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Adeus, câmeras profissionais

Entenda como os celulares com duas, três e quatro lentes afetam a indústria de câmeras profissionais

Darlan Helder Por

Ao que tudo indica, encontrar smartphones com apenas uma câmera traseira será cada vez mais raro. Isso se deve à expansão de dispositivos com duas, três e quatro lentes, de segmentos e preços variados no mercado. Afinal, por que muitas fabricantes apostam em aparelhos com múltiplas lentes e como essa tendência afeta o mercado de equipamentos semiprofissionais e profissionais?

Adeus, câmeras profissionais em vídeo

Pesquisas já nos mostram que os smartphones influenciam e seguem influenciando a indústria de câmeras. De acordo com a Camera & Imaging Products Association (CIPA), uma associação internacional do setor fotográfico, entre 2010 e 2019, as vendas de câmeras digitais caíram 87% em todo o planeta.

O gráfico elaborado pela Statista explica bem esse declínio considerável. Veja que mais de 120 milhões de câmeras foram comercializadas em 2010; depois, 98 milhões em 2012; 43 milhões em 2014; 25 milhões em 2017; e 15 milhões de unidades em 2019. O estudo considera remessas de câmeras com lentes intercambiáveis e com lente embutida.

Vendas de câmeras digitais caíram 87% desde 2010, revela CIPA (Imagem: Statista)

Diante desse cenário, é certo dizer que as câmeras digitais estão com os dias contados? Para responder essa e outras perguntas, o Tecnoblog conversou com o fotógrafo e videomaker César Ovalle. Também procuramos pelo Thiago Masuchette, head de produtos da Motorola Brasil, e Renato Citrini, gerente sênior de produto da divisão de dispositivos móveis da Samsung Brasil.

Como os celulares afetam o setor de câmeras

Comodidade, tecnologia avançada e criação de conteúdo para as redes sociais podem explicar as quedas vertiginosas nas vendas de câmeras digitais.

Fato é que os celulares foram melhorando ano após ano, quebraram barreiras e impulsionaram a criatividade. Como efeito, adquirir equipamentos profissionais, em algumas ocasiões, passou a não ser tão vantajoso e, em paralelo, as lentes em telefones deixaram de ser apenas um simples recurso adicional, como explicam os executivos:

Todo esse conceito de câmera, sim, vem de uma tendência, há muitos anos. Os consumidores não queriam mais sair de suas casas com dois equipamentos (uma câmera e um celular para tirar as suas fotos). Os smartphones conseguiram agrupar mais e mais essa experiência. A Motorola trabalhou bastante para entender o que o consumidor buscava, o que ele deseja, a tendência e fazer essa implementação no seu portfólio.

Thiago Masuchette, head de produtos da Motorola Brasil

Motorola Moto G8 e LG K61 (Imagem: Darlan Helder/Tecnoblog)

A câmera era um acessório do smartphone. Nem era smartphone, né? Você tinha o seu telefone, acoplava uma câmera, era um acessório externo. Então era um mundo bem diferente, uma resolução muito baixa, uma qualidade bem limitada (…) Hoje a gente fala em câmeras de 108 megapixels no smartphone. Você consegue tirar uma foto profissional com qualidade profissional [e] com diferentes recursos com Inteligência Artificial.

Renato Citrini, gerente sênior de produto da divisão de dispositivos móveis da Samsung Brasil

A análise do Thiago vai ao encontro do que revela uma pesquisa da Keypoint Intelligence – InfoTrends, que analisa a relação da Geração Z com a imagem, e aponta que ela está ativamente envolvida com a fotografia. Muitos ainda se classificam como “fotógrafos amadores” ou “amadores avançados”.

O estudo também traz uma certa esperança para a indústria de câmeras, já que, embora 80% tenham dito que o celular é o seu equipamento principal para registros fotográficos, mais de 60% afirmaram ter uma câmera digital, que geralmente pertence a algum familiar. Além disso, 55% dos entrevistados demonstraram interesse em adquirir uma câmera digital futuramente. Apesar disso, será que vale a pena comprar uma câmera digital atualmente?

