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Nokia 2.3: jogando as fichas na marca

Celular de reestreia da Nokia no Brasil custa R$ 899 e tem muitos acertos, mas decepciona em pontos-chaves

A marca da Nokia não estampava um novo celular no Brasil desde 2014, quando a empresa apostava as últimas fichas no Windows Phone, já na gestão da Microsoft. Seis anos depois, a fabricante, que nunca sumiu da cabeça do brasileiro devido aos anos seguidos de liderança, ouviu os pedidos nostálgicos: sob nova direção, mas ainda com raízes finlandesas, a Nokia voltou ao país com um celular básico, o Nokia 2.3.

O primeiro passo da nova Nokia no Brasil é um smartphone com tela de 6,2 polegadas, design colorido e números que não impressionam, mas que aposta em uma faixa de preço popular, de R$ 899. A Nokia também promete atualizações garantidas de Android por dois anos em um aparelho de entrada para reconquistar o público. Mas será que ele é bom mesmo? Eu conto tudo nos próximos minutos.

Análise do Nokia 2.3 em vídeo

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Nenhuma empresa, fabricante ou loja pagou ao Tecnoblog para produzir este conteúdo. Nossos reviews não são revisados nem aprovados por agentes externos. O Nokia 2.3 foi fornecido pela Nokia por doação. O produto será usado em conteúdos futuros e não será devolvido à empresa.

Design e tela

Os novos celulares da Nokia não são desenvolvidos propriamente pela Nokia, mas pela HMD Global, uma empresa finlandesa que comprou os direitos da marca por 10 anos. No Brasil, fica claro que a força de vendas não é a mesma, já que a distribuição no varejo foi terceirizada para a Multilaser. No entanto, muitos executivos com décadas de experiência na velha Nokia migraram para a nova companhia.

O esforço para manter a essência da marca é explicitado no design: o Nokia 2.3 é um celular quadradão, com cantos secos, sem muita invencionice e com cores vibrantes. É um design que simplesmente funciona: não tem nenhum material sofisticado, mas está longe de denotar um celular de baixa qualidade.

O Nokia 2.3 tem o mínimo que se espera de um aparelho de entrada. Alguns detalhes fogem do padrão: ele possui um botão dedicado para o Google Assistente (que eu apertei algumas vezes por engano nos primeiros dias) e traz uma porta Micro USB, o que é uma pena em épocas de transição. O principal rival, o Moto G8 Play, já adota o USB-C. Esse ponto está indiretamente relacionado à bateria, como comento adiante.

Faltou um leitor de impressões digitais, um componente que já começou a desembarcar em celulares básicos nas concorrentes, mas que ficou de fora no Nokia 2.3. Esse não seria um problema tão grande se a alternativa, o reconhecimento facial, fosse bom: ele demorou e falhou tantas vezes que eu sempre acabava digitando a senha quando precisava desbloquear o aparelho.

A tela LCD do Nokia 2.3 tem 6,2 polegadas e boa qualidade dentro da categoria. A resolução HD+ é suficiente para ver fotos, ler artigos ou assistir a vídeos com definição mais que satisfatória. O preto é profundo, dentro dos limites da tecnologia, o que também resulta em um bom contraste. E o brilho permite enxergar o conteúdo da tela mesmo sob a luz do sol, ainda que exigindo um pouco de esforço.

Software

O Nokia 2.3 saiu de fábrica com Android 9, mas o Android 10 desembarcou logo nos meus primeiros dias de teste. A Nokia usa as atualizações garantidas como argumento de venda e promete novas versões de sistema até dezembro de 2021, o que significa que pelo menos o Android 11 está no pacote. E as correções de segurança mensais estão confirmadas até o final de 2022.

Se considerarmos que mesmo a Motorola, que chegou a ser referência nesse ponto, não se compromete mais publicamente com atualizações de sistema na linha Moto G, esses são bons atrativos oferecidos pela Nokia, ainda mais em um celular dessa faixa de preço, que em outras marcas seria rapidamente esquecido.

O sistema operacional do Nokia 2.3 tem uma interface limpa, sem grandes modificações em relação ao Android do Google. Ele vem de fábrica com os aplicativos obrigatórios da gigante das buscas e traz só um extra, o My Phone, que centraliza as ferramentas de suporte da Nokia e informa sobre a saúde do aparelho, com dados de temperatura, situação da bateria e uso de memória.

Eu já fui do time do Android puro, mas hoje reconheço as qualidades da interface bem projetada da Samsung e alguns diferenciais do Android personalizado da Huawei. Por outro lado, não gastar tempo em recursos mirabolantes sempre é um caminho mais seguro para a fabricante (e o Nokia 2.3 entrega uma experiência de software boa, sem surpresas).

Câmeras

Nas câmeras, o Nokia 2.3 mostra números pouco impressionantes. Para as selfies, temos um sensor de 5 megapixels e uma lente com abertura pequena, de f/2,4. Atrás do aparelho existem dois sensores: a câmera principal de 13 megapixels e uma secundária para detectar profundidade. São especificações que não enchem os olhos em uma primeira olhada e que realmente não se sobressaem na hora do “vamos ver”.

Mesmo para um aparelho de entrada, a Nokia poderia ter caprichado muito mais. Aqui, estou me referindo tanto à qualidade das imagens quanto à experiência de fotografia: tirar fotos é decepcionante (e irritante) porque o aplicativo trava com frequência. Se você capturar uma foto e logo depois tentar visualizá-la, pode esperar: o Nokia 2.3 vai engasgar. Isso aconteceu tanto com o software de fábrica quanto depois da atualização para o Android 10.

