O verdadeiro Elon Musk vem à tona

CEO da Tesla e do Twitter tem "campo de distorção da realidade" que era raramente visto fora de suas empresas, mas se tornou aparente nos últimos anos

Felipe Ventura
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Eu passei anos impressionado com as ideias do Elon Musk e com as conquistas das empresas que ele gerencia. Trazendo um design futurista, os carros da Tesla conseguiriam dirigir sozinhos um dia. O Hyperloop parecia um sonho de transporte público, como uma evolução do trem-bala. A Boring Company resolveria congestionamentos nas estradas, já tendo realizado testes bem-sucedidos de túneis subterrâneos. E a SpaceX seria capaz de levar pessoas ao redor da Lua, e ajudaria a colonizar Marte.

Ao longo dos anos, meu encanto foi passando. Musk era inacreditável no sentido extraordinário da palavra, mas passou a ser impossível de se acreditar. Ele acumula uma série de promessas não cumpridas, voltando atrás na própria palavra e até mentindo quando lhe convém.

Isso ficou bem escancarado após a aquisição do Twitter, mas essa transição vem acontecendo faz tempo.

Elon Musk sentado com braços cruzados olhando para o lado esquerdo
Elon Musk (Imagem: Kim Shiflett / NASA e Vitor Pádua / Tecnoblog)

Promete, mas não cumpre

A Tesla teve um impacto inegável no mercado de carros elétricos. Musk prometeu uma SUV com autonomia para quase 600 km com uma só carga, capaz de acelerar mais rápido que um Porsche, e cumpriu. Os veículos podem receber atualizações de software via Wi-Fi, e já vinham com touchscreen muito antes de isso se tornar comum na indústria automotiva.

Musk queria ir além com o Full-Self Driving, ou FSD, mas a sonhada “autonomia completa” continua longe da realidade – ainda que ele sempre revise o prazo.

Por exemplo: em 2016, Musk garantiu que veículos da Tesla poderiam dirigir sozinhos entre Los Angeles e Nova York até o final de 2017. Isso não aconteceu. Em 2017, ele previu que motoristas poderiam dormir enquanto o veículo dirigisse; isso seria oferecido até o final de 2019. De novo, nada.

Em 2021, Musk finalmente teve que admitir que carros autônomos são um “problema difícil”, depois de passar anos e anos jurando que os veículos da Tesla conseguiriam andar sozinhos muito em breve.

Ainda assim, a empresa segue vendendo hardware do Full Self-Driving por US$ 15 mil; e promete autonomia total até 2024.

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A Boring Company também decepcionou. A ideia era transportar carros em trenós elétricos através de túneis subterrâneos para driblar congestionamentos. Musk falava em viagens a até 240 km/h.

Só que o primeiro projeto real da Boring Company é uma piada: um túnel subterrâneo em Las Vegas, debaixo do centro de convenções onde ocorre a feira CES, em que carros da Tesla dirigem bem devagar, com um humano ao volante.

O conceito do Hyperloop, apresentado por Musk em 2013, foi adotado por diversas startups, mas ainda não se tornou realidade. Este sistema de transporte envolve cápsulas (pods) que viajariam em tubos a vácuo por meio de levitação magnética; ele levaria pessoas de uma cidade para outra a até 1.000 km/h.

Só que o Hyperloop não virou realidade. Pior: ele aparentemente foi criado para prejudicar a construção de um trem-bala na Califórnia. Ashlee Vance, autor da biografia de Musk, escreve o seguinte:

… ele queria mostrar que existiam ideias mais criativas que poderiam realmente resolver problemas e impulsionar o estado. Com sorte, o trem de alta velocidade seria cancelado. Musk disse isso para mim durante uma série de e-mails e telefonemas que antecederam o anúncio [do Hyperloop].

Túnel de testes do Hyperloop na sede da SpaceX
Túnel de testes do Hyperloop na sede da SpaceX (Imagem: Reprodução / Instagram)

Em novembro, a SpaceX desmantelou seu tubo de testes para o Hyperloop, substituindo-o por vagas de estacionamento para os funcionários.

E, após enfrentarem dificuldades, as startups focadas no Hyperloop remanejaram a ideia para transporte de carga, em vez de pessoas. Jay Walder, ex-CEO da Hyperloop One, disse ao New York Times este ano: “conseguiremos criar um sistema de hyperloop para passageiros nos próximos 10 anos? Provavelmente não”.

Musk segue com suas promessas futuristas. Há os testes da Neuralink em humanos, que prometem acontecer “em seis meses”, ou até meados de 2023. Só que, com a pressão do empresário por resultados rápidos, cerca de 1.500 animais já morreram nos laboratórios da empresa.

E a SpaceX garante que sua primeira viagem comercial ao redor da Lua será realizada em 2023 na Starship, nave espacial que ainda não foi lançada em órbita.

