O que vem depois do smartphone?

Empresas apresentam seus gadgets de realidade virtual e mista, mas o apelo destes dispositivos ainda não está totalmente claro

Josué de Oliveira
Por
O que vem depois do smartphone? (Imagem: Vitor Pádua / Tecnoblog)
O que vem depois do smartphone? (Imagem: Vitor Pádua / Tecnoblog)

Um comentário comum sobre smartphones é que falta inovação. Os lançamentos têm se mostrado um tanto parecidos, com mudanças apenas incrementais de uma geração para a outra.

Parte disso diz respeito à maturidade da tecnologia. Smartphones já fazem parte de nosso cotidiano há vários anos, e é difícil imaginar algo que eles não possam fazer a essa altura. Além disso, deve-se considerar que elementos novos exigem alterações em linhas de montagem, complexificando o processo. Enfim: não é tarefa fácil inovar em smartphones.

Talvez os produtos mais interessantes nesse segmento nos últimos anos sejam os dobráveis, que vêm ganhando seu espaço. Mas trata-se de uma mudança na forma, basicamente; como já abordamos por aqui, eles ainda não resolvem nenhum problema específico que um celular tradicional não dê conta.

Nesse contexto, a pergunta sobre qual será o próximo gadget, the next big thing, se intensifica. E a opção que algumas das maiores empresas de tecnologia estão colocando na mesa é, na verdade, uma velha conhecida.

Uma novidade não exatamente nova

Em junho, a Apple anunciou o seu primeiro headset de realidade virtual e mista, o Vision Pro. O produto ainda não chegou ao mercado, mas a apresentação impressionou, englobando aspectos como produtividade, comunicação e entretenimento.

Tanta ambição tem um preço: US$ 3.500. Isso é US$ 3.000 a mais do que o Quest 3, headset apresentado no mês passado pela Meta. Com uma estratégia diferente da de Tim Cook, a empresa outrora conhecida como Facebook busca entregar um aparelho viável para um público mais amplo.

Com estas apostas, as empresas apontam na direção da realidade virtual e mista como um futuro possível para eletrônicos de consumo. Pode ser o empurrão que faltava para que o segmento realmente decole?

Afinal, houve tentativas anteriores. O Google Glass talvez seja o exemplo mais lembrado; o Hololens, da Microsoft, também vem à mente. E não podemos esquecer do Oculus, lançado pela empresa de mesmo nome, comprada pelo Facebook em 2014.

Google Glass Enterprise Edition 2 oficial (Reprodução)
Google Glass Enterprise Edition 2 oficial (Reprodução)

Mas nunca houve uma difusão destes produtos. A tecnologia não estava madura, e as perspectivas de uso se fixaram em âmbitos mais afastados da experiência de consumo. O Hololens, por exemplo, é utilizado no contexto industrial e médico; o Google Glass também teve sua fase voltada para negócios antes de ser descontinuado.

A notícia boa é que a tecnologia em si parece ter evoluído, de acordo com membros da bancada do Tecnocast 309 que testaram tanto o Vision Pro quanto o Quest 3. Mas ainda restam questões quanto ao apelo dos aparelhos anunciados esse ano, e quais públicos se interessarão pelas novidades.

Abordagens diferentes

O Quest 3 foi testado por jornalistas durante a conferência Meta Conect 2023, mas com uma limitação: só havia jogos disponíveis na degustação, mesmo que os vídeos de divulgação prometessem mais.

Estaria a Meta em busca do público gamer? É uma possibilidade. Com o valor de US$ 500,00, ele chega a ser mais barato que o Playstation VR 2, por exemplo. Seria um caminho para popularizar o dispositivo, e depois buscar novas aplicações.

Se esta for a estratégia, a desvantagem dela fica muito clara: nem todo mundo está interessado em jogos, o que pode fechar as portas para novos públicos no longo prazo. Além disso, o uso de realidade virtual e mista para games já cai um pouco no lugar comum, e seria importante sinalizar o que mais o usuário pode fazer com isso.

