripto, de relacionado a golpe.

É, mas assim, o que a gente viu nos últimos 2 anos, que foi que no começo da pandemia estava todo mundo empolgado achando que esse lance de ter que ficar em casa obrigatoriamente seria o que a forçar a adoção das tecnologias, né?

Que estavam acontecendo aos poucos, mas dessa vez ia ser um salto e as pessoas não iam mais voltar para os números anteriores.

E basicamente isso aconteceu no mundo todo, não é? E a gente estava até conversando que aqui no Brasil os varejistas apostaram nisso, né. Magalu, Americanas,

Paulo Higa

Nossa, cara. 2021 foi a festa da uva, porque tava todo mundo contratando, tava todo mundo contratando pra cacete e tal

Mobilon

E comprando empresa também, né?

Paulo Higa

Comprando empresas, investindo em tecnologia. 2020, 2021, foi. Foi uma época que p***a.

Mobilon

Só o Tecnoblog desviou de 3, né? A gente teve 3 empresas grandes varejistas brasileiros [ruído de caixa registradora] tentando comprar o Tecnoblog, e a gente conversou com o pessoal, o pessoal “vamos dar um NDA então”, que é o termo onde a gente começa a revelar informações privadas da empresa, para eles avaliarem qual é a situação real do Tecnoblog, né?

E a gente não assinou porque a gente ia falar não, não vamos vender de qualquer jeito. Então não faz sentido revelar os dados da empresa e depois essas mesmas empresas despencaram em bolsa de valores e tudo mais, né?

Paulo Higa

80, 90% em 12 meses, né, uma coisa muito louca.

Esse ano que a gente viu foi assim, uma série de empresas, principalmente startups nessas empresas de diversos segmentos, mas que colocam tech no final do segmento, né?

Tipo fintechs, sei lá, qualquer coisa com que termina com tech, healthtech, enfim, demitindo em massa assim. Então lá pro meio do ano eu lembro que toda semana tinha uma ou duas startups assim demitindo, sei lá, 200, 300, 400 pessoas de uma vez só.

E eram empresas que em 2021, principalmente, tinham se expandido bastante com aquela onda de otimismo que tinha acontecido naquele ano e tal. E que 2022 o pessoal começou a meio que cair na realidade, assim repensar. Acho que vários comunicados de CEOs, demissões dessas startups foram no sentido de “olha, a gente reavaliou o cenário econômico e são cortes difíceis e tal, mas que serão necessários para que a empresa continue o seu curso”, e tudo mais. Então foi um choque de realidade.

Mobilon

O próprio Mark Zuckerberg recentemente, quando a Meta anunciou as demissões em massa, também, né. Meta/Facebook ele também falou que cometeu um erro na carta que ele mandou lá para os funcionários e ele cometeu um erro de superestimar o momento, né, da pandemia, da adoção, das tecnologias e tudo mais. Então, realmente assim, a gente aqui também reuniões que a gente fez com parceiros tal, havia esse clima generalizado ali em 2020, 2021, de oba-oba de que é agora que o negócio vai explodir mais rápido do que nunca, a gente tem que entrar com tudo.

Então o preço de contratações até não é a gente tentando achar dev, não conseguia e aí havia uma dificuldade que era tanto de mercado nacional quanto internacional, porque lá fora contratações estavam muito aquecidas.

E aí o dólar também estava subindo, então essas contratações, as empresas americanas e estrangeiras começaram a contratar do Brasil, o preço dos devs aqui disparou, multiplicou por 2 por 3, sabe?

Então o Tecnoblog não conseguia contratar dev nesse momento do auge das contratações. Agora, o que a gente está vendo é o contrário, né? Então, mesmo com crise, com o dólar em alta, muitas demissões, o mercado está com, infelizmente, né, muita gente ficou desempregada e a situação mudou um pouco.

Felipe Ventura

E claro, como a gente está falando do setor de tecnologia, obviamente existe um site para acompanhar todas as grandes demissões de tecnologia. Que já estão sendo chamadas de layoffs, mesmo no Brasil. Não lembro de outro momento chamarem demissão de layoff, mas acabou virando meio que regra, assim.

Muitas empresas é está aí, tem aí o site layoffs.fyi. Aí você tem várias empresas no Brasil que foram afetadas, de demitir 10%, 15%, 20% da força de trabalho de uma vez só e às vezes ter que fazer outra leva de demissões, né? Então, empresas como a Loggi foram afetadas, EBANX de pagamentos, Hotmart, que é de marketing e vende curso online, o Quinto Andar, que trabalha com imóveis, a Buser de transporte. Muitas empresas demitindo.

Então você vê aí centenas de pessoas sem emprego tiveram que ser cortadas por causa de cenário macroeconômico e lá fora também, como o Mobilon, tinha falado da Meta, né? São 11000 no total. Essas demissões, elas não são feitas todas de uma vez só, né? Elas vão sendo feitas ao longo de semanas, né? Mas o Zuckerberg já se comprometeu a tomar conta dos futuros ex-funcionários. Tipo de dar pacote de severance e tudo mais. Amazon cortou 10 mil, o Twitter é um caso à parte, mas não é um caso à parte, né? Eles tiraram 3 e 700 e muita gente também se demitiu.

Enfim, várias empresas que são mais conhecidas lá fora é tem um caso curioso da Shopify, que é pra fazer loja online e eles fizeram um corte de 10%, né, da força de trabalho, deu mil pessoas. E afetou vários programadores que eram do Brasil. Então, como o Mobilon disse, tem essas contratações que eles fazem ao redor do mundo para pessoa trabalhar de home office e várias pessoas foram cortadas e pelo que eu vi tinha uma diferença no jeito que as pessoas aceitavam as demissões, né?

Então tinha muita irlandesa, sei lá, fazendo a caveira da Shopify falando tipo, sei lá, zuando no LinkedIn e fazendo coisas do tipo. Enquanto o brasileiro era tipo, obrigado muito obrigado pela oportunidade, foi maravilhoso, foi incrível. Tipo como se tivesse saindo de um reality show, sabe?

Paulo Higa

Encerrando um ciclo aqui.

Felipe Ventura

É, “Encerrando o ciclo”, exatamente. Mas enfim, é uma coisa que acabou afetando todo tipo de empresa de tecnologia. Grande pequena é até algumas menores.

Mobilon

Até mercado de mídia também. A gente viu bastante, né? A CNN, por exemplo, anunciou o fechamento da sede do Rio de Janeiro recentemente, então não sendo diretamente empresa de tecnologia. Mas estão pezinho ali também.

Mas para a gente ver como isso afeta a situação, afeta todo mundo. Não tem como isso tem um pouco a ver com o que eu estava falando, da questão de avaliar os investimentos que você vai fazer, né? Então, essas startups, geralmente maioria delas, está queimando dinheiro para adquirir usuários e depois ter um modelo de negócios, uma coisa, dar lucro, ser sustentável. Então, quando você está num momento de grande incerteza, não faz sentido despejar essa grana toda.

Em 2020 era um momento de crise, mas existia essa convicção do mercado todo, por conta da situação, que as pessoas estariam em casa, a gente vai usar mais serviços, mais internet etc., que era o momento de investir, de entrar forte e contratar tecnologia e pessoas etc.

E agora é o contrário, com guerra, com a inflação, a gente achou que a pandemia, a parte econômica, já estaria mais sob controle. O que aconteceu foi o contrário, teve muita moeda sendo impressa, teve muita desorganização no sistema econômico como um todo, até na parte da produção, porque a gente precisou ficar em lockdown, não é? Foi uma necessidade ali de saúde.

Paulo Higa

Lembra quando o pessoal discutia se recuperação econômica ia ser em V, ia ser em W, inventava umas letras ali? No final das contas, foi tipo, a gente estava ruim, aí ficou mais ruim e agora parece que piorou, então parece que sempre ficou pior assim. Esse ano foi difícil

Mobilon

Eu acho que ninguém esperava uma guerra da Rússia com a Ucrânia ali, né? Uma coisa estourando de verdade, e isso afetou muito o preço de petróleo, de commodity. A Europa não é à toa que é a região ali mais afetada na com a questão da inflação, que é o são os que mais dependem da fonte ali. E isso se soma a situação que já estava e acaba impactando no mundo todo. E aí, no mercado de tecnologia tem outras crises também que já vinham acontecendo, que agravam um pouquinho mais a situação. Então, por exemplo, a crise de abastecimento de chips, né? A crise do silício a gente já fez um Tecnocast explicando exatamente o que era isso e até onde isso afetava. Basicamente tudo, carro, TV, tudo, qualquer dispositivo eletrônico hoje em dia tem silício dentro, não tem como não ter.

Isso ainda está rolando.

Tem investimento sendo feito para abertura de novas fábricas, para aumentar a capacidade de produção, mas até essas fábricas ficarem prontas e o processo estar otimizado, leva tempo, não é da noite para o dia.

E o que a gente viu quando a gente foi fazer esse levantamento também dos lançamentos é que, cara, para todo lado que a gente olha, os lançamentos não empolgaram? O M1 da Apple foi incrível. O M2 foi meh, parece que pouca evolução.

O iPhone 14, o 13 já tinha sido meh. Mas aí a gente esperava que ah tá bom, é a geração do meio, o 14 vai ter um ganho de performance maior e aí foi pior né Higa, que eles usaram o mesmo chip. Tipo, como assim?

Paulo Higa

O chip do iPhone 14 é o mesmo do iPhone 13 Pro.

A gente, explicou. Faz sentido você pegar um chip do 13 Pro, porque tinha um núcleo de GPU a mais, mas o custo para fazer isso é marginal, né, enfim, é muito baixo, é?

Então usaram isso como marketing e a gente viu muitas medidas curiosas para disfarçar a inflação, né? Eu acho que sei lá, no supermercado, ficou muito óbvio o negócio do leite condensado, né? Porque inventaram uma mistura láctea de não sei o que lá que não era igual leite condensado, enfim, aí.

Mobilon

Nossa verdade. O leite Ninho também, né?

Paulo Higa

Sim. Então muita coisa mudou. No caso do iPhone é, a gente viu essa inflação disfarçada porque a Apple costuma fazer isso com uma taxa de sucesso muito alta, mas esse ano ficou bem explícita, assim.

A gente tinha até o ano passado a versão mini, que era a versão meio que de entrada, e agora esse ano mataram o mini e só tem o padrão e colocaram o Max no meio. O que isso significa? Que o preço de entrada do iPhone aumentou cem dólares, né?

Mobilon

Subiu o preço

Paulo Higa

E basicamente, isso vai aumentar o preço médio ali. E a gente viu também, é aqui no Brasil. A gente está meio que, a gente não tem muita referência de preços de eletrônico, porque como varia muito, né, com o dólar e inflação e tal, é meio que não tem um preço mágico, mas nos Estados Unidos, por exemplo, que é o mercado com uma moeda um pouco mais estável, até então, a gente tinha algumas faixas de preço muito, muito simbólicas, então tipo, há um celular intermediário, legal assim, pô, 399 dólares, acabou, né? Um Galaxy A ali do meio, né?

E aí esse ano começou aparecer 449,499. Então você vê que mesmo essas faixas de preço, assim, mais baixas, né, mais intermediários começaram a subir em mercados que tipo, nunca subia.

O pessoal da Europa, no iPhone 14, na Europa, aumentou de fato assim.

