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Mercado de TI tem bons salários, mas sobrecarrega funcionários, diz estudo

Mercado de Tecnologia tem alta na demanda e oferece bons salários, mas não há profissionais suficientes para preencher vagas, segundo especialistas

Pedro Knoth
Por

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O mercado de TI está na contramão de outros setores do mercado de trabalho no Brasil. A avaliação é de um estudo feito pelo economista da FEA-USP, Sérgio Almeida e a startup Flow – Executive Finders, revelado com exclusividade pelo Tecnoblog. Nele, dois pesquisadores concluíram, a partir de dados de publicações especializadas, que o setor de TI mantém plena empregabilidade em meio à pandemia de COVID-19. Mas não há profissionais disponíveis para preencher as vagas.

Mercado de Tecnologia está aquecido, mas tem baixa oferta de profissionais, o que aumenta sobrecarga de trabalho (Imagem: Science in HD/Unsplash)

O desemprego está em alta no Brasil: dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) indicam que 14,7% dos brasileiros estão sem trabalho. Isso corresponde a 14,8 milhões de pessoas desocupadas — maior número da série histórica desde 2012.

O Brasil forma por ano 43,5 mil profissionais na área de Tecnologia. Mas isso é insuficiente para preencher as mais de 70 mil vagas disponíveis.

Um estudo, feito por Sérgio Almeida, professor de Economia Comportamental da FEA-USP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade) e Luiz Mariano, sócio-fundador da Flow, revela que a pandemia acelerou a demanda por profissionais de TI, mas a oferta não cresceu no mesmo ritmo.

“O mercado de Tecnologia tem tido uma grande demanda por profissionais em todos os níveis da pirâmide: desde o técnico mais simples até os executivos, os CTOs”, aponta Mariano, da Flow, ao Tecnoblog. “Mas a demanda esticou. A quantidade de X profissionais que o setor de TI emprega todos os anos triplicou durante a pandemia. E a oferta ficou parada, não acompanhou esse crescimento.”

De fato, com a pandemia, os especialistas constatam que houve um crescimento exponencial de vagas, graças à digitalização de empresas. Para atender as pessoas à distância, cada uma, micro ou grande, teve de criar seu próprio canal digital.

Pandemia sobrecarregou profissionais de TI, diz estudo

A pressa das empresas para programar as interfaces e sistemas trouxe à tona um sentimento comum à categoria: a sobrecarga de trabalho sem o aumento de salário. De acordo com Mariano, o mercado está aquecido, mas as empresas ainda não entendem muito bem os desafios que um profissional de tecnologia deve enfrentar:

“Toda empresa teve de criar um canal digital. Para programar a página, a tecnologia, a interface através da internet. É preciso ser rápido, mas ter segurança, pois estamos vendo o aumento de crimes cibernéticos. E no meio entrou a LGPD. As empresas estão correndo para recuperar a receita perdida durante a pandemia. Mas isso leva tempo: os frutos de um time de TI levam 2 a 3 anos para serem colhidos”

Profissionais estão sobrecarregados por aceleração do mercado de TI durante a pandemia de COVID-19 (Imagem: Jametlene Reskp/Unsplash)

Apesar das frequentes reclamações de quem trabalha na área, o executivo da Flow não vê que profissionais de TI estão sendo “mal remunerados”, mas que isso faz parte de uma “agenda de emergência das empresas”.

Universidades formam um terço dos profissionais em TI

Como em todas as áreas do mercado de trabalho, as universidades têm papel fundamental para formar profissionais de Tecnologia. Mas o estudo também revela que as faculdades e instituições de ensino superior estão com dificuldades para formar os jovens que preenchem as vagas.

Dos 43,5 mil de técnicos em TI formados, apenas um terço sai das universidades. Os pesquisadores avaliam que também há uma defasagem nas competências técnicas: 50% dos profissionais estão em cursos que não cumprem com as exigências do mercado de trabalho.

Para Sérgio Almeida, da FEA-USP, as universidades ainda estão formando os alunos por meio de “processos mais lentos” e que não são capazes de suprir a demanda exigida pelo mercado de trabalho. Ele ressaltou ao Tecnoblog:

“A formação desses estudantes é lenta; as universidades só vão conseguir suprir a demanda [do mercado] daqui a 9, 10 anos. Normalmente, as instituições de ensino privadas têm cursos mais ágeis e que podem formar mais rápido, mas as públicas têm vantagem na qualidade do ensino que elas buscam.”

Outro professor de uma grande universidade pública, que não quis se identificar, consultado pelo Tecnoblog, diz que a burocratização para criar um curso se deve à demora na procura de professores. Além disso, ele avalia que não é interessante para as universidades criar muitos cursos de Tecnologia, porque isso diminui o teto salarial do setor.

Caso a formação dos profissionais seja igual à demanda, a oferta em abundância diminuiria os salários do setor de TI. Salário e disponibilidade de mão de obra são inversamente proporcionais.

Especialistas: “é preciso aumentar benefícios emocionais”

Para resolver a falta de profissionais para vagas de TI, empresas devem considerar dois fatores, segundo os autores do estudo: o salário fixo, e os benefícios emocionais. Quem vai bem nesses dois fatores impede a saída de bons funcionários, que migram para outras áreas.

Luiz Mariano, da Flow, defende que mais empresas aumentem o poder de barganha com os funcionários por meio do salário fixo e benefícios, como férias, 13º, vale transporte e alimentação. “O que isso muda no jogo, a curto prazo, é menos risco e mais segurança — e isso se transforma em salário fixo e benefícios”, completa o executivo.

Empresas devem investir nos salários e em estratégias de saúde emocional, para evitar a fuga de talentos (Imagem: The 9TH Coworking/Unsplash)

Já Sérgio Almeida aponta que é necessário que cada empresa estimule seu funcionário com boas políticas que envolvem aspectos emocionais. O economista chama benefícios que inspiram funcionários a permanecerem na empresa de salário emocional:

“Vemos três fatores que compõem um bom salário emocional: o primeiro é a autonomia. Empresas que deixam na mão de seus funcionários as micro e grandes decisões. Em segundo lugar, vem a missão: a companhia precisa designar um propósito nobre, como ‘melhorar o mundo’ para cada um que trabalha para cumpri-lo. O terceiro fator é a jornada do empregado: à medida em que passa tempo na empresa, ele deve entender que está em um processo de melhora e que há possibilidade de promoção.”

Por fim, os especialistas ressaltam que vale muito a pena se manter no mercado de Tecnologia, pois não há uma previsão de baixa salário do profissional de TI. O setor deve continuar aquecido por muito tempo. Mas Almeida avisa que é melhor diversificar a formação e não apostar todas as fichas em apenas uma opção de carreira:

“O mundo do trabalho consegue ser muito dinâmico. Se o profissional de TI aprender e se especializar em front-end, back-end, cibersegurança, por exemplo, ele é capaz de definir depois qual formação quer seguir, e qual seria a opção mais versátil”

Pedro Knoth

jornalista

Pedro Knoth tem 23 anos, é jornalista formado pela FAAP e mora em São Paulo. Tem como paixão investigar assuntos relacionados a Tecnologia, Economia, Empreendedorismo e Política.

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