Já o Vision Pro atira em outras direções, focando numa experiência premium. O posicionamento pretendido pela Apple parece ser o de um computador, só que no formato de headset. Os usos enfatizados são diversos, com pouca ênfase em games, inclusive. Aqui vemos a tecnologia prometendo mais.

(Imagem: Lucas Lima/Tecnoblog)
Teste do Meta Quest 3 (Imagem: Lucas Lima/Tecnoblog)

Só que o preço é proibitivo para a maior parte do público. Enquanto a Meta parece ter tentado entregar o melhor produto possível numa faixa de preço próxima do razoável, a Apple tenta se colocar como a experiência mais completa dentro do setor.

Por essa razão, é quase impossível que o novo produto seja um sucesso de vendas. E a complexidade do Vision Pro já gerou problemas de produção, forçando a empresa a diminuir a quantidade de aparelhos originalmente prometida.

Ainda é cedo para dizer qual das estratégias vai dar mais frutos. No entanto, o que os reviews dos dois produtos tem revelado é a ausência do chamado “killer app”, aquele recurso ou aplicação que faz um produto realmente saltar aos olhos.

Afinal, as experiências propostas por Quest 3 e Vision Pro são possíveis em computadores ou smartphones, das ferramentas de produtividade aos games, passando pela comunicação à distância (e sem a necessidade de criar avatares).

A melhora nos gadgets é palpável, mas ainda falta provar que headsets são algo que você precisa. E isso diz muito de uma tecnologia que já existe há tanto tempo.

Já existe um meio-termo?

Outro aspecto importante dessa conversa é a praticidade. Usar um headset pode não ser a experiência mais confortável do mundo. O próprio Mark Zuckerberg, quando anunciou a guinada do Facebook para o metaverso, sinalizou que, para coisa dar certo, AR e VR deveriam estar presentes em óculos normais, que podem ser usados no dia a dia.

Esta tecnologia ainda parece longe de ser implementada com sucesso, mas a Meta parece estar no caminho. Além do Quest 3, também foi lançado o Ray-Ban Meta, nova geração de óculos inteligentes em parceria com a tradicional marca (anteriormente, eles eram chamados de Ray-Ban Stories.).

Os óculos virão com uma inteligência artificial da empresa, a Meta AI. E não se parecem nada com os headsets que cobrem o rosto do usuário: aqui, estamos falando de óculos tradicionais, que podem ser usados na rua sem chamar a atenção (ou muita atenção).

Um meio-termo, portanto? Bem, ainda não. As lentes do Ray-Ban Meta não são lentes como no Quest 3; você não estará imerso em realidade virtual ou mista com o produto. A ideia aqui é outra.

Homem de pé ao lado de telão com imagens de óculos
Smart glasses da Ray-ban têm Meta AI integrado (Imagem: Reprodução/Meta)

Os óculos inteligentes podem filmar e transmitir diretamente para o Instagram, e também permitem o envio de mensagens com fotos e vídeo pelo WhatsApp. Também dá fazer chamadas, ouvir música e podcasts pelo aparelho, que conta com áudio direcional.

Com o valor de US$ 299,00, o Ray-Ban Meta certamente tem um potencial de público maior do que os headsets. Mas propõem uma experiência muito mais simplificada, não podendo, de fato, ser caracterizado como um produto de AR/VR. Talvez no futuro.

Ainda assim, a presença da Meta AI é interessante. Ativada pelo comando “Hey, Meta”, ela pode receber comandos para identificar o que o usuário está vendo, por exemplo, abrindo caminho para uma integração maior com inteligentes artificiais no dia a dia.

Os próximos anos vão dizer se estes produtos finalmente cairão no gosto dos usuários. Até o momento, as empresas ainda parecem estar tateando as possibilidades. É seguro dizer que o smartphone não vai a lugar nenhum por enquanto.

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