Elon Musk é inacreditável, assim como as promessas dele

Novo dono do Twitter criou briga com Apple, estragou relação com anunciantes e voltou atrás em diversas afirmações - assim fica bem difícil confiar nele

Felipe Ventura
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• Atualizado há 11 meses
Elon Musk com boca aberta, de onde saem pássaros do Twitter
Elon Musk fez muitas promessas ao assumir o Twitter, mas voltou atrás (Imagem: Vitor Pádua / Tecnoblog)

Elon Musk é inacreditável nos dois principais sentidos da palavra. Ele é fora do comum: ajudou a tornar a Tesla a maior empresa de carros elétricos do mundo, e comandou a SpaceX para avançar fortemente na tecnologia de foguetes reutilizáveis. Por outro lado, o bilionário quebrou promessas tantas vezes – especialmente após a aquisição do Twitter – que devemos pensar no mínimo duas vezes antes de acreditarmos no que ele fala.

Nesta quarta-feira (14), Musk mostrou mais uma vez que não é confiável. O perfil @ElonJet, que acompanhava as viagens do jatinho particular do empresário, foi permanentemente suspenso do Twitter.

Seu criador, Jack Sweeney, confirmou isso em sua própria conta oficial – que também foi suspensa logo depois. O universitário continua divulgando os voos particulares de Musk, Jeff Bezos, Bill Gates, Mark Zuckerberg e outros através de plataformas como Instagram, Discord e Telegram. Ele usa dados de tráfego aéreo coletados pela OpenSky Network e ADS-B Exchange, projetos tocados por entusiastas de aviação.

O banimento vai contra o que Musk tuitou em novembro: “meu compromisso com a liberdade de expressão se estende até mesmo a não banir a conta que monitora meu avião, mesmo que isso seja um risco direto à segurança pessoal”.

Agora, o Twitter inventou uma nova política para “proibir o compartilhamento da localização ao vivo de outra pessoa na maioria dos casos”. Com isso, até o bot que acompanhava voos de oligarcas da Rússia foi derrubado.

A justificativa de Musk é que um stalker subiu em um carro em Los Angeles achando que ele estava lá dentro. Quem estaria sendo transportado é X Æ A-12, filho dele com a cantora Grimes.

“Qualquer conta que faça doxxing de localização em tempo real será suspensa, por se tratar de uma violação à segurança física”, afirma Elon. (Doxxing é o ato de publicar informações privadas de outras pessoas sem permissão.)

Além disso, o empresário promete processar Jack Sweeney “e organizações que ajudaram a causar danos a minha família”.

Mas… como exatamente a conta @ElonJet ajudaria um stalker a descobrir a posição de um carro em uma cidade enorme como Los Angeles? Vale notar também que o voo pousou no LAX, 5º aeroporto mais movimentado do mundo. E por que Musk baniria até as contas que monitoram voos da NASA, que definitivamente não faziam doxxing?

Aqui, podemos ver como o “Chief Twit” pode mudar de ideia radicalmente ao longo de um mês. E isso é só um dos exemplos mais recentes.

Twitter vs. Apple

Em 28 de novembro, Musk contou que a Apple havia praticamente interrompido todos os seus anúncios no Twitter. Ele questionou se a empresa “odeia a liberdade de expressão na América”, e marcou a @ do CEO Tim Cook para dar explicações.

No mesmo dia, Musk alegou que a Apple ameaçou retirar o Twitter da App Store, sem dizer o motivo; e abriu uma enquete perguntando se a empresa deveria “publicar todas as ações consumadas de censura que afetem seus clientes”.

Então, em 30 de novembro, Musk foi convidado ao Apple Park para conversar com Tim Cook. “Resolvemos o mal-entendido sobre a possível remoção do Twitter da App Store”, ele explicou. “Tim deixou claro que a Apple nunca pensou em fazer isso.”

Ou seja, depois de colocar a Apple na mira de milhões de seus fãs – incluindo políticos -, Musk virou e disse que na verdade… não era nada.

A Apple voltou atrás na ameaça, ou nunca existiu uma ameaça? Vale notar que havia um incentivo para mentir, já que Musk queria driblar a taxa de 30% da App Store ao vender o Twitter Blue – uma forma de fazer isso seria colocando a fabricante do iPhone como inimiga.