Reino Unido o pessoal ficou assustado, né? Porque também a libra esterlina desvalorizou para caramba, nesses últimos anos, últimos meses também. Então, o iPhone aumentou assim, numericamente ali o preço, né, coisa que nesses mercados, pessoal não estava acostumado.

Então foi uma coisa que o mundo inteiro sentiu.

Outra medida curiosa para é disfarçar inflação de produto foi que além de você ver empresas estagnando produtos, né, tipo, sei lá, o iPhone 14 tem o mesmo chip do 13 Pro, por exemplo.

Eu vi uma coisa acontecendo, por exemplo, em relógios. A Samsung lançou o Galaxy Watch Pro esse ano, né? E é um relógio, pô, com uma construção melhorzinha e tal, né, para concorrer com o Garmin e tal?

Ele é mais caro, custa 500 dólares, aqui no Brasil 3500, 4 mil reais. A gente estava acostumado com o Galaxy Watch de 1400, né? E o Galaxy Watch 5 ele deu uma estagnada esse ano, né, em relação ao Galaxy Watch 4, não teve muita novidade e a novidade ficou pro Galaxy Watch 5 Pro.

Então eles colocam umas coisinhas ali, umas coisas que a gente sabe que não tem um custo tão grande, tipo, ah, vamos colocar um aço inox aqui na borda, tipo, isso tem um custo relativamente baixo, né, para a indústria assim.

Geralmente, quando você faz em altos volumes assim, é mas é uma tentativa de lançar uma faixa de preço maior, não é?

Então você estagna o produto da faixa de preço comum, você lança um mais caro com as novidades que poderiam estar na faixa de preço comum.

Mas se não lança, por que não? Tipo Apple Ultra, aconteceu a mesma coisa.

Mobilon

A Apple, quando trocou o iPhone 8 para o iPhone X, né? E aí, de repente, o iPhone já tem uma nova faixa de preço que é mil dólares.

Paulo Higa

Sim, e o Galaxy Z Fold 4, pelo amor de deus, difícil lembrar o que mudou em relação ao 3? Assim porque cara, igual, não mudou nada. A gente entende o porquê que não mudou, mas para quem acompanha a tecnologia é muito decepcionante. Assim, pô, é a mesma coisa do ano passado, sabe?

Mobilon

É, mas acho que assim no final, a questão é, não dá para esperar muita coisa de 2023 ainda. Talvez a situação melhore um pouquinho, né? Mas posto esse cenário todo, não acho que é uma coisa que se resolve em 1 ano, né Felipe? Até, não sei, o economista aí do podcast, você quer fazer alguma previsão para 2023?

Felipe Ventura

Fazer previsão errada eu estou pronto, não é todo mundo.

É, a gente estava até conversando antes de começar a gravação, né? Sobre a curva da taxa Selic, que o Banco Central acompanha isso. Pergunta para vários economistas de vários lugares, qual a previsão deles para inflação, taxa de juros etc. E eu acompanho o boletim Focus, do Banco Central, que é onde tem isso.

E aí você vê o nível, de otimismo dos economistas em geral, e como o otimismo vai sendo corroído pela realidade ao longo do ano. Então a inflação de 2023 estava tipo 4,5%, aí vai aumentando aos pouquinhos, ainda. Quando a gente entrar em 2023, esse negócio vai subindo, subindo, subindo. Tem gente prevendo Selic 10 vírgula alguma coisa por cento, sendo que agora está quase 14. Tipo é, sei lá, o povo tá sonhando muito, está otimista demais ainda, acho que vai demorar um tempo para a gente se recuperar disso tudo, né? Dessa bagunça toda que que a crise gerou e num caso de tecnologia também, porque como o cenário macro assim reflete muito em startups e empresas de tecnologia, porque acaba secando a fonte de investimento, né?

Muita gente, em vez de apostar numa startup com uma ideia maluca que pode mudar o mundo, a pessoa vai para um investimento mais seguro, porque está rendendo mais, não é?

E também problema de cadeias de produção não se resolve rápido, né? Ano passado a gente é fez um especial explicando que em 2022, talvez desse uma melhorada, mas isso só deve ser resolvido mais ou menos 2024 ou 25, porque aí é quando as novas fábricas vão entrar em operação.

Fazer fábrica, você não faz do dia para a noite, demora muito e pra você resolver esses problemas de cadeias de produção, tem que esperar, né? Não. A demanda das pessoas não caiu tanto, né, apesar da crise, a demanda das empresas não caiu tanto. Mas não tem componente, né?

Então fica nisso desse ciclo de produto meio tedioso, que muda muito em relação ao ano anterior e a gente fica meio assim nessa espera, de que a situação econômica vai melhorar de que essas fábricas vão entrar em operação e aí a gente vai poder ficar mais empolgado com lançamentos, por exemplo. Mas assim, em 2023 a gente vai ter o iPhone com USB-C, então se você quiser, sorria com isso.[EF1] 

Talvez não tenha coisas muito, muito, muito maiores que isso.

Paulo Higa

Nossa, felizmente um estímulo. Vai estimular a indústria de cabos. Ótimo.

Mobilon

Como diria Phil Dunphy, do Modern Family, as coisas mais incríveis que poderia acontecer com um ser humano, vão acontecer com você se você simplesmente abaixar as suas expectativas bruscamente. Isso é o resumo de 2023.

Felipe Ventura

Eu não conhecia essa situação. Adoro Phil Dunphy, não conhecia essa citação, pronto, já vamos levar para 2023.

TikTok e o fim da rede social de verdade

Mobilon

E outro assunto que a gente comentou bastante em 2022 foi o TikTok, e não só aqui, no Tecnocast, também lá no Tecnoblog, né? E não é porque a rede social se tornou um fenômeno este ano especificamente. Ela já era bem popular em 2021, a temos até algumas estatísticas aqui. O aplicativo já foi baixado mais de 3 bilhões de vezes e, de acordo com o Business of Apps, até o final de 2022, a expectativa é que ele tenha conquistado 1,8 bilhão de usuários. Só que assim, o TikTok sequer se reconhece como uma rede social. Eles se definem como uma plataforma de vídeos curtos.

Paulo Higa

É igual o Uber, né? Não é aplicativo de transporte, é uma empresa de tecnologia que conecta pessoas a motoristas e não sei o quê, não é?

Mobilon

Pois é, muda nome, mas não muda o produto é a mesma coisa no final das contas. Mas o fato é que esse DNA aí acabou contaminando também outras redes sociais que tentam competir com ele. Mudaram um pouquinho suas características, né? E esse é um dos motivos pelos quais alguns analistas vem falando que em 2022 as redes sociais chegaram ao fim.

Bom, vamos discutir um pouco melhor isso. Acho que começa na definição também do que é uma rede social, não é?

Mas para falar sobre isso, a gente traz agora a Ana Marques, Ana Marques, com 4 no lugar do a no final, como é que é? Ana, editora do TB, bem-vinda.

Ana Marques

Nem eu sei mais. É Ana, o 4 no lugar do último a. @anam4rques

Mobilon

É isso.

O que você acha dessa afirmação?

De não ser uma rede social e que agora as redes sociais vão acabar.

Ana Marques

Eu acho um exagero. Enorme absurdo.

Eu acho que é uma rede social. Sim, eles não se definem como rede social, mas é uma rede social e eu acho que é uma evolução e talvez uma junção do que a gente tinha de mídia antes das redes sociais com as redes sociais.

É um caminho da evolução da comunicação, basicamente, por vídeos.

Então, antes de ter esses lance de rede social, a gente tinha essa questão de TV em massa, né, mídia de massa e a gente via os canais e tudo mais de televisão. Depois, as pessoas foram buscando entretenimento em outras plataformas, veio YouTube, depois veio o Facebook e tudo mais.

Os vídeos foram ganhando destaque na internet. E aí vieram essas novas redes sociais que não se consideram redes sociais, mas que são, que é o TikTok e que ele acaba trazendo uma certa cultura de massa para um formatinho ali que cabe na palma da mão, no smartphone e tudo mais, juntando esse lance das redes sociais, então eu acho que sim, é rede social, mas é uma evolução do que a gente conheceu lá nos primórdios das redes sociais.

Mobilon

Que que define, né? Porque acho que rede social talvez, será que tem ainda que imagina rede social como um lugar para adicionar pessoas e mandar scrap. Ou será que é disso que eles estão tentando fugir? porque se há um lugar, um ambiente onde você tem um perfil, adiciona pessoas, interage com pessoas, é uma rede social, né? O que que muda?

Ana Marques

Exatamente. Existe aquela definição básica da rede social que é isso que você falou, né? Onde a gente tinha os nossos amigos, a gente mandava o scrap, a gente postava as nossas fotos ali era um círculo muito mais privado. Aqui no Brasil, principalmente, era muito lá na época do Orkut, depois do Facebook, ele veio com essa pegada também.

O Instagram já era fotos e aí era uma coisa que às vezes a gente acompanhava uma celebridade ou então um fotógrafo, um artista e tal.

E aí essa coisa, ela foi se expandindo, então eu acho que a galera falar não é uma rede social, pensa na rede social como isso tem sua círculo próximo ali, né, seus laços de alguma forma, é um vínculo. Tanto que no Facebook era aquela questão de amizade, né, solicitar amizade.

No Instagram isso já mudou porque era seguir, né? Então, é uma relação um pouco diferente de ser amigo, tanto que no Facebook isso até tem um efeito psicológico, imagino, porque no Facebook quanto de gente que se manda solicitação de amizade e parece que quer se conectar com você e parece que no Instagram as pessoas te observam, né? Elas visualizam até as Stories, mas elas têm um receio ali na hora de seguir, elas só seguem realmente quem está ali, elas têm interesse de dar aquela moral para você, não é?

Então já tem essa diferença. E no TikTok e se pá nem seguem elas estão ali vendo coisas bizarramente passando no feed, né, pra lá e pra cá. Então, se a gente pensar em rede social dessa forma, no círculo social mais próximo, em vínculos mais fortes, isso tá acabando, tá chegando ao fim.

As pessoas estão consumindo cada vez mais coisas de pessoas que elas não conheciam. Tem chegado de conteúdos diversos, né? Que vem ali, naquela aba de explorar ou então no próprio TikTok, na aba principal do TikTok e que elas não seguiam antes.

Então é uma nova lógica de descoberta, né? Muito mais do que pessoas que você conhece.

Mobilon

Faz sentido.

Paulo Higa

Foi diminuindo a fricção de você encontrar novas pessoas. Parece uma coisa super transparente, né? Tipo TikTok. Se você não precisa seguir ninguém e você tem de alguma forma, o algoritmo funciona e você consegue ver conteúdos que te interessam, né?

Enquanto que num Orkut da vida era muito mais difícil, todo mundo que você tinha como amigo, era tipo, pessoas que você conhecia ou que você criava um vínculo maior ali e a chance de você meio que furar esse círculo era por meio de comunidades, mas ainda assim era uma coisa bem difícil, não é? Tipo, o Facebook já foi meio que um passou além, porque no seu feed não necessariamente tem só coisas que você segue ou que você tem como amigo. E aí TikTok é totalmente, você não precisa seguir ninguém, e você tem acesso a um monte de coisa.

