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O futuro complicado da Huawei na lista negra dos EUA

Huawei não pode fazer negócios com empresas americanas, o que afeta o mercado de celulares, 5G e o mundo inteiro

Paulo Higa Por

Os acontecimentos da última semana impactaram a segunda maior fabricante de celulares e a maior fornecedora de infraestrutura de telecom do mundo. A Huawei entrou em uma lista negra de organizações que ameaçam a segurança dos Estados Unidos e, neste domingo (19), soubemos que o Google suspendeu os negócios com a empresa chinesa.

A decisão pode afetar principalmente a evolução do 5G, já que um dos maiores mercados não adotará equipamentos da Huawei, empurrando a demanda sobre a Ericsson e a Nokia; e também o mercado de smartphones, levando em conta que o acesso da Huawei ao Android, Google Play, YouTube e outros produtos do Google será bem mais complicado.

O que muda com a briga da Huawei com os Estados Unidos e o que ainda precisa ser esclarecido? A gente explica tudo.

A briga é entre países

Os Estados Unidos estão em uma guerra comercial contra um país, não apenas contra a Huawei. O presidente Donald Trump já considerava a China uma “inimiga” desde 2011, bem antes de se candidatar a presidente. O capítulo mais recente da disputa aconteceu no dia 10 de maio, quando os Estados Unidos elevaram as tarifas sobre US$ 200 bilhões em produtos importados chineses.

Bandeira EUA

Os argumentos contra a China são vários: a mão de obra barata estaria roubando empregos dos americanos; a balança comercial desfavoreceria os Estados Unidos (que importam da China mais do que exportam); e a China prejudicaria os americanos com exportações baratas, inclusive com a prática de desvalorizar sua moeda, o yuan, para derrubar os preços das exportações.

A Huawei e outras empresas de tecnologia, como a ZTE, são parte da guerra. Elas já estavam banidas de órgãos do governo americano: as agências federais deverão substituir os equipamentos chineses até 2020. Isso afetou diretamente o consumidor final: as operadoras dos Estados Unidos cancelaram o lançamento de celulares da Huawei, e varejistas como a Best Buy interromperam as vendas dos aparelhos.

As acusações contra a Huawei

É claro que muitas empresas chinesas vendem produtos nos Estados Unidos, mas a Huawei tem sofrido mais com as acusações do governo americano: a empresa foi fundada por Ren Zhengfei, ex-engenheiro do Exército de Libertação Popular da China; ela teria recebido ajuda do governo chinês para sua expansão internacional; e redes montadas com equipamentos da empresa tinham “relatos de incidentes estranhos ou alarmantes”.

Meng Wanzhou, diretora financeira da Huawei (Foto: CNN)

Meng Wanzhou, diretora financeira da Huawei (Foto: CNN)

A diretora financeira Meng Wanzhou, que é filha do fundador da Huawei, foi presa no Canadá em dezembro de 2018 a pedido dos Estados Unidos. Wanzhou supostamente participou de uma conspiração para fraudar instituições financeiras e fazer negócios com o Irã, violando as sanções americanas — para se ter uma ideia do embargo, a Nike, por exemplo, não pode nem fornecer chuteiras para a seleção iraniana de futebol. A executiva foi solta em liberdade condicional após pagar fiança de US$ 7,5 milhões.

A operadora britânica Vodafone, a maior da Europa, admitiu em abril de 2019 que encontrou backdoors em roteadores domésticos e equipamentos de infraestrutura de rede fornecidos pela Huawei. Após a repercussão, a Vodafone esclareceu que as brechas teriam sido corrigidas em 2012 e que não houve registros de acesso não autorizado a seus sistemas.

Android Q - Tema escuro

Google interrompeu acesso da Huawei ao Android Q

Na semana passada, o presidente Trump assinou uma ordem de emergência nacional que proíbe empresas americanas de negociarem com companhias que podem trazer riscos à segurança do país. Na prática, isso significa que nomes como Google, Intel e Qualcomm não podem fornecer componentes para a Huawei, a não ser sob autorização do governo (o que dificilmente acontecerá, dadas as circunstâncias).

Huawei responde (e processa governo Trump)

Em resposta aos banimentos, a Huawei processou o governo Trump. Para o chairman Guo Ping, “o Congresso dos Estados Unidos nunca conseguiu apresentar nenhuma prova que justifique as suas restrições aos produtos da Huawei”. Segundo o executivo, “essa proibição não só é ilegal como impede a Huawei de competir em condições de igualdade, o que também acaba prejudicando os consumidores americanos”.