Há uma terceira possibilidade: será que o dono do Twitter entendeu errado algum aviso padrão recebido da App Store? Como detalha Nilay Patel, editor-chefe do The Verge:

O Twitter é uma empresa importante com um app extremamente importante na plataforma da Apple – é uma certeza absoluta que as duas companhias tinham um relacionamento antes da chegada do Elon. Eu sei disso porque perguntei ao ex-chefe de produto do Twitter sobre isso no podcast Decoder, e ele me disse que a empresa não atuava contornando as regras da Apple.

Qualquer comunicado que Elon alegue que a Apple enviou sobre o Twitter na App Store provavelmente fazia parte do fluxo regular… mas ele demitiu todos que sabem disso. Ops.

De um jeito ou de outro, é mais um caso em que não dá para acreditar no que Musk diz.

Twitter vira “lugar infernal” para anunciantes

Tweets de contas falsas da Nintendo, Tesla, Pepsi e Lockheed Martin
Tweets de contas falsas que compraram o Twitter Blue (Imagem: Reprodução / Twitter e Vitor Pádua / Tecnoblog)

As empresas que anunciam no Twitter também aprenderam que não podem confiar muito no Musk.

Um dia antes de oficializar a compra do Twitter, Musk publicou uma carta aberta aos anunciantes dizendo que a rede social “obviamente não pode se tornar um lugar infernal, livre para todos, onde qualquer coisa pode ser dita sem consequências”.

O empresário garantiu que “o Twitter fundamentalmente aspira ser a plataforma de publicidade mais respeitada do mundo, que fortalece sua marca e faz sua empresa crescer”.

Então, ao assumir a empresa, ele fez de tudo para afastar anunciantes.

Musk rapidamente demitiu altos executivos, incluindo o CEO, o que levou a responsável pela divisão de anúncios e parcerias com marcas, Sarah Personette, a deixar o cargo.

Além disso, a divisão de confiança e segurança – que faz a moderação dos tweets – foi impactada pelos cortes. De acordo com um estudo, o volume de posts com ofensas a minorias – incluindo negros, trans, gays, judeus e hispânicos – disparou após Musk assumir o Twitter.

Preocupadas com o novo rumo da rede social, algumas empresas pausaram anúncios, incluindo a General Mills, do setor alimentício; mais as montadoras General Motors e Audi. Além disso, a IPG Mediabrands – uma gigante do mercado publicitário – enviou uma carta a clientes como American Express, Coca-Cola e Levi’s aconselhando-os a suspender suas propagandas.

Em vez de consertar a situação, Musk alegou que o Twitter “teve uma queda enorme na receita devido a grupos de ativistas pressionando os anunciantes”. Ele não explicou quem eram esses ativistas, mas os acusou de tentar “destruir a liberdade de expressão na América”. O bilionário também prometeu uma campanha “termonuclear” na qual ele revelaria o nome dos anunciantes para serem alvos de boicote.

O lançamento do novo Twitter Blue só piorou as coisas. Diversos usuários pagaram para fingirem ser empresas como a Nintendo, com o Mario mostrando o dedo do meio; a farmacêutica Eli Lilly, que precisou desmentir o boato de que sua insulina seria gratuita nos EUA; e a Lockheed Martin, que supostamente iria “suspender todas as vendas de armas para a Arábia Saudita, Israel e Estados Unidos”.

No dia seguinte à confusão, o diretor de confiança e segurança, Yoel Roth, deixou o cargo. Robin Wheeler, chefe de venda de anúncios do Twitter, tentou sair mas foi convencida por Musk a permanecer. Ela foi demitida uma semana depois.

Falando em demissões…

Antes de finalizar a compra do Twitter, Musk disse a potenciais investidores que planejava demitir 75% da força de trabalho. Em uma visita à sede do Twitter, ele admitiu aos funcionários que haveria cortes, mas que não chegaria a esse patamar.

O que acabou acontecendo: Musk primeiro demitiu 50% do Twitter. Logo depois, ele encerrou a política de home office, exigindo que todos voltassem aos escritórios. O investidor Jason Calacanis, próximo ao empresário, havia dito em mensagens de texto que o fim do trabalho remoto serviria de estímulo para que mais pessoas saíssem da empresa: “dois dias por semana presenciais obrigatórios = 20% de demissões voluntárias”.