Mobilon

Uma das consequências disso também que eu estava pensando é que antes você cultivava relações, conexões, não necessariamente conexões reais, tinha muita gente que sai adicionando todo mundo e, enfim, é o padrão ali de comportamento da internet.

Mas agora é são redes que estão focadas mais numa dinâmica que é mais seguidor-celebridade, né fã-celebridade, mesmo não sendo celebridade e as pessoas normais tendem a esse comportamento de mais exposição, para fazer parte dos trends ali daquela rede social, daquele comportamento específico, não é, mas não tem tanto essa necessidade de você criar laços, de criar conexões.

Então, por esse lado, talvez realmente o nome social remetendo a socializar, né, ele vai ficando um pouco mais datado, porque você pode entrar ali se mostrar o quanto você quiser.

Assim não tô nem falando do jeito pejorativo também, né? Mas é expor seu trabalho, qualquer outra coisa, e milhões de pessoas podem te ver, você pode entrar num trend, isso acontece bastante no TikTok, né?

E não necessariamente é um lugar onde você está criando conexões com ninguém, interagindo de fato, do one-on-one. Sabe aquela coisa tipo, fiz um amigo na rede social. É tipo, respondi meus seguidores. E é isso, você faz isso para ganhar engajamento. Talvez por esse lado, sabe?

Ana Marques

É, eu concordo.

Acho que sim, se a gente pensar no social como uma coisa próxima, isso realmente parece que está acabando. Mas existe um social pelo outro lado que é o lado da interação, né?

E aí a gente difere a mídia de massa tradicional, então, TV e tudo mais da do TikTok, por exemplo, porque na mídia de massa, por mais que a TV ela tenha incorporado ali mais ou menos uma questão de interatividade, aí tem a galera que comenta no Twitter com hashtag. Aí a TV vai e apresenta.

No TikTok e a interação ela faz parte do app, então você tem aquele botão de fazer dueto e você vai lá e você interage com o conteúdo que outra pessoa fez. É assim que viraliza inclusive, né. Quanto mais compartilhado de alguma forma ou duetado ou comentado.

A interação ela impulsiona aquele vídeo. O algoritmo percebe que tem muita interação e aquele vídeo vai sendo impulsionado.

Então, ao mesmo tempo que não é social, é social, né, que a gente acaba interagindo o tempo todo. É muito doido pensar nisso.

Mobilon

Dá para ser, mas dá para não ser também. O ponto é que a dinâmica ela é feita meio que sem colocar isso no centro da história, né, da conexão individual, eu digo, de você fazer uma conexão com alguém ali.

E você pode simplesmente estar ali participando, né? Aliás, quando eu penso no TikTok eu penso muito mais num ambiente como se fosse uma dinâmica de grupo assim, onde tem um centro que vai digitando tipo assim, isso aqui está em alta no momento, uma música, um cut, algum estilo ali de vídeo, e aí todo mundo faz aquilo. Aí próximo, né?

Ana Marques

Sim, é muito isso.

Mobilon

Aí no outro dia é isso de novo e no outro dia, mais uma coisa. Assim como no Twitter, é tipo quem vamos xingar hoje, quem vamos apedrejar hoje no Twitter, é uma coisa um pouco diferente.

E no Facebook da vida não era assim. No começo, acho que isso tomou conta um pouco depois, até porque a Meta vem incorporando muito elementos de TikTok e tudo mais nas suas redes, no Facebook e no Instagram também. Mas aí sim, de fato, a gente consegue enxergar melhor que são todas redes sociais, mas existem essas nuances.

Paulo Higa

Aí, e esse negócio de o social não estar no centro é uma coisa que que aconteceu muito com o YouTube, né? Ele é visto como uma plataforma de vídeos. Ninguém tem muita dúvida, mas no final das contas, é uma rede social, né? Você tem inscrito em canais, você pode criar seu próprio canal etc. Então segue uma dinâmica parecida ali com TikTok e acho que os dois também acabaram se aproximando porque são cases de sucesso e a gente até gravar um Tecnocast esse ano sobre o TikTok sendo usado como busca, como buscador.

Então a gente até fez alguns testes ali, procurando ah sei lá, se a gente procurar restaurantes japoneses na minha cidade, você consegue achar no TikTok. E existe uma utilidade além daquele negócio de rede social que a gente estava acostumado na década passada, não é?

 Então é interessante. Acho que as redes sociais não morreram, mas elas estão bem diferentes. Assim, se se uma pessoa fosse presa em 2005, 2010 e voltasse agora, ela não ia entender muito bem o que está acontecendo ou por que que isso é uma rede social. Até porque antes era site de relacionamentos.

Mobilon

Acho que ela ia sair e falar, putz, quantos scraps, será que tem lá no meu Orkut? Já era.

[risos]

Ana Marques

E tudo isso tem feito algumas plataformas maiores, tremerem de medo?

Então, quando que o Facebook imaginar que do nada ia chegar a uma plataforma chinesa, um aplicativo, que, basicamente, olhando por alto, parece um Instagram, mas que na verdade não tem nada a ver e que ele ia conquistar tanta gente, não é?

Principalmente a galera, nova geração e levar todo mundo para lá. Então tem empresa grande morrendo de medo disso e do que vai acontecer e da perda de usuários, né.

A gente já viu números do Facebook caindo, teve uma ligeira queda pela primeira vez em 10 anos. Foi esse ano isso. Então assim, começou a ficar complicado para o lado da Meta, da empresa lá do Zuckerberg.

E aí aparentemente, eles lançaram até campanha difamatória, né? Foi uma reportagem do Washington Post que revelou esse caso.

Uma campanha falando mal, do TikTok com foco nos pais desse público-alvo do TikTok e que inicialmente era a geração Z.

Então era uma campanha que falava que o TikTok era perigoso pra principalmente para crianças e adolescentes porque ele incentivava trends, esses vídeos virais que eram perigosos por botar a saúde dessas crianças, desses adolescentes em risco. E aí teve um que viralizou, que era da tomada, né? Incentivando a pessoa botar uma moeda na tomada. Só que o problema é que depois disso ficou provado que não tinha nascido no TikTok.

Na verdade, isso já era compartilhado, se não me engano, no Instagram, ou era no Facebook? Um dos dois, então…

Eles tentaram falar alguma coisa sobre o TikTok e causar ali um alvoroço entre os responsáveis dos usuários. Mas não deu muito certo não, e o TikTok e continuou crescendo.

Mobilon

E nesse contexto todo de concorrência, a Meta vem sofrendo bastante também. Então esse ano eles apresentaram pela primeira vez um resultado ruim de queda na receita. Isso já aconteceu nos últimos dois resultados financeiros trimestrais da Meta.

A primeira, revelada ali em junho de 2022, teve uma queda de 0,88% na receita da empresa. E agora de novo em setembro, queda de 4,47% no trimestre comparado com o mesmo trimestre do ano anterior. A margem de lucro líquida da empresa foi que mais chocou, com queda de 49,95%. Metade, caiu pela metade a margem da empresa.

Então quando a receita está estabilizada, ou cai um pouquinho como foi esse caso aqui mais a margem de lucro cai tão forte é um indicativo de que a empresa está precisando gastar mais dinheiro, investir mais dinheiro para ter o mesmo resultado. Isso gera preocupações, porque a gente está vendo essa concorrência do TikTok vindo muito forte.

E a Meta algum tempo, já muito preocupada com isso, tentando lançar recursos para reter usuários e para conseguir, bater de frente com essa concorrência do aplicativo chinês. Agora, quando isso começa a aparecer nos resultados, especialmente pela primeira vez.

Porque o Facebook sempre consegui aumentar a receita, aumentar a receita. Então esse ano, pela primeira vez, começa a ter aí o impacto negativo. É o momento que o mercado fica mais receoso. As ações da empresa caíram bastante esse ano. Não foi só a do Facebook que caiu, o mercado americano no geral, as empresas listadas em bolsa tiveram uma boa queda esse ano, as de tecnologia, mais ainda, mas o Facebook, especificamente, a gente está vendo o resultado agora na prática, né? Dessa concorrência.

Ana Marques

E a gente acaba vendo aí o desespero para lançar ou copiar entre aspas, alguns recursos, né? O Instagram, lançando aí é um feed mais voltado pro reels do que para as fotos e a galera reclamando porque está no Instagram porque queria fotos, se eu quisesse reels, eu ia pro TikTok. Então há um certo desespero em adaptar-se à nova dinâmica, né? Mas, ao mesmo tempo, tem muita gente reclamando que o Instagram está perdendo a sua essência, né?

E aí virou um frankenstein. A gente sempre fala sobre isso aqui no Tecnocast, quando a gente cita TikTok e Instagram: ele vai acumulando tanta função e tanta coisa que não era o seu propósito inicial e de uma forma tão rápida, não é porque tem que ser rápido para se adaptar que as coisas vão entrando meio que de qualquer jeito, então toda hora a gente fica pensando, é bug do Instagram, é um novo recurso que já chegou pra você, não chegou e às vezes nem chega, sabe, é descontinuado.

Então tem muita coisa assim esse ano.

A gente viu diversas e diversas notícias, de novos recursos entrando e depois sendo descontinuado ou, enfim, ficando ali em secundário a galera não usando muito.

Tem sido difícil, complicado.

Paulo Higa

Eu sei que a gente está falando muito de crise, né, nesse Tecnocast. de 2022, foi o ano da crise de novo, mas teve um fator aí que afetou bastante as redes sociais, principalmente a meta, que é o grande nome aí, que foi a mudança na política de privacidade da Apple.

Então agora está muito mais difícil rastrear e oferecer anúncios personalizados para os usuários, né? Então quando você abre um aplicativo ali, o usuário, ele pode pedir pro app não rastrear, então isso é muito mais fácil, né.

E para as pessoas clicarem no não e rejeitarem isso é muito fácil. Obviamente, isso afetou bastante a receita de publicidade, que esse ano já estava mais baixa, porque o cenário de incerteza, então as empresas estão investindo menos e aí esse negócio da Apple foi meio que a pá de cal, né? E no iOS quando eu tenho um recurso novo, as pessoas tendem a adotar muito mais rápido, porque a atualização também é feita mais rápido. Então, assim que lança, todo mundo atualiza e aí a queda é bem grande.

Mobilon

O próprio Mark Zuckerberg falou, quando ele falou desses resultados da empresa negativos, ele citou que essa nova política da Apple impactou bastante o resultado do Facebook, porque rastreando os usuários, essa técnica que é utilizada para exibir anúncios mais personalizados, você consegue melhorar a performance dos anúncios, né? Se eu te mostro uma coisa que você está mais interessado, você tende a clicar, você tem de interagir com aquele anúncio muito mais do que mostrar uma coisa aleatória, não é que seria por causa da de não rastrear? Eu não conheço o usuário, eu tenho que mostrar o que eu acho é que pode gerar alguma interação, então isso afeta bastante o modelo de negócios do Facebook.

Ana Marques

Especialmente porque o Facebook, ele já estava com uma imagem manchada, não é?  A Meta, no caso, já estava com uma imagem manchada em relação à privacidade por causa de todos aqueles escândalos que sofreu.

Então se a empresa já estava com problemas nesse sentido e aí a Apple começa a perguntar, e aí, você vai compartilhar seus dados com essa empresa? Então é bem complicado, então eu realmente, eu compreendo o medo do Mark Zuckerberg nesse momento e a frustração e até toda todo o rebuliço que rolou, na época, que ainda foi em 2021, isso na época que a Apple anunciou que isso ia acontecer, então ele estava com medo e com razão, e realmente teve um impacto grande.