Analisando o cenário atual desses celulares de três e quatro câmeras, eu acho que ainda é necessário, sim, comprar uma DSLR ou uma mirrorless. Mas isso para mim que trabalho profissionalmente, porque, às vezes, eu preciso de uma entrega melhor, de um sensor melhor, de um arquivo melhor… Não que o celular não tenha evoluído ou não seja suficiente. Para muitos trabalhos o celular é suficiente.

César Ovalle, fotógrafo e videomaker

A câmera do celular é aliada da criatividade, diz fotógrafo

Nokia 2.3, Galaxy M31, LG K61 e Motorola Moto G8 (Imagem: Darlan Helder/Tecnoblog)

Criatividade. Essa é palavra que mais define a experiência de fotografar com o celular. Com quase 400 mil seguidores no Instagram, César Ovalle ficou ainda mais conhecido por fazer imagens incríveis com o smartphone e compartilha um pouco dessa experiência:

Eu uso muito celular [para fotografar] e, para mim, um dos pontos mais positivo é que ele te limita, né? (…) Por mais que você tenha duas, três, quatro câmeras [no celular], ele vai te limitar comparado a uma DSLR, uma mirrorless ou qualquer outra câmera com lente intercambiável. Isso é um ponto positivo porque faz com que eu exercite mais a criatividade, eu consigo enxergar as coisas de outra maneira. Toda limitação é a favor da criatividade, então isso é um ponto extremamente positivo.

César Ovalle

Mesmo com as suas limitações, o dispositivo — que inicialmente surgiu para ligações e outras tarefas básicas — já mostrou que pode fazer coisas impressionantes e não precisamos ir muito longe para provar isso.

Em fevereiro deste ano, a cantora Lady Gaga lançou um clipe gravado inteiramente com um iPhone 11 Pro, em uma ação da Apple. É claro que só o aparelho não foi suficiente para uma produção daquele tamanho, por isso a equipe de filmagem ainda contou com a ajuda de drones e estabilizadores. E mais: a câmera nativa não foi totalmente responsável pelo projeto, isso porque, de acordo com os produtores, as cenas foram filmadas com o Filmic Pro, um aplicativo disponível para iOS que custa R$ 54,90.

Eu acho que a gente já tem criatividade suficiente e possibilidades diferentes de fazer o que quiser com o celular, seja um filme, uma propaganda, seja um clipe como foi esse da Lady Gaga. Eu acho que já está mais que provado que dá para fazer, sim, com pouco recurso, dá para fazer muita coisa boa.

César Ovalle

Não tem como falar da evolução da fotografia e de celulares com múltiplas câmeras sem deixar de mencionar as ferramentas de edição, que também podemos chamar de aplicativos.

VSCO, Adobe Lightroom, Snapseed e InShot estão entre os mais populares tanto para quem usa Android quanto para quem tem iPhone. Afinal, por que abrir o Photoshop ou o Premiere se você pode fazer edições simples e complexas no aparelho celular?

No ecossistema da Apple, por exemplo, o FaceApp foi 7° app mais baixado entre os gratuitos no Brasil em 2019. Já entre os pagos, a lista é maior: o Facetune foi o 2° mais baixado, 8mm Vintage Camera aparece em 7°, Camera+ em 11° e o DSLR Camera em 14°.

No Android, o Google não divulga uma lista como a Apple, mas basta acessar a Play Store para ter uma ideia de que entre os mais populares há muitos dedicados para fotografia e vídeo.

Quanto melhores os celulares forem, melhores os aplicativos vão ficando e, sim, dá para fazer o que você quiser. Tem coisas inacreditáveis que, com um clique, [o aplicativo] recorta uma imagem inteira para você. Antes demorava horas para fazer no Photoshop e, agora, com um clique, com Inteligência Artificial, o aplicativo recorta você inteiro, tira o fundo (…) Tem aplicativo que tira o rosto e coloca o seu no lugar.

César Ovalle

Ainda há as redes sociais que estimulam a produção de fotos e vídeos, a exemplo do Instagram, do TikTok e do ignorado Snapchat. Desde o ano passado, a Samsung, por exemplo, vem associando as câmeras presentes em seus modelos com a criação de conteúdo. O mesmo acontece com a LG, que entrou nessa onda e lançou em junho três aparelhos da série K com quatro lentes. Lentes macro e ultrawide são as mais populares atualmente em novos smartphones, tal qual o sensor de profundidade.