O CEO e fundador Ren Zhengfei não costuma dar muitas entrevistas, mas abriu uma exceção em fevereiro de 2019. Ele defende que a prisão de Wanzhou é um “ato com motivação política” e que os Estados Unidos “não têm como destruir” a companhia. O executivo prometeu migrar os investimentos da Huawei “em uma escala ainda maior” para o Reino Unido, que decidiu não seguir as sanções americanas.

Zhengfei negou todas as acusações do governo americano e também soltou uma frase que pode ser guardada para o futuro: “Nossa empresa nunca vai participar de qualquer atividade de espionagem. Se tivermos esse tipo de atividade, então eu fecharei a empresa”.

Os impactos no mercado global de telecom, celulares e PCs

Antena de celular

Temos o seguinte cenário neste momento: a Huawei é a maior fornecedora de infraestrutura de operadoras do mundo; as operadoras estão expandindo o 4G a todo vapor e preparando suas instalações para o 5G; e os Estados Unidos ameaçam restringir o compartilhamento de informações de inteligência caso os países aliados adotem equipamentos da Huawei.

Não é difícil concluir que a implantação do 5G no mundo ficará ameaçada caso as sanções americanas surtam efeito — Austrália e Nova Zelândia já seguiram as restrições dos Estados Unidos, inclusive. Primeiro porque haveria menos concorrência, o que jogaria uma parte significativa da demanda de infraestrutura de redes para a Ericsson e a Nokia, consequentemente elevando os custos em um mercado que deve atingir US$ 277 bilhões em 2025.

Segundo porque há dúvidas se Ericsson e Nokia realmente conseguem atender à demanda. É óbvio que as três gigantes estão investindo fortemente em 5G, mas a dupla europeia não teria atingido a mesma maturidade tecnológica dos chineses. Especialmente a Ericsson, que passou por uma situação financeira complicada, com prejuízo operacional e demissões em massa.

Huawei P30 Pro, recém-lançado no Brasil

Huawei P30 Pro, recém-lançado no Brasil

Para o consumidor final, o impacto deve ser sentido nos celulares, mercado em que a Huawei é vice-líder, mesmo sem vender nos Estados Unidos. A Huawei até consegue sobreviver sem o Google na China, onde os serviços do buscador já são bloqueados. Mas, no ocidente, é difícil imaginar o surgimento de uma alternativa viável à Google Play Store no curto prazo.

O mercado de PCs também é afetado, ainda que em escala menor, já que a Huawei não tem participação significativa no setor. Não tem como montar um computador sem um sistema operacional e sem um processador. O Windows é da Microsoft, e os chips ou são da Intel ou da AMD. Todas são empresas americanas, agora proibidas de fornecer componentes para a Huawei.

Próximos capítulos: o que ainda precisa ser respondido

Se apenas os Estados Unidos banirem os equipamentos de infraestrutura de rede da Huawei, o problema não deve ser tão grande, mas há aliados envolvidos. O Reino Unido decidiu permitir que a Huawei operasse no país, dizendo que os riscos são controlados, mas a Austrália e a Nova Zelândia não. E os países europeus estão sob pressão dos americanos para impedirem o crescimento da Huawei.

Pensando em celulares, a Huawei não se cansa de dizer que tem um plano B: ela está desenvolvendo seu próprio sistema operacional para adotá-lo caso não possa mais trabalhar com o Google. A verdade é que, como o Android tem código aberto, o sistema operacional é o que menos importa aqui — o ponto mais crítico é o ecossistema do Google, incluindo os mais de 2 bilhões de apps da Play Store.

Como a Huawei resolveria o problema da falta de uma loja de aplicativos móveis para o ocidente? Se a Microsoft, com US$ 1 trilhão de valor de mercado e dona do sistema operacional com 87% de participação nos PCs, fracassou depois de anos tentando, é complicado pensar que a Huawei conseguiria esse feito — ainda mais sendo atacada de todos os lados.

No plano político, é fácil pensar que a China poderia simplesmente retaliar os Estados Unidos, impedindo negociações com empresas americanas, que produzem a maior parte de seus produtos em fábricas chinesas. No entanto, isso também poderia criar desempregos na China e uma recessão a nível mundial, não local, considerando o tamanho e a influência dos dois países.