Mobilon

Agora teve uma outra rede social ali que, meio underground, que chamou bastante atenção durante o ano, mas não porque estava todo mundo de fato usando, né?

Mas porque tinha algumas pessoas usando e era um pouquinho diferente, e aí eu queria saber se vocês usaram que foi o BeReal. Ele foi considerado até o aplicativo do ano pro iPhone. Vocês testaram?

Paulo Higa

Não.

Ana Marques

Não, não usei o BeReal, mas eu usei a cópia dele do TikTok, que é o TikTok Now. E é a mesma essência, né? Você tem que, eles te dão um alerta ali em um momento do dia, e você tem que tirar uma foto do que você está fazendo no momento. Então, é “be real” mesmo, tipo seja real e o TikTok Now, tipo, agora, o que está fazendo agora? Então você abre tua câmera, o que que tem na sua frente, né? Ou como você está vestido naquele momento ou que você está fazendo, então usei do TikTok. É… nem sempre tenho coragem não de postar. [risos]

Mas às vezes eu posto. BeReal, eu não cheguei a fazer conta, nem cheguei a entrar porque realmente é, tem que ter coragem.

Mobilon

Era pra convidados só, né?

Ana Marques

Então, é, eu acho que já tenha aberto, porque já tem tanto tempo… Agora, eu não me lembro, tem que checar.

Mobilon

Eu não tenho, não usei, não participei, não tenho mais idade para abrir uma conta de rede social por ano. O velho falando aqui, né?

Mas eu tenho amigos que que usam, inclusive já participei de um, de um post ali que a gente estava num bar. Minha amiga sacou o celular, plau, tirou uma foto, falei que ***** é essa?

E ela “é uma rede nova que o pessoal está usando”. Óbvio que eu saí tudo torto na foto, porque eu só “hã, o que está acontecendo”, mas é isso, esse é o BeReal. Vamos passar vergonha, todo mundo junto. Chega de fotos editadas.

Problemas na Netflix e HBO Max

Dando sequência aqui na pauta, a gente tem que falar também do cenário de streaming, que em 2022 foi marcado por algumas mudanças grandes. A Netflix está tendo alguns problemas ali, né? Mas a gente não achava que ela iria perder a liderança, pelo menos tão cedo, para outro serviço. Mas foi exatamente isso que aconteceu esse ano. Em agosto, a Disney conseguiu esse feito, ultrapassando a Netflix em número de usuários. Só que vale notar que não foi o Disney+ sozinho, ele contou com a ajuda ali de todos os serviços da empresa foi Disney+ junto com o Hulu e junto com ESPN+.

Mas Josué está aqui para falar com a gente sobre esse assunto. Ainda assim é algo marcante, né? Netflix, perdendo a liderança em assinantes.

Josué

Pois é, né, cara? A Netflix sempre teve esse primeiro lugar. A Netflix sempre foi sinônimo de streaming, né? Uma pioneira, só que vale lembrar que à medida que os competidores iam se acumulando e empresas maiores e mais consolidadas iam entrando nesse mercado, se tornava mais difícil para ela manter essa dianteira por muito tempo, né?

Então, o que a gente tem agora é a Disney ocupando esse primeiro lugar, né? Contando com todo o seu império. de streaming, inclusive um streaming de esportes no meio, né? Então, quando isso aconteceu, foi lá em agosto, né? A diferença era bem pouca.

A Disney, contando tudo, tinha 221 milhões, Netflix tinha 220, então não é uma diferença muito grande, mas ainda assim quebra aquele mito de que a Netflix não teria como ser ultrapassada, né?

Tipo a Netflix recebe muitas críticas por muita coisa, mas sempre teve melhor aplicativo, tem um bom algoritmo de recomendação. Enfim, tinha muitas características ali que a colocavam na frente.

Então isso acontecer realmente mostra que é uma disputa de gente grande e que nada é garantido por muito tempo.

Paulo Higa

É, e a gente está falando de 3 serviços contra um, não é? Parece, “ah, então assim fica fácil etc.”, né? Mas é uma coisa a se lembrar é que faz dois trimestres que a Netflix está tendo queda de assinantes, né? Uma queda relevante ali, para uma empresa que sempre cresceu muito ali, né? “Ah quantos acidentes a Netflix ganhou nesse trimestre?”

Agora a gente está noticiando quantos ela perdeu, né? E nesse último que passou, a gente noticiou como “olha boa notícia Netflix perdeu 1 milhão de assinantes”, porque a previsão, a estimativa, a expectativa era de que perdesse mais ainda.

E uma coisa se lembrar também, é que a Disney não é os 3 serviços ali, Disney+, Hulu e ESPN+ estão crescendo ainda, então essa diferença aí 221, 220 mil milhões deve aumentar.

Se a gente for pensar em serviço individual também nos Estados Unidos, a Netflix perdeu a primeira posição, o líder agora é o Amazon Prime Video, e aí você pode dizer também que “ah pô, né”.

Mobilon

Dá pra considerar isso aí como um streaming? Sei lá né.

Paulo Higa

Então, nos Estados Unidos, a Amazon obviamente muito forte em varejo online, né? É a referência e tal. As pessoas compram na Amazon, então elas assinam o Amazon Prime de quebra, ali tem o Prime Video.

Mas o Andy Jassy, que é o CEO hoje da Amazon, ele disse que o Prime Video vem sendo um diferencial para assinar o Prime, então eles já consideram que uma parte ali dos usuários vê o Prime Video não só como, tipo essa coisa que vem de graça, manja? Esse negócio que a gente falou no Tecnocast passado sobre YouTube Music, que vem de graça ali no Premium, mas ninguém usa.

O Prime Video o pessoal está vendo alguma coisa e a Amazon tem investido bastante em marketing, né? Tem as séries dela, né? Tem The Boys, The Rings of Power. Eu estava assistindo The Grand Tour, mas aí os cara, o trio ali ficou velho, né. E aí eles não estão mais gravando programas tão frequentemente. Mas tem os especiais ali que são legais também, e tenho visto muita propaganda especificamente do Prime Video em pontos de ônibus, relógio de rua e tal, geralmente destacando alguma série. The Boys eu vi bastante propaganda.

Mobilon

Aqui, quando ele fala que é um diferencial para mim, sou meio que como um adereço, sabe?

Aquela coisa é um adicional, né? Eu não sei se faz tanto sentido numa competição por qual serviço de streaming tem mais assinantes, porque as pessoas estão assinando o Prime por outros motivos, talvez ou por causa de todos os benefícios que você pode ou não ter assinado esse pacote, principalmente nos Estados Unidos, que é onde faz mais sentido mesmo ter assinatura do Prime por causa da Amazon, para comprar coisas na Amazon.

Então não é igual tipo “ah eu vou assinar a Netflix porque eu quero assistir Netflix”, eu vou assinar Prime porque a é se eu quiser ouvir música ali tem umas coisinhas, se eu quiser comprar na Amazon, um frete grátis aquela coisa que a gente já falou, inclusive em outro Tecnocast. OK, do ponto de vista de negócios, tanto faz na verdade.

Só estou dizendo aqui na, na mera comparação ali do ranking, qual o serviço de streaming tem mais assinantes, Prime Video é meio cheat estar nesse ranking.

Josué

Cheat é uma boa maneira de dizer, mas ao mesmo tempo, cara, os movimentos que eles vem fazendo adquirindo IPs, esse investimento de marketing que o Higa citou, não parece ser só uma coisa do Prime, parece ser uma coisa voltada pro Prime Video, então eu acho que sim, apesar do Prime Video, está inserido nesse bundle, que chama atenção por si só, porque envolve muita coisa e muitas vantagens, ainda assim, eles têm a esperança de que a parte de vídeo, a parte de streaming seja um produto por si só, digamos assim, ou então que seja a parte de vídeo que chama as pessoas para o produto geral, pro bundle.

Eu acho que eles começaram realmente a mostrar isso quando eles compraram os direitos do Senhor dos Anéis, sabe?

Tipo uma das maiores franquias de todos os tempos, a Warner já fez os filmes do Senhor dos Anéis adaptações antigas, fez os filmes do Hobbit, que não são lá muito bons, mas ok né, é a Warner sabe, é um estúdio conhecido já, super consagrado, onde cineastas trabalham, pessoas respeitadas na indústria.

E agora, quem é que está fazendo a série, que é uma das mais caras de todos os tempos? A Amazon, a empresa de varejo, sabe?

Mobilon

e-commerce

Josué

É muito doido isso, então eu acho que eles estão tentando dar uma turbinada ali na parte de vídeo, na parte de streaming. E continuamos pegando outras IP, esses dias saiu a notícia de que o Henry Cavill e fazer uma, vai fazer uma série ou um universo cinematográfico de Warhammer, que vai sair pelo Prime, sabe?

Outra é uma parada que envolve os jogos e tal, então, tipo, o Henry Cavill que é um cara conhecido e tal está fazendo The Witcher até outro dia vai ser a cara de Warhammer no Prime na Amazon, sabe? Então, tipo, acho que eles estão cada vez mais investindo nisso e tentando crescer como um streaming, como um produto de streaming, né?

E enfim, de toda forma, seja lá como a gente chame o Prime nesse sentido, seja cheat ou não, ainda assim, o Netflix está tomando aí alguns atrasos.

Paulo Higa

A gente percebeu mais essa crise da Netflix porque esse ano começaram a aparecer umas coisas da Netflix que a gente não estava acostumado.

Por que a Netflix sempre foi aquela coisa meio ah eles podem subir o preço e o pessoal aplaude, né? Então era, era um era, uma marca assim, muito protagonista nesse meio, né? E esse ano eles começaram a fazer umas coisas diferentes, umas coisas estranhas pra tentar aumentar a receita.

Então a questão do compartilhamento de senhas é um problema que a Netflix, sabe que existe há muito tempo. Eles estão com dificuldade de tentar monetizar a partir disso, mas fizeram testes, chegaram a fazer testes aqui na América Latina, então para criar subcontas é para terceiros, tipo pessoas que não moram na sua casa e que, portanto, não poderiam usar a sua conta, mas que a gente sabe que é uma realidade, as pessoas compartilham senhas. Esse tipo de prática passou a ter uma taxa, o equivalente a 16 reais. Foi um teste a valores variados. Ali mais a Netflix é chegou a testar e não sei até que ponto eles conseguem avançar com isso.

Josué

Mas eles pretendem fazer isso de maneira mais ampla no ano que vem. Parece que em 2023 esses testes que eles iniciaram na América Latina vão se estender para outros países e meio que não tem mais volta agora a Netflix vai cobrar você, safado, sem vergonha, que compartilha a sua senha com a sua mãe que não mora mais na sua casa. É cara? Isso é muito louco porque nunca foi um problema. Na verdade, a Netflix chegou a fazer piada com isso. Tem um tuíte antigo deles, que é mó engraçado, eles falam assim, “amar é compartilhar uma senha”, sabe? Tipo, é uma coisa que eles brincavam, eles ajudaram a criar essa cultura de compartilhamento de senha, porque nunca foi algo que eles se manifestaram contra, nunca foi um problema, e acho que para nenhuma outra empresa que faz streaming tentaram de alguma maneira forçar as pessoas a não fazerem isso ou inserir alguma taxa ali e tal.