De acordo com o DxOMark, um famoso laboratório que avalia e revela as melhores câmeras em celulares, o Xiaomi Mi 10 Ultra é considerado o melhor celular para fotografias, pelo menos até setembro de 2020. O aparelho recebeu nota alta em todos os pontos de avaliação: cor, exposição, textura, zoom, profundidade, entre outros.

Xiaomi Mi 10 Ultra (Foto: Divulgação/Xiaomi)

Xiaomi Mi 10 Ultra (Foto: Divulgação/Xiaomi)

Inclusive, se você quiser conhecer mais do DxOMark e entender como eles escolhem a melhor câmera de celular, o Paulo Barba, nosso editor audiovisual, já explicou tudo em detalhes em vídeo bem completo aqui no Tecnoblog.

O Mi 10 Ultra não só impressiona pelas notas altas do DxOMark. Esse aparelho conta com quatro câmeras, sendo a principal de 48 megapixels, uma ultrawide de 20 megapixels, uma periscope de 48 megapixels e outra teleobjetiva de 12 megapixels.

O Samsung Galaxy S20 Ultra e o Motorola Edge+ também estão bem posicionados no ranking. Mas será que o consumidor já consegue entender facilmente cada lente que está no ali no aparelho e os recursos oferecidos?

Essa é uma coisa interessante. Será que o consumidor está sabendo ali quais são as funções dessas múltiplas câmeras? A gente sabe, por exemplo, que resolução e megapixels as pessoas já têm um bom entendimento: quanto maior a resolução, quanto maior o número de megapixels, melhor a qualidade da sua foto, mais você vai poder ampliar a sua foto.

Na parte de câmeras múltiplas, a gente trabalha com uma parte mais educacional de mostrar quais são os reais benefícios, quais são os recursos na hora que você tem em um smartphone com quatro câmeras, o que você consegue fazer com uma ultrawide, o que você consegue fazer com uma câmera macro.

Renato Citrini

Para o futuro, será que teremos cinco, seis, sete ou dez lentes? Ainda não é possível ter uma resposta concreta para essa pergunta, mas uma palavra já pode resumir bem o que podemos esperar: aprimoramento.

O futuro também é muito alinhado com a Inteligência Artificial (…) As câmeras possuem tantos recursos, mas são poucos os consumidores que usam todos esses recursos. [Se] tem Inteligência Artificial e, por exemplo, você estiver em um ambiente com baixa luminosidade, [o celular] faz a sugestão para ativar o Night Vision, você está se aproximando muito de um objeto e a câmera já te faz a sugestão para mudar para o sensor macro, você tem somente uma pessoa sendo enquadrada e ele automaticamente faz a sugestão para habilitar o modo retrato.

Thiago Masuchette

E você, leitor, arrisca a dizer como será o futuro? Concorda com o posicionamento dos entrevistados? Então compartilhe a sua opinião aqui nos comentários.

Comentários da Comunidade

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Douglas Knevitz (@Douglas_Knevitz)

it’s just a marketing gimmick. Os 120w são só nos primeiros 5 minutos.

Uma breve explicação de como baterias funcionam

Gabriel Arruda (@gdarruda)

Falando de audiovisual profissional, sempre foi um mercado restrito e o que acaba acontecendo é o preço dos equipamentos serem exorbitantes. Lentes e câmeras de cinema ficam na casa de dezenas de milhares de dólares, porque deve ter uma escala mínima e só justifica por esses preços. Para TV ao vivo então, chega a centenas de milhares: https://www.youtube.com/watch?v=RkTaMyatsTo

Para produções menores, tipo vídeos de YouTube e afins, as câmeras híbridas continuam sendo muito superiores a smartphones. Um dia teremos as mágicas de fotografia computacional em vídeo, mas é ordens de grandeza mais complexo fazer os bokehs fakes (que na real, continuam ruins mesmo em fotos) e HDR nos vídeos.

Mas acho que o mercado intermediário vai sumir mesmo, as sem lentes intercambiáveis já sumiram. Sensores menores estão perdendo sentido, Olympus acabou de vender seu negócio de câmeras que era basedo em MFT. Será complicado pegar algo menos de $1000 por exemplo. E vídeo será mais chamariz que fotos.