As promessas fazem parte da imagem que Musk quer cultivar. E às vezes elas viram realidade! A Starlink já conecta áreas remotas sem acesso à internet, ainda que preocupe astrônomos com seus milhares de satélites orbitando ao redor da Terra. Só que essa visão muitas vezes não se concretiza – e esse é apenas um dos problemas.

Musk mentiu sobre a Tesla

Pouco a pouco, o verdadeiro Elon Musk ficou mais aparente para o público.

Para mim, esse processo começou em 2018, quando Musk publicou um tweet com informação falsa sobre a Tesla. Ele garantiu que havia conseguido financiamento para retirar a empresa da bolsa de valores, e pagaria US$ 420 por ação. O preço das ações disparou, prejudicando investidores que apostavam contra a montadora.

A SEC, comissão de valores mobiliários dos EUA, diz que Elon mentiu:

Musk não havia sequer discutido, e muito menos confirmado, os principais termos de um acordo, incluindo preço, com qualquer fonte potencial de financiamento…

Quando fez essas declarações, Musk sabia que nunca havia discutido uma transação de fechamento de capital a US$ 420 por ação com qualquer fonte potencial de financiamento…

Isso deixa claro como o bilionário estava explicitamente disposto a mentir para conseguir o que queria.

Houve consequências, pelo menos. A SEC acusou Musk de fraude e fez um acordo no qual ele teve que deixar o conselho de administração da Tesla e pagar multa de US$ 20 milhões.

Sem consequências

Também em 2018, tivemos mais uma polêmica surgida no Twitter – e desta vez, Musk não sofreu as consequências.

O empresário queria enviar um minissubmarino para resgatar treze pessoas presas em uma caverna na Tailândia. O britânico Vernon Unsworth, mergulhador e explorador de cavernas, acusou Elon de fazer um “golpe de marketing”. Ele disse que o submarino era grande demais para se desviar de obstáculos, portanto a ideia “não tinha absolutamente nenhuma chance de funcionar”.

Unsworth foi além e mandou Musk enfiar o submarino… lá. O empresário ficou tão bravo que chamou o mergulhador – que ajudou a resgatar as 13 pessoas – de “pedófilo”. Questionado por um usuário, ele reafirmou: “aposto uma nota assinada de dólar que é verdade”.

Musk logo apagou os tweets e se desculpou: “as ações dele contra mim não justificam minhas ações contra ele, e por isso peço desculpas ao Sr. Unsworth”.

Vernon Unsworth
O mergulhador Vernon Unsworth (Imagem: Reprodução / YouTube / BBC News)

Mas, alguns meses depois, Musk mostrou o que realmente achava do britânico. “Você não acha estranho que ele não tenha me processado?”, disse Elon em um tweet.

E, em um e-mail ao jornalista Ryan Mac, que trabalhava no BuzzFeed News na época, ele escreveu:

… pare de defender estupradores de crianças, seu idiota de merda. Ele [Unsworth] é um idoso branco e solteiro da Inglaterra que está viajando ou morando na Tailândia por 30 a 40 anos, principalmente Pattaya Beach, até se mudar para Chiang Rai para casar com uma criança que tinha cerca de 12 anos na época.

Não havia nenhuma prova de que isso era verdade. Unsworth, então com 63 anos, namorava uma mulher tailandesa que tinha 40 anos na época da polêmica.

O e-mail também dizia: “eu espero mesmo que ele me processe”. Unsworth aceitou o desafio de Musk, acusando-o de difamação em uma ação judicial. Só que, pela lei dos EUA, é bastante difícil provar que uma pessoa difamou você: o dano causado precisa ficar extremamente claro.

Musk ganhou. Logo após o veredito, ele declarou: “minha fé na humanidade foi restaurada”.

Lin Wood, o advogado de Unsworth, disse o seguinte:

Este veredito envia um sinal, e apenas um sinal – de que você pode fazer qualquer acusação que quiser, por mais vil e falsa que seja, e alguém pode se safar.

Campo de distorção da realidade

Segundo Ryan Mac, o processo judicial mostrou o “campo de distorção da realidade” que Musk consegue criar:

É algo que ele usa para convencer um engenheiro a aperfeiçoar uma peça de carro por dias a fio, ou para pressionar um funcionário de relações públicas a sumir com uma notícia ruim, e muitas vezes esse campo de distorção o resgatou da beira do fracasso.

Essa habilidade era raramente vista fora do trabalho, mas começou a ficar aparente depois da vitória na Justiça.

Em 2020, veio um enorme balde de água fria para mim. Dias após a OMS (Organização Mundial de Saúde) declarar a COVID-19 como uma pandemia global, Musk afirmou no Twitter: “com base nas tendências atuais, provavelmente [haverá] perto de zero novos casos nos EUA também até o final de abril”.

Em maio do mesmo ano, ele cansou de esperar e pressionou o governo de Fremont, Califórnia, a deixar que as fábricas da Tesla continuassem a operar, colocando os funcionários em risco. Ele passou os próximos meses minimizando os impactos da COVID-19, que já matou mais de 6 milhões de pessoas ao redor do mundo.