Paulo Higa

Eu lembro do Spotify. O Spotify Family, ele gerava alguns bloqueios às vezes, se você tivesse pessoas com endereços, tipo muito diferentes atrelados a mesma conta de Spotify.

Ele, eles realmente se importavam com isso. Netflix sempre fez vista grossa, né? Esse ano que começou a ter essas coisas estranhas.

Mobilon

É, e além do negócio da senha, também tem negócio de plano com anúncios, que é outra coisa que a Netflix começou a fazer, né, pra tentar aumentar a receita ali ou oferecer uma assinatura mais barata, conseguir ter mais assinantes. É de novo, é uma coisa que as vezes não é tão bem recebida pelos usuários porque é um plano mais limitado. A gente até testou no Tecnoblog, né, acho que o José consegue contar melhor aí, mas você tem acesso a menos coisas e você tem que ver algumas propagandas similar à se você estivesse navegando no YouTube, por exemplo.

É uma coisa que a gente já tinha visto acontecer, por exemplo, no Amazon Prime, só que aí é um plano só e eles exibem algum trailer, alguma coisa antes da série começar, do filme começar. A Apple também tem feito isso bastante, só que a Apple também é só propaganda interna de outras séries e outros filmes. De qualquer forma…

Josué

E você pode pular, né?

Mobilon

Na Apple você pode pular. Não é agradável de ver. A hora que você quer dar play, já está acostumado a entrar direto e ainda mais porque a gente está pagando uma assinatura, então tem essa impressão que não tem porque ver anúncios, mas é Netflix tentando arrumar caminhos também, né Josué?

Josué

Josué é, pois é assim, vale lembrar, voltando um pouquinho no primeiro bloco, o pessoal conversou sobre crise. E Netflix está entre essas coisas que demitiram gente, demitiram muita gente na verdade. Então, se a gente olha para a aquisição de usuários da Netflix, se deram muito bem ao longo da pandemia e agora, os tempos mudaram, né? Crise econômica, recessão, todo esse papo que a gente já teve no primeiro bloco, então as coisas mudaram, então é por isso que, cara, agora, o que antes eles diziam que não queriam fazer, como por exemplo chiar com compartilhamento de senha, agora não dá mais pra fazer isso. E o lance dos anúncios já tinham falado, eu tenho uma entrevista do Reed Hastings em 2019 que ele fala, “não, a gente não tem porque fazer isso. Não precisa, não está nos nossos planos” e opa, de repente está nos planos.

Paulo Higa

Inclusive, sempre Netflix teve esse negócio meio premium, não é não? Anúncio é coisa de serviço barato, né? Tipo, a gente reclamava muito de Globoplay, né, que a assinatura é um pouco mais barato e tal, mas tem propaganda mesmo se você assinar. Nos Estados Unidos, acho que o maior símbolo era o Hulu, né, que tinha anúncios, que tem um plano com anúncios, tem um plano sem anúncios, mas a Netflix não. Netflix pô, não, aqui é serviço de qualidade e tal, né? E aí, de repente, lança um plano básico com anúncios, o nome que eles chamaram ali.

A gente testou, a Paulinha testou, e assim, além de ter os anúncios ali, a cada mais ou menos 10 minutos e são anúncios tipo de 60 até 75 segundos, ou seja, é meio incômodo, né, eu diria. Principalmente, porque a Netflix deixou a gente mal-acostumado com essa experiência de maratonar e ser uma coisa realmente que você consegue assistir durante várias horas seguidas ali, sem interrupção e de repente você está assistindo uma série de suspense, aparece uma propaganda do McDonalds, sabe?  É meio estranho assim. Meio complicado.

Josué

O clima vai embora, né cara?

Paulo Higa

E fora que se fosse só isso até que ah, beleza, para economizar alguns reais por mês, não é, de repente, pode ser, mas também o acervo é limitado.

Tem alguma séries que não tem, por questões de licenciamento, então, sei lá, não tem House of Cards, sabe, sei lá, maior símbolo da Netflix ali, né? Que quando a gente percebeu que Netflix estava investindo para caramba em conteúdo original e tal, House of Cards não tem nesse plano básico com anúncios, várias outras séries famosas que não são Netflix tendem a não estar também nesse plano básico com anúncios.

Josué

Tá lá no site o nosso Testamos do Básico com Anúncios. A Paulinha até deixa isso claro, os conteúdos que não estão disponíveis, eles não aparecem na sua tela inicial, né? Então, tipo, o que não está incluído na sua assinatura você não vê, mas se você pesquisar, aí aparece com um cadeadozinho, com o ícone de um cadeado ao lado, dizendo, ó aqui, você não pode assistir, a não ser que você pague!

Enfim, o conteúdo trancado, ele aparece caso você procure por ele com esse lembrete de que existe um mundo melhor, basta você pagar mais.

[risos]

E é curioso isso, cara, uma coisa que estava pensando. Bom, a assinatura do Netflix é meio cara em comparação a outros streamings.

Então me parece possível que pessoas que já assinam muita coisa e que já talvez não assistam mais tanta Netflix façam a opção de ah eu posso assinar agora esse plano básico com anúncios, que é um pouco mais barato, beleza? Vou ver anúncios, mas eu vou ter alguma programação ali na Netflix? Então eu fico pensando se isso não pode ser meio tiro no pé para eles, sabe? Tipo, agora as pessoas sabem, já talvez não estejam vendo tanto valor e mudem de plano para um mais barato, sabe?

Então talvez eles possam perder dinheiro nessa. Uma coisa que me passou pela cabeça, sabe? Então tudo bem, pode ter gente que passe a assinar o Netflix por causa desse plano, que é mais barato. Então um plano de entrada legal ali. Mas talvez assinantes já antigos optem por mudar por um plano que essencialmente vai fazer com que a Netflix ganhe menos, então, sei lá.

Mobilon

Eu acho que quem trocaria o outro plano por esse plano, seria só sei lá, vamos supor, essa galera que, tem até um termo para isso que quando você assina e depois cancela, assina um mês, cancela um mês.

Josué

Paulo Higa.

Paulo Higa e Felipe.

Paulo Higa

Assinante boomerang, né.

Mobilon

Isso, o Felipe, ele. Ele foi o cara que me surpreendeu, né, quando ele falou que ele fazia isso e gerenciava numa planilha, várias. Meu Deus, cara, que paciência né.

Mas é, eu acho que para essa galera às vezes pode ser vantajoso, tipo, eu não estou usando tanto, mas eu quero deixar lá seu, quero ver alguma coisa aí você baixa o plano para esse plano de anúncios, e aí teria que ser essa galera, né?

E aí por isso que eles fazem isso de não deixar no catálogo coisas que são muito interessantes, que são muito famosas e tal que a galera que paga pelo plano mais caro vai ter que continuar pagando pelo plano mais caro se for um heavy user do sistema, né? Então no final, acho que pode ser uma boa estratégia assim, porque é uma grana que ela já não veria, sabe, é uma grana que seria de pessoas que estão des-assinando por um tempo. Talvez elas nem voltem depois, então tem a questão do churn também tem um custo muito alto, não é? Ela manteria a pessoa assinada nesse plano por anúncios para depois, quem sabe, em um momento a pessoa fazer o upgrade para ver uma série nova uma grande produção, uma coisa nova que saiu ali.

Josué

Agora, um outro tópico a respeito da Netflix, que também surgiu ao longo desse ano, nós falamos aqui no Tecnocast foi essa insistência Netflix no modelo de binge watching.

A gente tem visto, Prime, HBO, a Apple, não vão tanto nessa direção, preferem liberar episódio semanalmente, ou então é, tem uma coisa meio híbrida lá, tipo algumas séries libera completo e algumas outras, vai liberando semanalmente.

E a gente até, apontou aqui, né, usando o exemplo do Sandman, da série Sandman, na Netflix, eles demoraram uma vida para renovar para a segunda temporada, mesmo depois de ficar em primeiro lugar em um monte de países, acumular milhões e milhões e milhões de horas assistidas.

Então, isso foi um outro, um outro ponto que causou certa polêmica em relação ao Netflix ao longo desse ano. E parece que eles não têm intenção de mudar esse modelo, não é.

Eles até pensaram alguma coisa ali mais pro início do ano, quando estavam perdendo assinantes, tiveram uma pequena melhora ali na performance ao longo do ano. E depois essa conversa sumiu assim.

O binge continua sendo a maneira básica de assistir na Netflix. Eles vão continuar investindo nisso, apesar dos possíveis problemas que isso traz naquele lance de da série perder relevância muito rápido, uma série que aparece e desaparece e ninguém nunca ouviu falar. A Netflix vai continuar com essa, com essa toada.

E ontem, a gente está gravando no dia 22 de dezembro a ontem à noite, quando essa pauta já estava quase pronta, surgiu aí um rumor, Paulo Higa, de que a Netflix poderia ser comprada. Quem é que poderia comprar a Netflix? Que negócio é esse?

Paulo Higa

A Microsoft, cara!

Josué

Tan tan tan! [tipo o esquilo dramático]

Paulo Higa

Teve uma jornalista da Reuters que estava apurando, que cobre Microsoft e tal.

E levando em conta o histórico recente da Microsoft, não é? Comprou Activision Blizzard e tal. Eles devem continuar comprando empresas em 2023, e uma das empresas que poderia estar nessa lista de compras aí seria a Netflix. E é um momento interessante, né, porque a Netflix está sofrendo um pouquinho, caiu ali o valor de mercado, então, se for comprar, talvez seja um momento oportuno para a Microsoft.

E a Microsoft é uma empresa também que nesse negócio de internet, talvez ela seja que tá mais pra trás, né? É uma empresa que acabou meio que se distanciando. Não conseguiu que o Google conseguiu.

Até a Apple tendo receita com serviços ali de streaming tanto de música quanto de vídeo, então a Microsoft ficou meio para trás, então pode ser um complemento interessante para a Microsoft.

Não sei se vai ser bom para os usuários, mas é curioso assim saber que a Netflix pode não ser mais uma empresa independente.

Josué

Isso vem depois que a Microsoft começou a ter problemas pra tentar comprar a Blizzard, né? Lá fora isso ainda está rolando, mas o órgão antritruste americano não está gostando muito dessa história da Microsoft comprar a Blizzard. E a gente estava comentando antes da gravação, né?

A Microsoft não tem nenhum outro streaming, não tem nenhuma outra empresa que ela tenha comprado que seja desse ramo, então ela de repente comprar a maior de todas, ok, meio bizarro, mas não existe um argumento antitruste aí porque ela não teria mais nenhum, nenhuma outra empresa que ela teria comprado, aí.

Então seria uma jogada bem inesperada, mas bem curiosa, né, cara, Satya Natella, chegar lá e “beleza, não pude comprar Activision, vou comprar o Netflix, dane-se”.

Mobilon

De entretenimento a Microsoft tem só divisão de games ali com Game Pass e tal, então me faz pensar também se haveriam planos integrados ali para quem usa o Xbox e quer ter o Netflix no Xbox também com Game Pass, talvez faria algum sentido.

Josué

Total, total.

Paulo Higa

E me faz que lembrar o lançamento do Xbox One, que tinha mais a palavra TV do que games na apresentação. Virou até piada a TV, TV, play TV, tipo p***a mas eu quero um videogame, caramba, por que que tem tanta coisa sobre TV, sobre vídeo e tal?

