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Por dentro do San Pedro Valley, que abriga mais de 200 startups em Belo Horizonte

Visitamos a sede da Méliuz, Sympla, Hotmart e SmarttBot para entender a cultura de empreendedorismo de BH

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10/11/2017 às 14h23

O Vale do Silício é um dos grandes conhecidos de quem gosta de tecnologia; as maiores empresas do setor estão por lá. Já o San Pedro Valley, que fica em Belo Horizonte (MG), pode ser encarado como uma versão brasileira da região — até no nome.

A região San Pedro Valley existe desde 2011 e já tem 258 startups dos mais diversos setores, além de espaços de coworking, aceleradoras e investidores. No total, são mais de 300 iniciativas.

Apesar de ter começado no bairro de São Pedro, o San Pedro Valley não se limita a uma região em específico e hoje é considerado uma comunidade onde várias empresas de Belo Horizonte podem participar; basta fazer o cadastro no site.

Cultura de empreendimento e parceria

Na minha visita, descobri que a cultura de startups é bem incentivada em Minas Gerais. Um dos estímulos vem do Seed, programa de aceleração de startups do próprio governo do estado que já existe há quatro anos.

O Seed treina e investe em diversas empresas da região. Nas três últimas rodadas do programa, foram 112 startups aceleradas, mais de R$ 15 milhões investidos e mais de 200 empregos criados em Minas Gerais.

Além de incentivos financeiros, percebi que as empresas da região têm uma cultura muito colaborativa, onde cada uma aprende com a outra. É uma troca orgânica, ora por Slack, WhatsApp e Telegram, ora por reuniões mensais.

Sem administração centralizada ou processos formais, o San Pedro Valley continua sendo importante para quatro startups, ainda que já tenham crescido muito: Méliuz, Hotmart, Sympla e SmarttBot.

Méliuz

A primeira empresa no roteiro foi a Méliuz, que ocupa 5 andares de um prédio em Belo Horizonte que também já foi sede do Google. A Méliuz oferece um sistema de cashback, ou seja, devolve parte do dinheiro que você usa para comprar produtos em diversos estabelecimentos.

O dinheiro que você recebe sai da verba de marketing dessas lojas e a Méliuz divide o valor com os usuários. Nos Estados Unidos e Europa, o modelo cashback existe há mais de 15 anos.

Daniela Fagundes, coordenadora de branding da Méliuz, explica melhor a estratégia de cashback, que é um benefício, e não um cupom. “Não é desconto, aí não deprecia o produto. O consumidor tem que comprar para depois ele receber [o dinheiro] de volta”, diz Daniela.

Vamos combinar: Méliuz realmente é um nome complicado, hein?

Porém, ela diz que a maior tecnologia da Méliuz hoje não é o cashback. Segundo Daniela, é fornecer para o estabelecimento o perfil do consumidor e personalizar o conteúdo para o público, como sugerir produtos e acompanhar os hábitos de consumo. Além disso, a Méliuz consegue movimentar as compras e atrair mais usuários pelas redes sociais e divulgação.

Hoje, a empresa não se limita só a lojas virtuais e opera no varejo local nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Brasília e, claro, Belo Horizonte. Para Daniela, isso estimulou as pessoas a acreditarem que o cashback funciona mesmo. “A maior forma de aquisição é o boca a boca”, diz.

A Méliuz tem 170 funcionários, com escritórios em Manaus e São Paulo, além da capital mineira. Eles também trabalham com funcionários remotos em Porto Alegre e Rio de Janeiro.

Os dados são impressionantes: já são 2,4 milhões de usuários cadastrados, mais de 40 milhões de reais devolvidos e R$ 1,4 bilhão em vendas de produtos. A empresa quer se tornar um “passo natural no fluxo de contas da pessoa”. “Sempre antes de almoçar ou jantar, a pessoa vai olhar as ofertas disponíveis no aplicativo”, diz Daniela.

No geral, a Méliuz avalia sua participação no San Pedro Valley como muito positiva. A empresa ganha mais visibilidade e faz mentorias, trocas de experiência para ajudar quem está começando e ser ajudado por quem já aprendeu bastante no meio. A troca é tão grande que acontece em reuniões mensais com as empresas do ramo — a última, por exemplo, ajudou a Méliuz a melhorar seu perfil no LinkedIn.

Hotmart

Essa aqui está no San Pedro Valley desde o comecinho, quando o nome ainda nem existia. Aliás, foi o próprio co-fundador da Hotmart, Mateus Bicalho, que um dia brincou que o nome BH Valley deveria ser outro melhor, como San Pedro Valley. E assim pegou.

A Hotmart comercializa produtos digitais, como ebooks ou video-aulas, que são colocados dentro da plataforma e os usuários pagam o preço que o criador estabeleceu. Caso não goste do produto que comprou, o cliente pode pedir seu dinheiro de volta em até 15 ou 30 dias após o pagamento.