Carro da Tesla sendo montado na fábrica
Carro da Tesla sendo montado na fábrica de Fremont, Califórnia (Imagem: Maurizio Pesce / Flickr)

À medida que a pandemia se tornou um assunto político, Musk deixou de lado a imagem de centrista. Ele debochou dos senadores Bernie Sanders e Elizabeth Warren, que querem que o bilionário pague mais impostos; e declarou voto aos republicanos em 2022, porque “o Partido Democrata é excessivamente controlado pelos sindicatos e… advogados de ação coletiva”.

Coincidentemente, há dois assuntos que preocupam Musk em suas empresas: o risco de empregados formarem sindicatos, e a ameaça de processos na Justiça. 15 funcionários e ex-funcionários negros da Tesla abriram uma ação coletiva alegando discriminação racial; e pelo menos 7 mulheres que trabalhavam para a montadora entraram com processos contra assédio sexual. A SpaceX também é acusada de práticas sexistas.

Elizabeth Lopatto, do The Verge, defende que Musk não tem “convicções políticas, apenas interesses pessoais”. Ele obteve US$ 64 milhões em benefícios fiscais no Texas – governado por um republicano – para sua nova fábrica da Tesla no estado, onde a SpaceX também tem uma base de lançamentos espaciais.

Ou seja, essas empresas dependem muito do Texas, que por sua vez depende de um governo republicano. “Para mim, isso explica por que Musk está puxando o saco dos republicanos — se acordássemos amanhã e os democratas governassem o Texas, o teor de seus tweets mudaria abruptamente”, prevê Lopatto.

E provavelmente não haveria consequências tão graves para essa mudança abrupta. Com uma fortuna bilionária, Musk pode tem bastante liberdade para fazer o que bem entender. E com dezenas de milhões de seguidores no Twitter, ele pode dizer o que quiser e ser defendido por uma legião de fãs.

A armadilha do CEO visionário

Pessoas ricas não precisam necessariamente ser famosas.

Por exemplo, atualmente o homem mais rico do mundo é Bernard Arnault: ele comanda a LVMH, maior empresa do mundo em artigos de luxo, responsável por grifes como Christian Dior, Louis Vuitton e TAG Heuer; além de bebidas como Chandon, Dom Pérignon e Hennessy.

Arnault raramente dá entrevistas. Ele não tem perfil verificado em redes sociais. Mesmo valendo US$ 160 bilhões – mais que os US$ 140 bilhões atuais de Musk – o executivo da LVMH consegue ser um desconhecido para o público em geral.

Larry Page e Sergey Brin, cofundadores do Google, valem cerca de US$ 80 bilhões cada. Eles quase nunca falaram com a mídia nos últimos cinco anos, deixando as apresentações para o CEO Sundar Pichai.

Não estou dizendo que bilionários “low profile” são uma regra: Bill Gates, Jeff Bezos e Mark Zuckerberg sempre fazem aparições, por exemplo. Mas a fortuna gigantesca não obriga ninguém a dar entrevistas, nem a tuitar todo dia, nem a ser tão público o tempo todo.

Para Musk, é diferente: ele vai além de um CEO porque se tornou uma celebridade. A imagem de visionário ajuda a conseguir bilhões de dólares em financiamento, e a investir em áreas cujo sucesso pareceria improvável – exceto para o “Tony Stark da vida real”.

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Mas existe uma armadilha aí. Em algum momento, o CEO visionário pode seguir um caminho errado – errar é humano! -, e se recusar a admitir derrota. Ele faria isso para não prejudicar sua reputação pessoal, mesmo quando isso vai contra o interesse dos acionistas.

Era fácil se encantar com Elon Musk porque os objetivos dele pareciam bons. A espécie humana deveria, sim, explorar o espaço, e quem sabe levar algumas pessoas para Marte. Os carros movidos a combustível fóssil deveriam ser substituídos por modelos elétricos, como uma forma de conter a mudança climática. E o transporte público também deveria fazer parte dessa visão futurista.

Então, Musk passou a deixar mais claro quem ele realmente é. Para mim, a imagem de “Homem de Ferro” foi se dissolvendo, e o que sobrou foi alguém que age como um ativista político, entrando em uma polarização burra que não admite nada além de apoio incondicional ou total repulsa.

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Essa má impressão pode não ser só comigo. Recentemente, Musk apareceu como convidado especial em um show do comediante Dave Chapelle, e foi dolorosamente vaiado pelo público. No dia seguinte, no Twitter, ele tentou ativar seu campo de distorção da realidade: disse que “tecnicamente, foram 90% de aplausos e 10% de vaias”, e culpou “esquerdistas descontrolados”. Quando isso não funcionou, ele apagou o tweet.

Mas ainda há muitos fãs de Musk por aí – a bagunça dele no Twitter até virou inspiração para certos CEOs.

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