E faz sentido, hoje, né, oferecer um bundle ali de um Xbox Game Pass Ultimate Plus.

Josué

Blaster

Paulo Higa

Aqueles nomes estranho das Microsoft, né.

Josué

O nome seria certamente fantástico. Eu quero que eles comprem só para ver qual vai ser o nome que eles vão colocar na Netflix, porque tem que mudar o nome, por favor.

Mobilon

Mas é curioso, não é? A gente está falando de crise da Netflix, esse monte de- nossa, parece que Netflix está afundando e né, está acabando.

E aí até fui levantar aqui dados financeiros das empresas, dos players aí.

A Netflix é a empresa que está mais saudável por enquanto, de caixa, né? Há uns bons anos aí, sei lá desde 2003, é uma empresa que dá lucro.

Desde 2016 ela explodiu ali. De 2016 até 2021, ela saiu de 184 milhões de lucro anual para 5,12 bilhões de dólares, tá, gente? Então é uma empresa muito saudável.

Em 2022 o lucro já começa a ter uma queda. Aqui, puxando os últimos 12 meses, que não tem ainda o ano fiscal completo, 2022, ela está com 5,04 bilhões de lucro. Pequena queda, não dá nem 8 bilhões aqui de queda, por enquanto, puxando os últimos 12 meses.

Mas ainda é uma empresa massiva, uma empresa com um resultado muito bom. A dívida também é uma coisa muito controlada, uma empresa que só tem 7 bilhões de dívida liquida, e é considerado um número muito baixo, principalmente por conta do resultado financeiro dela, né?

Agora, quando a gente vai para outras empresas do ramo, por exemplo, Disney, que acabou de passar, somando os streamings ali tomou a posição de empresa com mais assinantes.

É uma empresa que assim, tem muito mais carga, não é? Se a gente imaginar uma van, a Disney é uma van completamente abarrotada de coisa dentro, Netflix é muito, é uma empresa muito mais leve, porque Disney tem estúdios, parques de diversão, então isso tudo naturalmente, gera muito custo e vem com muita dívida embutida. Ainda assim, a Disney bateu o seu pico de lucro em 2018 com 12.6 bi de lucro líquido. Em 2020 teve uma pancada ali por conta da pandemia, que obrigou a fechar os parques e tudo mais, então ficou no negativo, 2.86 bi de prejuízo. Bizarro, né, de dólares? Em 2021, ela já consegue uma recuperação para 2 bi de lucro e 2022 até o momento, né, os 12 meses, 3.15 bi de lucro.

Então, quer dizer, ainda agora, a Disney é uma empresa que está gerando menos lucro do que Netflix. Claro que não é só isso que a gente analisa, mas existe uma visão mais positiva porque uma empresa mais sólida. Ela tem mais equity que Netflix, que é uma empresa, não tem muita coisa. Netflix se perdeu os assinantes, acabou. A Disney tem um portfólio muito mais diversificado.

Agora, quando a gente vai para Warner que acha que o Josué vai até contar um pouquinho do rolo todo aí com a fusão a Warner é mais complicado, não é? 2021 com lucro líquido de 1 bilhão. É uma empresa que não tem tanta consistência já historicamente, né? Ali, em 2017, estava dando prejuízo. 337 milhões negativo e agora nos últimos 12 meses, já vai para paulada ali de menos 5,23 bi de prejuízo por conta aí da fusão com a Discovery. Muito pano pra Manga ainda aí, né Josué?

Josué

É, então essa história da Warner com a Discovery acaba entrando aqui no nosso bloco de streaming, porque vai acabar impactando bastante a HBO Max, né, que é outro player importante porque, cara é uma marca muito conhecida. This is not TV, it’s HBO, então séries dramáticas, séries que ganham muitos prêmios estão lá.

E agora a HBO pega nesse furacão aí que é a nova administração da Warner, né?

Então vamos só relembrar um pouco. A WarnerMedia fazia parte de um grupo da AT&T que é a empresa de telecomunicações nos Estados Unidos. Eles eram donos da Warner, e aí, esse ano, na verdade, desde o ano passado já sinalizavam isso, que eles iam sair da parte de entretenimento, então houve meio que uma venda/fusão da WarnerMedia com a Discovery, então virou Warner Bros, Discovery. Então essa é a empresa no momento, é um grande conglomerado, um dos maiores que tem no mundo e aí tem marcas como CNN, TNT, Animal Planet, Cartoon Network e a HBO.

Quem ficou de CEO dessa nova empresa que surgiu é o David Zaslav, que veio da Discovery. Então o cara que vem com a mentalidade muito ligada ali a produtos mais baratos, que trazem um retorno mais rápido. Então, muito reality show, muitas séries mais baratas, algo diferente do que a Warner costuma fazer, sobretudo na HBO, que é conhecida por fazer séries, por vezes dão prejuízo, mas que eles continuam fazendo, continuam renovando, porque a série tem uma relevância cultural muito grande, né? Então, tem uma mudança de cultura aí que está gerando uma crise de identidade na HBO Max. Por quê? Como parte dessa fusão, Warner ganha certos incentivos fiscais se eles pararem certos projetos. Então quem acompanha o noticiário de cultura pop vai lembrar que alguns meses atrás, o filme solo da Batgirl que sairia só para o HBO Max, foi cancelado.

E o filme estava filmado, assim, tipo, haveria ali uma pós-produção, talvez houvesse em cenas adicionais filmadas e tal, mas o grosso estava feito, e aí o filme foi cancelado, tipo, não vamos lançar esse filme. E a gente, pensa, pô, mas não faz muito sentido isso, o filme já está quase pronto, por que não lançar? E acontece que se eles frearem certos projetos em andamento, eles conseguem alguns incentivos fiscais que essa nova administração precisa. Porque o Mobilon falou de dívida ali. A dívida somava agora da Warner Bros. Discovery é na casa dos 50 bilhões de dólares, porque veio trazendo dívida da Discovery também.

Então tudo que eles puderem economizar, eles vão economizar, então cancelaram o filme da Batgirl, cancelaram séries como Westworld, outras menos conhecidas, como The Nevers e Minx.

E algumas delas, inclusive vários desenhos, que eram no Cartoon, foram retirados da HBO. Tipo, eram coisas originais da empresa, que não estão mais no streaming da empresa, porque à medida que você tira essas produções de lá, você não precisa mais pagar os custos que elas acabam tendo ao longo do tempo que você paga roteirista, produtor, essas coisas todas.

Então você economiza também, aí? Então o HBO Max está passando por esse período meio turbulento e a coisa deve ficar cada vez mais estranha, porque no ano que vem a HBO Max vai se fundir com o streaming da Discovery, então vai virar um frankenstein de conteúdo tipo Sopranos, The Wire com Discovery Home&Health, sabe? [risos] Que é um negócio que não faz muito sentido, né? São tipos de produção que não conversam muito bem.

E então é, é isso que está acontecendo com o HBO agora. É um player muito forte, mas está tomado aí por esses problemas envolvendo alto escalão e muitas dívidas para resolver.

Paulo Higa

Esse negócio de tirar produções do ar é muito interessante porque quando a gente pensa em ah é um serviço digital, então há não tem problema com estoque, né, tipo ocupar espaço. Mas nesse caso tem. Por que numa empresa física é muito óbvio, né? Tipo, se você produz muito ali e acaba deixando muitos produtos no estoque antes de vender, você tem que pagar pelo espaço. Então não é muito bom você ter estoque, muito estoque, parado e tal.

Agora no serviço de streaming, eu nunca pensei que poxa, é verdade, não é? É melhor tirar algumas séries para não continuar gastando com aquelas séries, mesmo que elas já tenham sido produzidas.

Tipo o fato de uma empresa ter publicado uma produção ali não é o fim, porque tem esse pagamento de longo prazo, depois, com base em audiência e tudo mais, né?

Josué

E aí a gente pensa, streaming era o lugar para onde as séries iam para se salvar, lembra aquela época que as séries iam ser canceladas e algum streaming ia lá e salvava a série, saca?

Então, tipo, quando uma coisa dessas acontece na HBO eu acho que é isso que é o mais louco desse contexto todo. Talvez eles possam, sei lá, negociar essa série com outro, com outra plataforma, colocar ela numa plataforma tipo FreeVee ou Tubi que tem lá fora que são streamings gratuitos, que rodam com anúncios, OK. Aí eles conseguem até fazer algum dinheiro em cima disso. Mas enquanto isso não acontece, ou se isso não acontecer, essas séries simplesmente deixam de estar disponíveis no streaming para o qual elas foram concebidas, saca?

Então é muito louco. É uma situação sem precedentes. O cancelamento no filme da Batgirl já foi algo que pegou muito mal, assim, é uma situação inédita em Hollywood, até tipo produtores falando, cara, nunca vi disso. Um filme sendo cancelado assim por motivos de incentivo fiscal, saca? Então, é uma situação muito complicada, a situação da Warner agora.

E pra HBO Max isso representa uma dificuldade de definir qual vai ser a identidade dela. Eu acho que é principalmente isso que a gente vai ver ano que vem quando essa fusão acontecer. Vai ser um streaming que vai ser radicalmente diferente da HBO que a gente tem agora e vai impactar diretamente na identidade que essa HBO que a gente conhece desde sempre cultiva para si. Então eu estou bem curioso para ver como que eles vão tentar posicionar esse novo streaming que vai aparecer aí.

5G e redes neutras viram realidade no Brasil

Mobilon

Bom dando sequência aqui, agora a gente conversa um pouco sobre telecom. E a gente vai ter que abrir esse bloco falando de um assunto que não, a gente não aguenta mais falar, né? Mas nem de 2022 ele é de 2021. Mas Lucas Braga está aqui para conversar com a gente sobre o 5G, Lucas. Já é uma realidade. Finalmente a gente vai conseguir parar de lançamento de 5G no Brasil?

Lucas Braga

Nossa, não! Em 2023 a gente vai escutar muito sobre 5G ainda. Eu já não aguento mais falar sobre 5G, eu estou um pouco traumatizado, mas enfim, é o que tem pra hoje, né? E finalmente, as primeiras antenas foram ativadas no mês de julho, em Brasília. Claro, Tim, Vivo lançaram o sinal na frequência de 3.5 GHz. É claro que a gente já tinha o DSS, né, que era com compartilhamento de frequência, mas enfim, não era um 5G puro, com frequência dedicada. Então hoje a gente já tem 5G em todas as capitais brasileiras. A Anatel semana passada, liberou em mais alguns municípios com mais de 500 mil habitantes ou próximos a municípios importantes também, com maior concentração de pessoas, mas a cobertura ainda é muito incipiente, né? Nas cidades são poucos bairros cobertos, apenas uma operadora, que é a Tim que é tem investido mais em cobrir mais bairros, então, em São Paulo, no Rio, em Recife se eu não me engano, ela já tem cobertura em todos os bairros, enquanto as outras operadoras ainda se concentram com sinal apenas nos grandes centros.

Mobilon

E o que que aconteceu, assim, por que que a gente está tendo que tantas vezes trazer esse assunto de 5G é por que que tem tanto atraso na implementação?

Lucas Braga

Bom, a gente teve o primeiro atraso de todos porquê de acordo com o edital da Anatel, todas as capitais tinham que ter sinal 5G ativado até julho de 2022, de 31 de julho.