A empresa não faz só esse intermédio entre produtor e consumidor: ela também ajuda o criador de conteúdo a definir um nicho de audiência, persona, criar uma página de venda e a divulgar o seu produto. A Hotmart cobra 9,9% sobre o valor do conteúdo mais R$ 1 por cada venda.

O time da startup é bem grande: no total, a Hotmart tem 260 funcionários, que ficam em um dos 6 andares do prédio em Belo Horizonte, ou em escritórios, em Madrid e Bogotá. Sim, a empresa já começou a operar lá fora porque viu um “comportamento parecido com o nosso” no mercado latino.

Hoje, a Hotmart planeja abrir um escritório até no México, mas não disse nada sobre abrir um escritório em outras cidades do Brasil. O motivo? O apreço pelo San Pedro Valley e o sentimento de responsabilidade para com as outras empresas na região.

Andresa de Carvalho, que faz a comunicação interna e externa da empresa, lembra que a Hotmart nasceu dividindo escritório com a Rock Content, outra veterana na região. Ambas sempre atuaram de forma colaborativa, que é como ela vê a relação de várias parceiras no San Pedro Valley.

Sympla

Se você está contando, pode dar o recorde para a Sympla, cujo escritório ocupa 8 andares (!) em um prédio de BH. A empresa é uma plataforma de eventos que media o contato entre produtores e visitantes. Para o organizador, ainda é possível acompanhar o desempenho das vendas, e fazer a gestão do evento direto pela plataforma.

Hoje, a Sympla acumula 180 funcionários e tem 45 vagas abertas (!). Só neste ano, já foram contratadas 84 pessoas e eles têm a previsão de abrir mais 32 vagas até o final do ano. A empresa tem escritórios em São Paulo, Rio, Recife e Goiânia.

Dentro da plataforma, em média são oferecidos 11 mil eventos por dia, somando 1 milhão de ingressos vendidos no mês. No total, já foram realizados 175 mil eventos pelos mais de 30 mil produtores com a plataforma. No ano passado, a empresa recebeu R$ 13 milhões em investimento pela Movile.

Luciana Junqueira, analista de relações públicas na Sympla, conta que a relação com o San Pedro Valley foi fundamental para o começo da empresa. “Nos fortaleceu muito, a troca e o aprendizado sempre foi muito grande”, diz. Até hoje, os times dessas empresas trocam insights de forma natural.

SmarttBot

De casa nova, a SmarttBot nos recebeu em um escritório que nem foi inaugurado oficialmente. A startup tem um robô de investimento que opera na bolsa de valores. O fundador da SmarttBot é Paulo Gomide, que, com apenas 30 anos, já detém 3,1% do market share da bolsa de valores na SmarttBot.

“Somos mais ou menos o home broker [sistema que negocia os papéis de ações na bolsa de valores], a diferença é que você configura a sua estratégia e o robô opera por você”, explica Gomide. Hoje, a empresa tem 25 mil pessoas cadastradas e 1 mil assinaturas, que custam de R$ 99 a R$ 1.399 por mês.

Paulo Gomide, fundador da SmarttBot, no novo escritório da empresa.

Para usar o SmarttBot, é necessário abrir uma conta em uma corretora parceira. Hoje, a SmarttBot trabalha com 14 corretoras, mas conquistar a primeira foi uma tarefa difícil; poucas confiavam em um robô de startup para fazer operações reais na bolsa de valores.

Uma das corretoras parceiras é a XP Investimentos, que teve 49,9% do seu capital comprado pelo banco Itaú. Gomide conta que o interesse em trabalhar junto foi da própria XP, cujo diretor técnico ficou impressionado com o desempenho do SmarttBot e quis uma parceria o quanto antes.

Com mais de R$ 35 bilhões transacionados (incluindo compra e venda), Gomide atribui esses “números impressionantes” de crescimento e operação à XP, que abriga a maioria dos clientes da empresa.

Gomide tem mestrado em inteligência artificial. Na época, era um desenvolvedor dentro do time de três pessoas que dedicavam o seu tempo para fazer o SmarttBot funcionar. A ideia estava sendo desenvolvida desde março de 2011, mas foi o produto foi lançado oficialmente em janeiro de 2014.

Como você deve imaginar, o sistema por trás do SmarttBot é bem complexo. “Hoje a gente vê gente tentando fazer coisa igual e tecnologicamente é muito difícil. Qualquer erro nosso pode acarretar uma perda de milhões para o cliente”, diz Gomide.

Assim como na Sympla, a troca da SmarttBot com outras empresas do San Pedro Valley é menos formal e mais orgânica, por WhatsApp, Telegram e Slack. “Se uma webcam queima, passou meia hora e já tem alguém aqui nos ajudando”, diz Gomide.

A relação da SmarttBot com a região é muito mais imaterial, assim como a existência da comunidade. “A gente sente e respira isso dia inteiro. Sem o San Pedro Valley a gente não estava em lugar nenhum”, confessa.