O momento atual da história deixa mais dúvidas do que esclarecimentos — e o futuro envolve mais do que um único país ou empresa.

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Jairo ☠️

Saudades do symbian ^3

Celso

Sailfish OS sempre prometeu muito, e nunca passou disso: uma promessa.
O mesmo se aplica ao KDE Plasma Mobile, que parece que nem saiu do nicho de desenvolvedores, ainda.

E nessas horas que se lamenta (ou deveria lamentar) o fim do Windows Phone e do MeeGo (o Tizen OS só está indo bem em smart watches e smart TVs, e o Sailfish OS, na versão 3, e nada).
Talvez, até do Symbian.

Lairton Gomes

em tvs, só

Lairton Gomes

Como ter fair play quando a china ajuda empresas locais com transferência de tecnologia forçada, crédito subsidiado através de bancos estatais, protecionismo, desvalorização da moeda, roubo de propriedade intelectual, etc?

Lairton Gomes

Sem motivo nenhum? A China pagava a deputados australianos para falarem bem do partido comunista chinês

Lairton Gomes

Na verdade, a guerra comercial é uma das únicas coisas que unem republicanos e democratas

Lairton Gomes

várias fábricas já estão saindo da china, antes mesmo da guerra comercial, por causa que o salário médio chinês subiu. Vale mais a pena construir fábricas no vietnam ou taiwan, onde a mão de obra é mais barata

Paulo F.

Os EUA não estão a impor nada, como já disse eles têm todo o direito de não querer que lhes façam o mesmo que eles fazem aos outros, é imoral mas é assim a vida, e além da questão fulcral a espionagem e possivelmente meios de sabotagem em larga escala do aparelho militar e económico americano pois irão ser milhões de terabytes a "andar por ai", há o querer não ceder a posição dominante na tecnologia, e na economia mundial.

PS:E ao contrário do que alguns querem demonstrar, isto tem o apoio total da casa dos Representantes, tanto Democratas como Republicanos apoiam a decisão. Incisive a Google não tem pruridos nenhuns em boicotar uma empresa de um país que não a deixa ter lá a Playstore, mas isso parece nem incomodar muito os, agora defensores da livre concorrência.

Silvio Ney

Sim, há o lado da espionagem, mas o que os EUA tem feito é acusar a Huawei sem expôr as provas, talvez por não haver ou por estratégia.

Contrário ao que aconteceu no caso NSA em que espionavam diversos países comprovadamente e não deu em nada.

Porque seria "cool" os EUA espionar tudo e todos mas se a China o fizer é pior?

Vejo os dois como errados e por isso acho totalmente errado "fuzilar" a Huawei e os EUA ficar como bom samaritano. Se é pra pesar pra um espião, é pra pesar pra todos.

Sabe o que acho errado? Um país ser detentor de tanta tecnologia e tentar impôr aos demais o que é seguro ou não (o que depende do interesse dos EUA)

Alex Siqueira

Está parecendo uma "guerra fria", isso sim.

Em relação a Ericsson, o presidente para Europa e América Latina soltou o comunicado indicando haver um equívoco em relação à imagem, maturidade e capacidade da mesma:

https://www.linkedin.com/fe...

Interessante para saber os dois lados. Em relação à Nokia não vi.

Romulo Vasconcellos

TSMC não é chinesa. É uma empresa de Taiwan, país que a China sonha diariamente em invadir mais nunca teve coragem.

Romulo Vasconcellos

Samsung tá só sorrisos. Vão dar sistema nenhum. Vão é abocanhar parte do mercado da Huawei.

Romulo Vasconcellos

Seria entregar uma motivação no colo do Trump pra ele pedir aos demais países ocidentais para banir a Huawei pelo mundo.

Henrique Carvalho

Android é Android, basta instalar por fora.
O problema é que saindo de fábrica sem absolutamente nenhum serviço, implica nas vendas, pois somente usuários mais avançados conseguiriam fazer esse tipo de instalação.

Henrique Carvalho

Ainda que fosse, ano que vem não tá logo ali, dentro do ponto de vista tecnológico, é muito tempo! Até lá os aparelhos da Huawei já despencaram e perderam o brilho, a estratégia de romper laços e enfraquecer a marca ainda vai continuar efetiva.

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