Na prática, a primeira ativação foi em julho, né? Isso aconteceu por conta da crise de chips, de produção na China. Teve mais um, lockdown aqui atrapalhou a produção de equipamentos para a mitigação do sinal de TV aberta via satélite. Por quê? Porque a TV aberta via satélite, atualmente ela ocupa a mesma frequência do 5G, os 3.5 GHz, então causa essa interferência, então tem todo um cronograma de migração dos usuários, que é seguido pela EAF, que tem uma entidade que coordena todos esses processos, faz a distribuição de kits de antenas para famílias de baixa renda inscritas no CadÚnico. Então toda essa conversão dos usuários de TV aberta que antes estavam na banda C, eles precisam ir para a banda Ku isso atrasou bastante, não é? As operadoras também tiveram dificuldade para receber seus equipamentos, transmissores pra instalar nas cidades. Então esse atraso não foi simplesmente uma culpa das operadoras que não quiseram instalar, realmente faltou equipamento.

Mobilon

E além da parte da rede, tem também a questão dos modelos de celular que circulam aqui no Brasil. Para você usar o 5G, você tem que fazer o upgrade e tem que ter um aparelho que suporte também a banda aqui que é utilizada no Brasil. E nessa parte, como é que está a adoção?

Lucas Braga

Bom, por enquanto também é bem incipiente. Os dados mais recentes da Anatel são de outubro agora de 2022 e a agência se contabilizou apenas 1.7% de todos os aparelhos compatíveis aí com a quinta geração, né? É no mercado hoje em dia a gente já vê vários modelos com 5G, só que a adoção que realmente importa é o público, ter o aparelho compatível. Higa, conta pra gente como que foram os lançamentos deste ano, que que você acompanhou aí, em relação a modelos com 5G, isso já é uma, já é um padrão de mercado, ainda tem modelo que falta, já tem isso nos celulares de entrada?

Paulo Higa

Eu senti que os lançamentos de celulares 5G estão seguindo mais ou menos o que aconteceu com 4G. Para quem comprava celulares topo de linha, não é os iPhone, Galaxy S da vida já tinha 5G, não é? Desde o iPhone 12 tem 5G, Galaxy S também já era normal ter 5G, né? Então quem comprou celular nos últimos 2 anos, premium, só a operadora ativar, beleza, vai funcionar etc.

Agora, esse ano a gente já viu muitos aparelhos mais básicos chegando com 5G, né? Tanto é que ano passado a gente já tinha naquela faixa lá de intermediário premium, né? De 2 mil reais, 1600 reais começando a ter 5G.

E agora você tem, sei lá, um Galaxy A13 tem versão 5G. Então imagino que em 2023 deva se algo bem comum, não é? A gente ainda está naquela fase em que, quando a gente cita um aparelho, por exemplo, Galaxy S20 FE, a gente cita o Galaxy S20 FE 5G, blá, blá, blá, né? Porque ainda existe uma versão 4G, porque existem muitos aparelhos 4G, mas 2023 não, não acho que vai ter tanta divisão assim, vai ser meio que o padrão, né?

Lucas Braga

Eu espero que para 2023 as operadoras melhorem muito a questão de cobertura. Porque hoje elas estão concentradas principalmente nos bairros com maior concentração de pessoas ou com maior concentração de poder aquisitivo. Se você afasta ali do das regiões centrais das cidades, principalmente fora aí de São Paulo, do Rio. Fica difícil de achar sinal 5G, você continua utilizando o 4G.

De acordo com o cronograma da Anatel, as operadoras são obrigadas a manter pelo menos uma antena para cada 100 mil habitantes nas capitais e a densidade vai aumentando com o passar dos anos. Mas ainda assim é muito pouco, né? Não dá pra realmente ter uma experiência satisfatória no 5G se ele atinge apenas alguns locais.

Mobilon

Agora, uma novela que teve um fim aqui em 2022 foi a questão da recuperação judicial da Oi, né? O processo se arrastava desde 2016 e foi concluído agora nesse ano. Mas aí, qual que é a nova cara da Oi? Lucas, o que que ela precisou fazer para concluir esse processo?

Lucas Braga

Nossa, a recuperação judicial da Oi, assim, eu. Eu quase nem lembro quando ela já não existia, porque ela acontece já tem 6 anos, né? Ela começou com uma dívida aí de 65,9 bilhões. Na época era a maior operação judicial do Brasil. Depois ela Foi ultrapassada aí pela Odebrecht. Mas cara, nem parece também, porque aconteceu tanta coisa na Oi, eles fizeram tantas reformulações, começando pela venda da unidade móvel, né? Eu acho que esse é o mais importante de tudo. A partir do momento em que eles fatiaram para, Claro, Tim Vivo. Eles conseguiram ali já pagar a dívida do BNDES, dar um gás ali na companhia, mas principalmente, porque a Oi, agora ela tem o foco todo em fibra óptica. Ela também é vendeu os seus cabos para uma empresa neutra que é a V.tal, ela formou a V.tal em conjunto com o fundo do banco BTG Pactual e o negócio dela agora realmente é vender internet.

Ela também vendeu a base de clientes de TV por assinatura pra Sky, vendeu um monte, de torre de datacenter.

Para a Oi realmente assim foi um sucesso dessa recuperação judicial porque é uma operadora tão grande e tão importante para o Brasil inteiro, mesmo se você não é cliente da Oi, que uma eventual falência poderia gerar um grande colapso no sistema de comunicações porque, invariavelmente, em alguma coisa que você acessa, vai passar ali na rede da Oi, né.

Mesmo se você utilizar a banda larga de outra operadora, se você for cliente de outra operadora e tá numa cidade do interior, provavelmente ela usa ali a Oi como escoamento até chegar no datacenter.

Mobilon

É legal você ter falado esse negócio da V.tal, né? Que ela fica com ela, fica com uma parte da estrutura que era da antiga Oi e a gente gravou até o Tecnocast 240 falando sobre o modelo de redes neutras que estava começando a ser implementado no Brasil, e como isso poderia beneficiar o mercado de uma forma geral, né? Por que você teria, você poderia ter mais players sem ter a necessidade de ter mais players que precisam ter infra, não é? São só players virtuais. Como que isso está evoluindo, não é? Eu queria entender, assim, dá para esperar realmente que em 2023 esse modelo deslanche?

Lucas Braga

Bom, em 2022 é ficou mais tangível para o consumidor final que que são as redes neutras, né? Ainda é muito incipiente. A gente realmente espera que em 2023 e 2024 isso avance. Mas a gente já tem operadoras que funcionam sob redes neutras. É no caso da V.tal, por exemplo a gente tem a Obvious, que é uma operadora que se diz digital, vende com preço mais barato do que Oi Fibra e utiliza a mesma rede.

Ao mesmo tempo a gente tem também a Sky de TV por assinatura via satélite. A Sky já tinha inclusive um serviço de banda larga, só que era via 4G. Ela tinha uma rede 4G em algumas cidades, só que a velocidade era muito baixa, né? E ela contratou a Fibrasil, que é uma rede que foi derivada da rede da Vivo Fibra, não em todos os locais do Vivo Fibra, somente em alguns locais. E a gente teve agora no final do ano uma grande surpresa também, que foi um acordo da TIM com a V.tal, de longo prazo para levar a banda larga TIM Live em locais onde a rede própria dela, que na verdade também é uma rede neutra, que é a I-Systems, não chega.

Então, temos pelo menos 3 operadoras grandes com redes neutras por trás que é a Vivo com a Fibrasil, a Oi com a V.tal e a TIM com a I-Systems. Então isso com certeza é um assunto que a gente vai ver muito ainda em 2023. A gente viu muita discussão nesse ano também sobre tarifação de uso de poste. Rede neutra é um grande aliado para que as operadoras economizem e não precisem pagar por ponto de fixação, então, porque todo mundo ali compartilha a mesma rede, não é?

Paulo Higa

Agora, com esse negócio de popularização de redes neutras, todo mundo vai usar a mesma internet, se cair uma cai todo mundo? Vamos ser grandes quedas no ano que vem?

Lucas Braga

É complicado, né? Eu conversei com o pessoal da TIM agora em dezembro, é conversando um pouco mais sobre esse acordo de longo prazo com a V.tal.

Eles me falaram que a princípio, toda essa estrutura de conexão à internet, o backbone, tudo que eles contratarem é V.tal, vai ser fornecido pela V.tal. Até mesmo o técnico que vai instalar é um técnico contratado pelo V.tal e não pela TIM.

Né? Eles explicaram que em locais onde estiverem maior concentração de clientes, aí eles podem entrar com um backbone próprio dentro da rede neutra, que aí você realmente vai ter uma conexão diferente de quem tem por exemplo, um Oi Fibra, só que acaba que nesse modelo inicial, a conexão do usuário da TIM Live ver se é a mesma do usuário da Oi Fibra, que vai ser a mesma do usuário da Obvious.

E aí você vai contratar o que for mais barato. Assim é difícil. Se a rede neutra cair, cai todo mundo. Por isso que é importante também ter opções e não confiar 100% em uma única rede neutra. A gente tem aí 3 grandes players no mercado, não é? Vamos ver como é que vai ser aí a expansão delas para mais cidades, aí a partir de 2023.

Chega de telemarketing!

Mobilon

Pô, mas pra gente não ficar num clima assim tão triste, de falar dos mesmos assuntos, né? Tirando aí o negócio de rede neutra é uma coisa realmente interessante. A Anatel, em 2022, implementou algumas medidas para tentar combater as chamadas de spam, né? Os conhecidos robocalls, onde o seu telefone fica tocando insanamente várias vezes por dia, você atende e não é nada, ninguém fala nada, mas é só uma tentativa de ver se a sua linha existe, está ativa, para que depois um telemarketing, te ligue para fazer alguma coisa e falar alguma coisa.

Paulo Higa

Pô, mas logo agora que eu já bloqueei chamadas de desconhecidos, não é, tipo agora, tá meio tarde, né? Eu já desisti de atender celulares, né?

Mobilon

Aqui no Brasil a gente não tem condições de usar SMS, porque é o tempo todo propaganda, sei lá de onde que tiram o nosso número.

E esses robocalls também, se você cai na lista, cara, é assim, a sua linha já era.

E eu não tenho esse problema, pra ser sincero, é bem raro. Aqui, agora também eu bloqueei quem não tá na minha lista, mas eu não tinha esse problema. Agora, no telefone da minha mãe, é o dia inteiro. Eu já coloquei o número dela naquele site da Anatel que você coloca para não receber telemarketing. Não adiantou nada, né, Lucas? Até recomendação do Lucas, né? Coloca lá que bloqueia. Não adiantou. Não sei o que aconteceu.

Lucas Braga

Não. E não adiantou para mim também não. Assim, a gente fala para colocar porque eles falam que é para a gente colocar. Mas, no final do ano passado eu publiquei um editorial pedindo pra Oi Fibra parar de me ligar porque era realmente algo…

Mobilon

Vou ter que publicar texto no Tecnoblog também pra Oi parar de me ligar, é isso?

[risos]

Lucas Braga

Foi não, mas era assim. Eram 5, teve um dia que foram 7 ligações no mesmo dia.

Paulo Higa

E aí pararam de ligar?

Lucas Braga

É, agora pararam.

