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Eu nunca vi a Microsoft tão bem como agora

Satya Nadella mudou a gigante do sof... digo, de serviços, no primeiro ano como CEO

Paulo Higa Por

Há um ano, na tarde de 4 de fevereiro de 2014, a Microsoft anunciava o nome do terceiro CEO da história da empresa, depois dos veteranos Bill Gates e Steve Ballmer. O novo comandante era Satya Nadella, um indiano desconhecido do grande público que vinha de uma divisão da Microsoft que estava dando certo — até então, ele comandava a área de serviços corporativos e computação na nuvem. Um ano depois, a Microsoft parece outra empresa. Bem melhor que a antiga, por sinal.

Discursos de executivos de grandes empresas costumam ter muito do que eu chamo de lero-lero corporativo, mas as palavras de Satya Nadella quando assumiu como CEO fazem sentido quando olhamos para trás. Havia coisas como “nossa indústria não respeita a tradição, só a inovação”, “temos que garantir que a Microsoft viva num mundo mobile e na nuvem”, “vamos reinventar a produtividade” e o famoso mantra “mobile-first, cloud-first”.

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Na década passada, minha visão da Microsoft era de gigante estagnada, conservadora, lenta, que mexia num produto aqui e outro acolá, investia sempre nas mesmas áreas e focava esforços para se manter viva com o que já dava dinheiro — Windows, Office e Xbox. No último ano, o que vi foi uma empresa mais agressiva, no bom sentido da palavra, com vontade de arriscar em novos mercados, capacidade de inovar e tomar decisões complicadas.

Logo nos primeiros meses como CEO, Nadella anunciou a maior rodada de demissões da história da Microsoft: 18 mil pessoas deixariam de fazer parte do quadro de funcionários — a maioria da recém-comprada Nokia, mas boa parte da Microsoft. Demissões sempre são ruins (é impossível desconsiderar o lado humano da coisa), mas nesse caso também mostraram que a Microsoft tinha um caminho para seguir. A justificativa das demissões, além do óbvio corte de gastos, era agilizar as tomadas de decisões e integrar melhor as equipes.

A Microsoft está investindo em internet das coisas, um mercado que deve movimentar alguns trilhões de dólares nos próximos anos — o IDC fala em US$ 7,1 trilhões até 2020; a Cisco comenta em “oportunidade de US$ 19 trilhões” e impressionantes 50 bilhões de dispositivos conectados na próxima década. O Windows 10 roda no Raspberry Pi 2 e no Intel Galileo. A Microsoft está trabalhando para levar sua plataforma de software e nuvem para todos os lugares. Para o elevador do seu prédio, por exemplo.

Eu li várias vezes que o Windows se chama Windows porque é um sistema operacional com interface gráfica baseada em janelas. Pelo visto, vamos precisar mudar essa explicação.

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Ou seja, a Microsoft ficou acompanhando de longe a revolução dos smartphones, perdendo tempo com o ultrapassado Windows Mobile e chegando tarde demais com o Windows Phone, que a cada versão corria atrás para suprir as deficiências em relação ao Android e iOS, os dois sistemas operacionais que já estavam quilômetros à frente na corrida. Mas não deve ficar de fora da internet das coisas, que também acreditamos ser uma revolução — gravamos um Tecnocast sobre o tema.

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O pessoal de Redmond também está dentro do cada vez mais comentado mercado de wearables, com a Microsoft Band. Ela está longe de ser uma smartband perfeita, mas tem seus méritos: monitora os batimentos cardíacos 24 horas por dia, tem uma penca de sensores, traz funções de smartwatch, possui GPS integrado e mesmo assim a bateria dura dois dias, o dobro do que conseguem dispositivos que fazem menos que isso. Na mesma categoria está o HoloLens, os óculos interessantíssimos de realidade virtual que a Microsoft pretende lançar comercialmente.

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Comentei da Microsoft Band principalmente por causa de uma característica peculiar: ela funciona não apenas com Windows Phone, mas também com Android e iOS, com a mesma qualidade — e até alguns mimos, como a integração com o HealthKit, da Apple. A Microsoft acabou com a guerrinha com os concorrentes. Eu não tenho certeza se essa ampla compatibilidade existiria caso o produto fosse lançado dois ou três anos antes.

Este não é o único caso recente do tipo. Recentemente, a empresa:

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Aliás, vários produtos da Microsoft estão com novidades chegando primeiro para outras plataformas. O caso mais recente que me lembro é o recurso de álbuns do OneDriveexclusivo do aplicativo para iOS e que chega “em breve” para Windows Phone, mas há vários outros: os aplicativos do Office para Android e iOS, por exemplo, estão mais completos e mais atualizados do que os para Windows Phone.

Eu tenho minhas ressalvas quanto a isso, porque a Microsoft está notoriamente priorizando outros sistemas operacionais móveis mesmo tendo sua própria plataforma. Mas, na verdade, isso é a Microsoft finalmente colocando em prática a ideia de ser uma “empresa de serviços”, não mais uma “empresa de software” — lembro de ter ouvido isso no já distante ano de 2012, da boca de Michel Levy, então presidente da Microsoft Brasil, durante o lançamento do Windows 8 em São Paulo.