Jean Prado viajou a Belo Horizonte a convite da FINIT 2017.

  • Excelente! Já conhecia o San Pedro Valley. Muito legal a iniciativa! 🙂

  • Kodos Otros

    Ahhh.. BH….!

    • Seu lugar não é aqui xD

      • Kodos Otros

        Como assim? Isso e bullying alienigena.

  • Sympla <3

  • Bacon

    Bom texto, mas com vários erros de digitação.

    • Valeu! Mas onde você encontrou erro de digitação?

      • “A ideia de está sendo desenvolvida desde março de 2011, mas foi o produto foi lançado oficialmente em janeiro de 2014.”
        Nada que comprometa o entendimento. Abraços!

        • Opa, passou despercebido. Vou arrumar aqui. Valeu! =)

  • Edson Pereira

    Cacildis, I speak English fluently, mas esta mania do pessoal de TI, de Vendas e alguns setores ficar usando termos em inglês é ridículo, mania de ficar imitando americanos. Se está no Brasil, se a mensagem é para brasileiros, usem o português. Gosto dos dois idiomas mas temos que usá-los cada qual à seu tempo.

    • Peacemak3R

      Sim, acaba afastando, fazendo um pequeno nicho de só quem conhece os termos…

      • Guilherme

        Ao mesmo tempo que aproxima um grande nicho (estrangeiro) de pessoas que conhecem o termo, imagina se o San Pedro Valley chamasse Vale do São Pedro, galera estrangeira nem saberia pronunciar ou escrever sobre isso lá fora, e muito menos saber essa referência. San Pedro Valley ficou muito famoso por causa de um post internacional da TechCrunch

    • paulo yan

      Mas vamos concordar que San Pedro Valley é bem mais bonito que Vale de São Pedro neah?

      • CarvalhoKleber Faturamento Dir

        Prefiro “Vale de São Pedro”

    • Alex Soares

      Concordo com vc, Edson. Isso é problema de auto-estima, basicamente um problema de cultura, achar que o que é bom é o que vem de fora, que não sabemos construir valores.
      Tudo bem que Vale de São Pedro ficaria parecendo algum lugar católico para peregrinação, mas acho que temos criatividade o suficiente para criar algo diferente e com um bom nome a lá brasileira…

    • CarvalhoKleber Faturamento Dir

      Pessoal… Brasileiros… Acordem… Nos temos que retomar as rédias de nosso país. Infelizmente entregamos nas mãos de “gringos” e políticos corruptos. Vale de São Pedro SIMMM. Só assim podemos dizer com verdade e propriedade: Pátria Amada e toda a riqueza de palavras e estruturas de nosso hino. ( https://www.estudopratico.com.br/miscigenacao-no-brasil ) Um dia nós fomos: Mulatos, Cafuzos e Cabolos… e nem isso somos mais… Agora somos o BRASIL

    • Guilherme

      Então meu amigo,
      1)Eu não sei se você sabe mas startups são feitas para funcionar no mundo inteiro, inglês é uma língua mundial, logo elas precisam usar termos em inglês
      2)Startups de Israel, Estônia, e etc usam termos em inglês, imaginam se eles ficassem com o mimimi de não usar inglês, eles não cresceriam
      3)Português não é uma lingua Brasileira, veja bem, português é uma língua de Portugal. Se fossemos realmente zelar pelo patriotismo você deveria estar falando tupi guarani, não português, então para com essa mania de imitar portugueses e vai falar tupi guarani

  • Kick

    San Pedro Valley é o cacete, se está situado nesse rebostalho de país é Vale de São Pedro.

  • Jose X.

    Um dos estímulos vem do Seed, programa de aceleração de startups do próprio governo do estado que já existe há quatro anos

    sacrilégio!!!

    que mania do estado se meter em tudo, não precisamos do estado!!!
    /s

  • Legal a iniciativa, mas já que é brasileiro, não fica mais legal ser o Vale de São Pedro?

    • Guilherme

      San Pedro Valley ficou muito famoso também graças ao Post da TechCrunch em inglês falando sobre o ecossistema. Se fosse Vale do São Pedro, não chegariam até eles. Startups pensam global, a Hotmart por exemplo, ela não quer se limitar a ficar somente em BH, e muito menos San Pedro Valley quer se limitar a ter somente startups brasileiras (tanto que o SEED abriga muitas startups de fora), então porque não usar termos inglês? Isso internacionaliza a parada

  • Renan

    Gostei! Façam mais matérias de inovações brasileiras.

  • DADAL

    Gente de mente curta, visão limitada, criticando o nome; mimimi dos infernos.
    Gênios, as empresas estão mirando o mercado mundial e nada melhor que um nome internacional, não?!

  • Ricardo – Vaz Lobo

    Excelente texto. Dá pra gente ter um saborzinho de primeiro mundo, a despeito dos fracassomaníacos de plantão

    Lá pela região de Santa Rita do Sapucaí, também pulsam algumas startups.