Paulo Higa

Agora!? Demorou um pouquinho então…

Mobilon

Para que tá feio né…

Lucas Braga

Agora pararam.

Mas pelo menos agora também, né. Nesse ano foi muito importante também que a gente viu na prática a implementação do 0303. Então, se eu vejo ali um 0303, ali no identificador de chamada, eu nem atendo.

Isso realmente foi uma implementação muito boa, foi muito positivo.

Mobilon

É um prefixo, explica, até um pouquinho melhor para quem não viu ainda. É um prefixo que telemarketing, cobrança é obrigado a usar, né? 0303, 0304 é isso?

Lucas Braga

Não, 0304 ainda é um projeto, que está pro ano que vem.

Por enquanto é só o 0303. A Anatel obrigou que todos os serviços de telemarketing, ou seja, ligações para oferecer novos produtos e serviços precisam obrigatoriamente ter esse prefixo. Quem fizer o telemarketing indevido, e aí eu posso citar várias empresas que continuam me ligando com números convencionais e não deveriam, elas podem sofrer multa, né?

Então, o 0303 foi uma medida muito boa para usuários de telefone em 2022, mas eu acho que o que realmente mais foi importante foram as medidas de combate para esses robocalls, essas ligações automatizadas que desligam na sua cara.

Mobilon

E funciona, de fato? Porque como é que é, tem uma multa para quem cedeu o uso da rede ali, não é? E tá, tá dando efeito já?

Lucas Braga

A questão é que a Anatel identificou que tinham algumas empresas que disparavam em questão de milhões de ligações por dia, não é?

Mobilon

Nossa.

Lucas Braga

Então, assim, era uma galera que basicamente ocupava metade do tráfego da rede de telefonia do Brasil inteiro. Então, o que que a Anatel fez? Ela baixou uma medida cautelar, pediu para que as operadoras, todas as operadoras de telefonia, identificassem todas as empresas, todos os usuários no caso, os contratantes que faziam mais de 100 mil chamadas por dia com duração inferior a 3 segundos.

E aí que que acontece, as operadoras identificaram passaram isso para Anatel? Anatel falou assim, ó, ou você para ou você vai ser multa e vai ter essa linha suspensa, é, as multas podiam chegar até 50 milhões de reais, né? E isso baixou pra caramba.

Mobilon

Baixou, mas ainda tem bastante, né? Então assim, é uma medida que mitiga um pouco o problema, mas não resolve. A minha mãe, por exemplo, continua com o celular tocando o dia todo. Acho que até reduzir um pouquinho vai, mas ainda está tocando o dia inteiro.

Lucas Braga

Sim. Em setembro, por exemplo, a Anatel revelou que as ligações de menos de 3 segundos caíram pela metade. E aí, o que que aconteceu depois disso ela autorizou que as operadoras cobrassem pelos 3 primeiros segundos de ligação, porque antes era gratuito. Você só era cobrado na chamada após o terceiro segundo.

Paulo Higa

Agora vai, hein?

Mobilon

Aí sim né

Lucas Braga

Para usuários finais hoje em dia, isso não faz a menor diferença, porque os planos são todos ilimitados, né?

Mas, para essas empresas, esses sistemas automatizados, cara, pronto, acabou-se. Se você fizer alguma chamada dessa em grande volume, você vai ser tarifado. Então acabou aí, dificultou todo esse processo.

Ainda existe muito spam telefônico e eu continuo recebendo vários. Eu chamei a atenção aqui da Oi Fibra, mas agora eu tenho que chamar a atenção da Sky que não para de me ligar todos os dias, já nem atendo mais o telefone quando eu vejo que é do DDD 61. Mas é, eu vejo que foi um ponto muito positivo para as comunicações de 2022.

Mobilon

Eu fico pensando se tem alguma saída, né? Porque spam é um problema que a gente vê na internet desde o início e nunca teve uma solução definitiva. O próprio Gmail mudou completamente a cena aí para os e-mails, mas ainda vira e mexe, passa, algum e-mail ali vai para a caixa de entrada também. Enfim, tem aqueles e-mails que estão na área cinza, não o é não é necessariamente um spam, mas é spam, né? É propaganda, coisa assim, que acaba chegando também eu marco tudo como spam.

Mas eu já comecei a ver também bastante coisa no WhatsApp. Já comecei até a me perguntar se é inevitável que o WhatsApp se transforme no que é o SMS no Brasil em alguns anos.

O que que vocês acham disso?

Paulo Higa

Ah para mim já está horrível, já.

Lucas Braga

Está insuportável.

Paulo Higa

E pior é quando, às vezes, tem um número desconhecido que liga via WhatsApp. Porque aí não dá nem para silenciar ligações desconhecidas do WhatsApp, não é ainda, então você tem pouquíssimo controle ali.

É o mesmo problema do e-mail, não é?

O custo para você mandar um spam ou é fazer uma ligação ali é muito baixo, né? É quase zero, então facilita muito para fazer, spam.

Talvez a gente passe a ignorar o WhatsApp e se der certo, né? Passa a ignorar o WhatsApp e aí voltar a atender o telefone? Por que aí?

[risos]

Né, se as operadoras cobrarem por essas é ligações de robôs e de telemarketing, começar a doer mais no bolso. Daí, em tese, a qualidade das chamadas telefônicas melhora, não é?

Mobilon

E até na ligação também rolou um atrito ali, obviamente, entre Anatel e as empresas de call center, por conta dessas medidas, né, Lucas?

Lucas Braga

Sim, as empresas tentaram entrar na justiça, foram até o STF para tentar barrar a implementação do 0303.

Alegaram que isso não era um alçada da Anatel e que poderia prejudicar o negócio, poderia acabar com empregos, mas no final das contas, a justiça definiu que é sim competência da Anatel. O 0303 foi autorizado, e é, é isso mesmo. Essas empresas perderam essas ações aí na justiça. Eu acho que esse assunto vai ficar ainda mais quente a partir do ano que vem, principalmente quando a gente vê essa implementação do 0304, que é para as ligações de cobrança, porque aí vai ser muito fácil ignorar. Os bancos vão ser obrigados as financeiras terão que usar esse prefixo, para poder fazer ligação e, cara, se você já sabe que uma ligação de cobrança você não vê que nem queria atender, então isso deve dificultar.

Mobilon

Aí pode gerar prejuízo de fato.

Lucas Braga

É isso deve dificultar o serviço, realmente de cobrança, enfim, tem outras maneiras de fazer cobrança. Provavelmente vai encaminhar aí para o WhatsApp igual o mobilou estava falando que hoje já está insuportável, vai ficar ainda mais.

Mobilon

Mas é, eu já não sei se eu concordo, não é porque uma coisa é você me ligar para tentar me vender uma coisa, outra coisa é você me ligar para tentar reaver o que é seu.

Então, aí quem está errado sou eu, não é a empresa que está me cobrando, a não ser que seja uma ligação do tipo pra oferecer crédito, mas também entra no lado de venda, é financeiro, mas é venda. Aí sim

Lucas Braga

Mas você nunca recebeu uma ligação de cobrança procurando uma pessoa que não é você?  

Porque eu, todos os dias me ligam procurando Salete entendeu? E não de não adianta eu falar que eu não sou Salete Gomes porque, cara…

Mobilon

Durante o dia, de noite não sei.

Paulo Higa

Mas eu, eu estaria mais do lado das empresas de cobrança se elas tivessem dados atualizados, porque é ridículo tanto de SMS, principalmente de cobrança, de nomes aleatórios que eu nunca vi na vida, sabe.

Mobilon

E isso eu não entendo o porquê, tipo, número sempre foi meu, eu tenho o número a 15 anos. Aí eu recebi uma ligação, que tem o número errado, só tem essa possibilidade.

Lucas Braga

Não é só número errado, a pessoa simplesmente coloca qualquer coisa lá, ou então coloca de má-fé mesmo

Mobilon

Aham, sim, sim.

Lucas Braga

E não adianta você falar pra pessoa, “então não existe nesse número”, porque ela não alimenta o sistema ou às vezes o sistema nem tem essa opção de alimentar, informando que aquele número não é daquela pessoa.

Então você continua recebendo 30 mil ligações com cobranças de produtos que você não comprou de uma pessoa que não é você.

Mobilon

É, aí é complicado, mas sei lá. Eu ainda continuo dividido, sabe, por que e quando for? É, eu sei que tem as exceções, tem os números que estão errados…

Lucas Braga

É, mas na prática, assim, você já recebe a ligação. O que a única coisa que vai mudar é o prefixo.

Você só vai saber ali de cara que é um prefixo de cobrança. Você pode atender ligação ou não, né?

Fica a seu critério. Eu não vou atender nenhuma, com certeza. Várias outras pessoas também não.

Mobilon

Não, não existe, é o ponto você não querer atender a Salete para falar com a Salete, beleza, está certo.

Mas eu imagino que a maioria das ligações estejam corretas, não é possível, que se não o sistema estava falido.

É uma grana gasta ali com telemarketing. Cara, está jogando no lixo, então está funcionando. Se está funcionando, os números estão em sua maioria corretos, e aí as pessoas simplesmente param de atender e tipo, já está devendo para de atender, some do mapa. Sei lá, isso aí pode gerar um efeito bola de neve, de aumento de custo das coisas também, porque você fica mais difícil ser reaver um dinheiro que é seu, né? Tipo, uma empresa é vendeu um serviço, um produto, alguma coisa, a pessoa não paga da calote, o custo dos produtos, todos aumentam para todo mundo, né? Sei lá, esse aí já não sei se é o melhor caminho, sabe? Me parece uma medida extrema que gera efeitos indesejados.

Lucas Braga

Mas é isso, esse é um assunto que, com certeza, vai ter muitas discussões calorosas em 2023, não é? Com certeza o setor vai ser um pouco mais incisivo do que com 0303. Vamos acompanhar todas essas repercussões aí ao longo do ano.

Finalização

Mobilon

Então é isso, vamos chegando ao final de mais episódios do Tecnocast.

Conta pra gente aí, qual acontecimento de 2022 que você acha que deveria ter entrado nessa retrospectiva? Seja uma coisa boa ou não.

É muita notícia ruim hoje aqui já, mas se tiver alguma coisa que você acha importante comenta lá na comunidade.tecnoblog.net ou pelo Twitter é só marcar o @tecnocast

Se quiser continuar o papo com a gente em todas as redes, só chamar lá o @mobilon

Paulo Higa

E @paulohiga

Mobilon

Como sempre, esse episódio produzido pelo Josué de Oliveira, edição de Raquel Igne, sonorização, de Ariel Libório, e arte da capa é do Vitor Pádua.

A gente fica por aqui, voltamos com outro episódio… ano que vem, né, Josué?

Josué

Ano que vem. Por favor, férias!

Mobilon

Até lá, tchau!

Paulo Higa

Tchau gente!

Josué

Tchaaau!

Paulo Higa

Editor-executivo

Paulo Higa é jornalista, com MBA em Gestão pela FGV e uma década de experiência na cobertura de tecnologia. Trabalha no Tecnoblog desde 2012, viajou para mais de 10 países para acompanhar eventos da indústria e já publicou 400 reviews de celulares, TVs e computadores. É coapresentador do Tecnocast e usa a desculpa de ser maratonista para testar wearables que ainda nem chegaram ao Brasil.

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