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A nova estratégia pode ser vista até mesmo no carro-chefe da Microsoft, o Windows: ele se tornou gratuito para dispositivos com menos de 9 polegadas. E o Windows 10, que está longe de ser uma novidade pequena, será uma atualização sem nenhum custo para todos os usuários domésticos, até mesmo para quem ainda usa o Windows 7. A Microsoft não lucra com hardware como a Apple, que libera o OS X “de graça”, então este não é um tipo de decisão que se toma facilmente.

Trata-se de uma mudança drástica num modelo de negócios que era adotado há décadas: desenvolvemos o Windows, vendemos e ganhamos dinheiro com as licenças. Agora é: colocamos o Windows no maior número de dispositivos que pudermos e ganhamos dinheiro com os serviços integrados a ele. Se isso vai dar certo e será lucrativo, só o tempo dirá. Fato é que as ações vão bem e estão subindo, depois de anos de queda e estagnação, desde que Steve Ballmer anunciou que deixaria o cargo.

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É verdade que uma empresa com mais de 100 mil funcionários não pode mudar da noite para o dia. Também é verdade que apenas uma pessoa não faz grandes mudanças — e muito do que está acontecendo agora com a Microsoft é uma continuação do que começou a ser feito bem antes, há anos. Mas dá para afirmar que a troca de comando tem uma parcela de participação relevante nessa história. E, nos últimos meses, a Microsoft tem acertado praticamente em tudo.

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Jader Pereira
a microsoft inovando sempre parabens grande empresa indo sempre o novo.
Sergio Fagundes
A claro, como eu não pensei nisso antes, fazer um TCC inteiro no Libre usando apenas o que pode ser convertido em DOC... CLAAAARO eu só pensava que os professores e a faculdade que tinha por obrigação de lei usar software livre (uma vez que é estadual e não particular) não iriam me obrigar a entregar meus arquivos em outro formato e nem me obrigar a usar um software proprietário...
LessTech
Não precisa de engenharia reversa. Basta criar o arquivo considerando as restrições das conversões entre os formatos.
Sergio Fagundes
Pois é... que estranho isso. Agora você fala como se por algum momento a conversão de ODT para DOC fosse algo que estivesse sobre controle do usuário portanto eu seria incompetente se não desse certo. E caso venha com o papo de por ser aberto eu poderia arrumar isso... DOC é formato proprietário e portanto só é possível conhecer sua tabela de formatação e configuração por meio de engenharia reversa, o que nem todo mundo sabe fazer ou tem tempo hábil para fazer.
LessTech
Proprietário ou nao, fiz meu TCC e minha monografia usando as duas soluções e não tive problemas nas conversões.
Sergio Fagundes
Claro que consegui, depois de ter que reformatar o documento todo porque o MSOFFICE não era compatível com formato opendocument e a emulação do openoffice para doc não é completa porque DOC É PROPRIETÁRIO, bem fácil fazer isso com um TCC inteiro.
LessTech
Seu TCC deve ter sido muito elaborado para não conseguir uma conversão. Parabéns.
LessTech
Mimimi hater.
LessTech
Monopólios nunca são bons para nós consumidores. Também não acho certo uma empresa monopolizar um mercado ou setor se utilizando de formas não éticas. Mas tenha em mente que, mesmo com ética, o monopólio não é benéfico para o consumidor.
Sergio Fagundes
E monopólio é a favor do consumidor? Acha ético uma empresa tomar todo o mercado a força? E não, eu não iria destronar a concorrência com formas desleais. EU ia destronar REALMENTE SENDO MELHOR QUE A CONCORRÊNCIA e não COMPRANDO O MERCADO.
Sergio Fagundes
MIMIMI fiquei sem argumento vou chamar o cara de hater, jihadista, fanboy e ganhei o argumento, mimimi... Parei por aqui.
Sergio Fagundes
COMO EU DISSE NENHUM OUTRO SOFTWARE VAI EMULAR COM PRECISÃO O FORMATO DOC. Porque isso? Porque por serem formatos proprietários e não especificados apenas por engenharia reversa se consegue os padrões necessários COM ISSO outros softwares constantemente perdem formatação quando tentam EMULAR o formato doc (e o docx). Agora pelos outros serem formatos abertos é muito mais fácil o office criar arquivos afinal de contas AS ESPECIFICAÇÕES estão ali para qualquer um usar.
LessTech
Então me diga, porque eu consigo converter os formatos sem problemas?
LessTech
Não existe argumentos contra haters ou fanboys, assim como não há argumentos contra jihadista ou criacionista fervorosos. Em ambos os casos o fanatismo ou o ódio conseguem cegar e anular qualquer tentativa de evocar a razão.
LessTech
Livre iniciativa não é sinônimo de algo participativo. Todas essas grandes empresas visam o monopólio. Achar que uma é bonzinha em detrimento da outra é no mínimo ser inocente. Até você, se pudesse, tentaria destronar sua concorrência e manter eles como meros satélites (ou me diga que vice gosta quando um cliente te trova por outra empresa?). Apple não banca empresas, ela as compra. E para ter o OSX um usuário básico tem que comprar hardware Apple. Eles não lucram com o OSX mas com o hardware (e app's do iTunes, claro). Mesmo com o software pirata a Microsoft a MS lucra. Coibir duramente a pirataria é possível, mas isso os faria perder mercados como China, onde boa parte dos PCs rodam produto pirata.
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