Além disso, Musk deu um ultimato para os que restaram: eles deveriam adotar um nível de comprometimento “hardcore” ou seriam desligados, recebendo até três meses de salário (para seguir a legislação trabalhista). Centenas de pessoas aceitaram ir embora. O resultado: segundo Gergely Orosz, ex-engenheiro de software da Uber e Microsoft, a equipe de engenharia do Twitter foi reduzida em 90%, em relação ao número antes de Musk entrar.

Ou seja, o plano original de remover 75% dos funcionários acabou acontecendo – na verdade, foi até pior. Musk mentiu, ou mudou os planos por causa da fuga de anunciantes?

Cadê o conselho de moderação?

Lembra quando Musk garantiu que o Twitter iria formar um conselho de moderação de conteúdo “com pontos de vista amplamente diversos”, e que nenhuma decisão importante seria tomada antes disso?

Ele voltou atrás e restaurou diversas contas banidas por violarem regras do Twitter, incluindo o ex-presidente americano Donald Trump – que prometeu continuar postando apenas em sua própria rede, a Truth Social.

A justificativa de Musk não convence:

Uma grande coalizão de grupos de ativistas políticos/sociais concordou em não tentar matar o Twitter, privando-nos de receita publicitária se eu concordasse com essa condição [de criar um conselho de moderação de conteúdo]. Eles quebraram o acordo.

De novo: que ativistas são esses?!

Além disso, essa não era a preocupação das empresas. A Omnicom Media Group – que representa marcas como Apple (olha ela de novo), McDonald’s e Pepsi – sugeriu pausar anúncios no Twitter por causa das contas falsas verificadas que assinaram o Twitter Blue; e devido às demissões em massa, que afetaram a equipe de moderação.

Mais promessas deixadas de lado

Fachada da sede do Twitter
Sede do Twitter em 2013 (Imagem: Mike Davis / Flickr)

Voltando às demissões: Musk prometeu em 21 de novembro que os layoffs haviam acabado, e que o Twitter estava contratando de novo. No dia 24, pouco antes do feriado de Ação de Graças, dezenas de funcionários foram desligados.

Também em novembro, Musk vendeu US$ 4 bilhões em ações da Tesla, muito provavelmente para investir no Twitter. Agora em dezembro, foram mais US$ 3,5 bilhões.

Ele havia prometido em agosto – quando se desfez de quase US$ 7 bilhões em TSLA – que não voltaria a fazer isso. O empresário mandou o mesmo papo em abril: converteu US$ 8,4 bilhões de ações em dinheiro, e garantiu que não havia “nenhuma outra venda de TSLA planejada depois de hoje”. Musk mentiu, ou os planos mudaram por causa da compra turbulenta do Twitter?

Ah, sim, e nem vamos entrar no imbróglio que foi essa aquisição. Musk teria gasto cerca de US$ 100 milhões com advogados para não comprar o Twitter por US$ 44 bilhões – um preço que ele mesmo estipulou.

E antes da proposta de compra, o empresário cogitava publicamente criar uma rede social, tudo enquanto comprava ações do Twitter todo dia.

Com tudo isso em mente, fica difícil acreditar na visão atual de Musk para o Twitter. Ele mencionou o Projeto X, que transformaria a rede social em um super app como o WeChat – que permite enviar mensagens, pedir comida, chamar um carro e realizar pagamentos.

O empresário também sonha com uma conta digital no Twitter, com rendimento para os usuários e a possibilidade de pagar por vídeos na plataforma.

Musk até garantiu que iria “fazer um celular alternativo” caso a rede social fosse banida da App Store e Google Play – o que, como vimos, nem iria acontecer. Se nem a Microsoft nem o pai do Android tiveram sucesso nessa empreitada, como o dono do Twitter iria conseguir?

Essa transição de empresário inacreditável (= extraordinário) para inacreditável (= impossível de se acreditar) vem acontecendo há vários anos. Pouco a pouco, o verdadeiro Elon Musk veio à tona.

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Felipe Ventura

Felipe Ventura

Ex-editor

Felipe Ventura fez graduação em Economia pela FEA-USP, e trabalha com jornalismo desde 2009. No Tecnoblog, atuou entre 2017 e 2023 como editor de notícias, ajudando a cobrir os principais fatos de tecnologia. Sua paixão pela comunicação começou em um estágio na editora Axel Springer na Alemanha. Foi repórter e editor-assistente no Gizmodo Brasil.

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