Para fotos, acho que já é muito parecido com o cenário notebook/desktop. Cada vez menos pessoas irão usar desktops, mas em última instância sempre podem ser mais rápidos. Quem quer o máximo do máximo, uma lente/sensores gigantes sempre serão úteis…até porque dá para fazer pós-processamento.

Pika das Galaxias (@PikaDasGalaxias)

“Adeus, câmeras profissionais” Ah vá , fala aí tbm adeus desktops tbm

🤷‍♀️ (@xavier)

quanto maior a resolução, quanto maior o número de megapixels, melhor a qualidade da sua foto, mais você vai poder ampliar a sua foto.

Opinião de um vendedor da Tekpix? Lamentável ler isso.

Rafael Carneiro (@rafaelrenan05)

Bom, eu tenho uma câmera DSLR de entrada (Canon T4i) e um smartphone com uma câmera até que boa ainda no meu Galaxy S8.

Por experiência, acredito que ainda vai demorar um tanto até um smartphone conseguir substituir uma câmera profissional no básico que ela se propõe a fazer: que é uma fotografia com real qualidade, profundidade de campo com capacidade de aberturas maiores (o fundinho embaçado que todo mundo acha bonito) e todo o poder e versatilidade das lentes, que é o que realmente impede esse domínio dos smartphones em cima da fotografia.

Hoje nós encontramos celulares com câmeras dedicas a zoom, o que até certo ponto é interessante, porque tenta imitar o que uma lente zoom faz; ou uma lente fixa de 35mm ou mais. Mas são os smartphones mais caros do mercado, como flasgships da Samsung e da Apple.

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Foto com diferentes lentes de uma câmera profissional e sua distorção

Ainda assim, esses celulares tem um modo especial de retrato onde tenta simular um efeito bokeh ou de profundidade de campo via software e algumas vezes fica bem esquisito. Como o recorte desta foto aqui tirada em um iPhone 11 Pro e postada nessa matéria da MacMagazine. Aproximem a foto próximo à cabeça do rapaz e verão o recorte artificial. Isso não acontece com uma lente de câmera profissional porque não tem esse pós processamento que altera a foto.

As câmeras DSLR tem também um sensor maior, que produz fotos melhores, com mais detalhes e maior qualidade que um celular. Afinal, quantidade de megapixel não quer dizer nada.
Claro que a tendência da tecnologia é fazer sensores cada vez menores para termos equipamentos mais portáteis. Porém ainda acho difícil em poucos anos termos smartphones com sensores tão bons quanto uma DSLR e que possam ter lentes tão versáteis quanto.
É um tanto complicado, por exemplo, um celular que consiga, com a mesma lente, tirar uma foto macro e uma foto zoom de 200mm.

Para o uso pessoal, essa evolução dos smartphones está excelente. Mas para profissional ainda precisa melhorar muito.
Quem quiser entender um pouquinho melhor sobre essa coisa toda das lentes, tem um link do Tecnoblog mesmo que fala sobre a abertura, e um outro site que gosto bastante que explica sobre as lentes e tudo mais.

Gabriel Arruda (@gdarruda)

Nem está tão errado conceitualmente, só que não adianta colocar um monte de pixels em um sensor de smartphone, só será útil em cenários de muita luz. Mas é bem simplista mesmo, do jeito que está escrito.

Aliás, para ser sincero, achei bem superficial o texto já que falou basicamente de usuário comum e no título está câmeras profissionais. Dois fabricantes de smartphones e nenhum de câmeras, não foi comentado nada dos últimos grandes eventos do mercado de câmeras como a venda da Olympus e os grandes lançamentos dos últimos meses (Canon R5/R6, Sony A7SIII, Fuji XT4, Leica SL2, etc…). O mercado está mudando bastante para se adaptar, mesmo que sem sucesso, o mínimo era um comentário sobre mirrorless.

O filmmaker era o contraponto, mas com o título “Adeus, câmeras profissionais” precisava de uma visão mais ampla que um profissional e dois executivos falando de usuário comum/entusiasta que estão claramente vendendo os próprios produtos.