O julgamento do Google e o poder dos defaults

Para o governo americano, o buscador mais usado do mundo protege sua hegemonia de maneira abusiva, bloqueando a competição no setor

Josué de Oliveira
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O julgamento do Google e o poder dos defaults (Imagem: Vitor Pádua / Tecnoblog)
O julgamento do Google e o poder dos defaults (Imagem: Vitor Pádua / Tecnoblog)

Agora no mês de setembro, o Google comemora vinte e cinco anos de sua fundação. Curiosamente, esta também é a idade de um outro evento importante no universo da tecnologia. Em 1998, o governo americano processava a então toda-poderosa Microsoft por tentativa de formar um monopólio.

A acusação era de que a Big Tech se aproveitou de seu amplo domínio com o Windows para sufocar navegadores concorrentes. A empresa teria pressionado fabricantes para não inserir outros navegadores em seus PCs com Windows além daquele que vinha por padrão, o Internet Explorer, criado pela própria Microsoft.

O Netscape, browser outrora dominante, se tornou o exemplo máximo da atitude da Microsoft nessa época. O poder já estabelecido da empresa lhe permitiu corroer a fatia de mercado do competidor, impedindo, na prática, a concorrência. Assim, o governo decidiu se envolver.

Vinte e cinco anos depois, outra empresa representa, dentro de um setor específico, o que a Microsoft representava no final dos anos 1990: o Google. Talvez por isso a história se repita, e os olhos dos reguladores agora estejam sobre o buscador que detém mais de 90% do mercado.

Custa caro ser o default

No dia 12 de setembro, teve início um julgamento no qual o governo americano acusa o Google de tentar impedir a concorrência. Como? Bem, gastando bilhões de dólares para ser o buscador padrão em diversas plataformas.

Sim, bilhões. E muitos. Para a Apple, por exemplo, o Google teria desembolsado entre US$ 15 e 20 bilhões nos últimos anos para ser mecanismo de busca default do Safari no iOS e macOS. Para a Samsung, o valor chegaria a US$ 3 bilhões.

Até mesmo o Firefox, navegador concorrente do Chrome, tem o Google como padrão. E sim, isso também é fruto de um acordo financeiro: algo em torno de US$ 450 milhões.

O argumento do Departamento de Justiça americano é que esses defaults se tornaram centrais na estratégia do Google, e os acordos que os possibilitam são característicos de uma tentativa de criar um monopólio no setor de buscas.

Página inicial do Google
Página inicial do Google (Imagem: Nathana Rebouças / Unsplash)

Para enfatizar a tese, o professor de neurociência e biologia comportamental Antonio Rangel foi convocado. A pesquisa do especialista demonstra que os defaults geram uma tendência “considerável e robusta” pelo padrão pré-estabelecido.

Os bilhões gastos pelo Google parecem indicar, portanto, que se estabelecer como buscador padrão é essencial para manter a dianteira.

No entanto, a empresa relativiza o poder do default. E usa como exemplo outra Big Tech que teria todas as condições de competir com o seu serviço, mas simplesmente não consegue.

Ser o padrão não é o suficiente

Nos primeiros meses do ano, a Microsoft fez valer sua parceria com a OpenAI ao inserir inteligência artificial generativa na busca. O Bing Chat fez o mercado se perguntar, pela primeira vez em muito tempo, como o Google ia reagir.

Hoje sabemos que o Google já tem a sua resposta, o Bard, e que IA não trouxe um crescimento significativo ao Bing. Isso sugere que o problema não é apenas a padronização da ferramenta de busca. Há algo a ser dito sobre o produto em si.

É o que o principal advogado do Google, John Schmidtlein, argumentou quando chegou a sua vez de interrogar Antonio Rangel. O defensor mostrou dados que apontam para a fatia pequena do Bing mesmo nos ambientes mobile onde este é o default. Rangel concordou que, nos casos apresentados, o efeito de ser o padrão “parecia pequeno”.

Bing (Imagem: Divulgação/Microsoft)
Bing (Imagem: Divulgação/Microsoft)

Essa é a tecla na qual o Google bateu nas primeiras semanas do julgamento: ser o padrão não é o suficiente para ser o mais usado. É por isso, inclusive, que o Chrome deixou o Internet Explorer para trás, mesmo este sendo o default no Windows.

Como discutimos no Tecnocast 306, ser o padrão certamente ajuda, mas o produto precisa ser visto como bom.

Escolhas e transições

Se a conclusão geral de Rangel estiver correta, o default cria uma tendência quase inescapável em favor do Google. Mas e se o usuário tivesse desde o início a chance de escolher ativamente qual será o seu buscador padrão?

É o que acontece nos países da União Europeia. Lá, o Google foi obrigado a apresentar uma tela na configuração inicial dos dispositivos Android com várias opções de buscadores. O consumidor escolhe a que achar melhor e pronto: dali em diante, aquele será o padrão.

Inicialmente o Google estabeleceu uma espécie de leilão fechado para determinar quais buscadores concorrentes apareceriam nessa tela inicial — houve reclamações —, mas depois voltou atrás, eliminou as cobranças e ampliou o número de opções. Será que apresentando as escolhas de forma mais clara, houve alguma transição?

Bandeiras da União Europeia
Bandeiras da União Europeia (Imagem: Thijs ter Haar/Wikimedia Commons)

Os números mostram que não. Nos dispositivos móveis, o Google ocupa o primeiro lugar absoluto na Europa, ultrapassando os 96%. E lá, vale lembrar, o Android é o sistema mobile mais utilizado.

Ou seja: mesmo quando o próprio usuário pode definir o default por sua própria conta, o Google vence, já que é reconhecido como o melhor mecanismo de busca. Concorrentes como a Microsoft simplesmente não conseguiram construir uma alternativa vista como à altura.

O que acontece se o Google perder?

Espera-se que o julgamento dure um total de 10 semanas. O veredicto está previsto apenas para 2024. As punições que o Google pode sofrer variam.

Um resultado possível é que a empresa seja impedida de estabelecer novos acordos bilionários como os que têm em vigor. Difícil dizer o quanto isso a enfraqueceria, mas trata-se um investimento obviamente importante para o Google; perdê-lo geraria algum abalo.

No entanto, as consequências podem ser mais graves, chegando ao desmembramento da empresa. Vale lembrar que essa foi a decisão do julgamento da Microsoft, em 1998. A empresa deveria se dividir em duas, sendo uma responsável pelo navegador e outra pelo sistema operacional.

A corte de apelações acabou revogando essa decisão inicial, optando por um acordo no qual a Microsoft se comprometia a permitir que fabricantes inserissem softwares de outras empresas nos PCs. Isso sugere que um desfecho tão drástico no caso do Google não é o cenário mais provável.

De qualquer forma, antes o Departamento de Justiça precisa convencer o juiz de que suas alegações fazem sentido. E, como vimos ao examinar apenas alguns dos aspectos desse debate, isso não está nem de longe garantido.

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