Já sobre a qualidade das fotos, elas são apenas medianas. As selfies pecam na definição, um problema que é agravado quando a iluminação não é das melhores. Também existe uma perda de nitidez fora do centro que evidencia a qualidade menor da lente. É óbvio que você não vai encontrar câmeras frontais incríveis em celulares básicos, mas o Nokia 2.3 decepciona mesmo entre seus pares.

A câmera traseira também não ajuda a melhorar a primeira impressão. Primeiro porque, enquanto concorrentes já adotam lentes ultrawide como chamarizes em seus modelos básicos, a Nokia resolveu ficar só no feijão com arroz. Isso não seria um problema se os poucos ingredientes fossem de qualidade acima da média, mas não é o que acontece.

Com bastante iluminação, o Nokia 2.3 reflete a menor qualidade do conjunto óptico, com perda de definição nas bordas e ruído em áreas de sombra. Como a Nokia decidiu seguir por um caminho mais natural, sem saturar as cores, o resultado também não impressiona os olhos. Em ambientes internos, mas ainda com entrada de luz, a nitidez sofre muito com o pós-processamento, que tenta remover o ruído a todo custo.

Em fotos noturnas, o ruído não aumenta tanto, mas a definição vai por água abaixo. Ainda assim, o resultado fica dentro do esperado para um aparelho dessa faixa de preço — pelo menos em termos de qualidade de imagem, já que as engasgadas no processamento da foto não deveriam acontecer mesmo nesse caso.

Para uma marca que já foi referência em fotografia no celular, o Nokia 2.3 bem que poderia ter uma câmera um pouquinho mais caprichada.

Hardware e bateria

Aqui chegamos ao ponto crítico: o desempenho. As travadinhas no aplicativo de câmera eram um sinal de que algo estava errado, e o Nokia 2.3 confirma isso no dia a dia. A Nokia optou por um conjunto de memória dentro da média, com 2 GB de RAM e 32 GB de armazenamento, mas o processador ficou abaixo: é um MediaTek Helio A22 quad-core, que parece ser um ponto de gargalo no aparelho.

O Nokia 2.3 por vezes mostra uma certa falta de fôlego ao abrir aplicativos rotineiros, como Chrome e YouTube. A impressão é que o multitarefa não está otimizado, já que o ato de alternar entre aplicativos abertos deixa o celular pensando um pouco e causa travamentos nas animações da interface. De novo: em comparação com o Moto G8 Play, que está na mesma faixa de preço, mas tem um processador mais potente, a diferença é notável.

É possível rodar jogos com os gráficos na qualidade mínima e aproveitar redes sociais e aplicativos de mensagens, como Facebook, Instagram e WhatsApp, mas sempre exigindo uma dose de paciência e compreensão por parte do dono. O problema é que o nível de desempenho do Nokia 2.3 seria esperado em um aparelho na casa dos 500 ou 600 reais, mas não de R$ 899.

Já a bateria de 4.000 mAh dura bem. Aqui, vale lembrar que eu não consegui fazer um teste de dia normal, com bastante consumo de mídia em 4G e movimentação entre torres de celulares porque, como sabemos, não estamos em dias normais.

Mas, em um teste padrão com 3 horas de vídeo na Netflix com brilho máximo na tela, 1 hora de redes sociais e navegação na web e 30 minutos de Asphalt 9: Legends, a bateria foi de 100% para 54%. É um bom resultado, que indica que o Nokia 2.3 deve aguentar o dia inteiro para a maioria das pessoas (ou até dois dias em alguns casos) quando o mundo sair da pandemia.

Só o tempo de recarga decepciona. A Nokia envia um carregador da Multilaser de apenas 5 watts, sendo que já é normal vermos adaptadores com o dobro da potência no segmento de entrada. Com isso, o Nokia 2.3 demora longas 4 horas para ser completamente abastecido com o carregador padrão. Isso só não chega a ser um ponto negativo porque, em condições normais, você não precisaria recarregar o celular no meio do dia.

Nokia 2.3 vale a pena?

Eu esperava ansiosamente pelo retorno da Nokia — e muitos brasileiros também, uma vez que a marca estampou o primeiro celular de muita gente. Lembro que, em 2018, quando a HMD Global era uma estreante, estive em Barcelona cobrindo a feira MWC e já existia uma forte expectativa por parte dos leitores do Tecnoblog de quando os finlandeses voltariam ao país. Então, é claro que tive um sentimento nostálgico ao abrir uma caixa com o logotipo da Nokia impresso.

Porém, mesmo pesando as expectativas, colocando os pés no chão e considerando o segmento do aparelho, o Nokia 2.3 não é uma compra que faça sentido racionalmente, pelo menos no preço que foi lançado. A HMD Global acerta em alguns pontos, como o acabamento convincente, a tela de qualidade, a bateria que dura e um ativo que poucos têm (a nostalgia da marca), mas não conseguiu fazer um trabalho tão bom no desempenho e nas câmeras.

Os concorrentes diretos do Nokia 2.3 seriam o Moto G8 Play e o Galaxy A10. O modelo coreano definitivamente não se sobressai em bateria ou câmera, mas pode oferecer um desempenho um pouco melhor. O Moto G8 Play é o mais interessante, com um chip superior da MediaTek, bateria tão boa quanto e câmeras que, se não impressionam, pelo menos não chegam a decepcionar (fora o leitor de impressões digitais mais rápido e confiável que o reconhecimento facial do Nokia 2.3).

Nós estamos em uma época difícil, na maior crise de saúde do último século, em que tudo tende a aumentar de preço, principalmente os eletrônicos. A Nokia começou atrás na disputa do mercado brasileiro, em parte devido ao fato de o aparelho ser importado, sofrendo mais com a variação cambial. Mas todas as fabricantes (e mais importante: todos os consumidores) terão dificuldades em meio à crise.

Eu cogitaria recomendar o Nokia 2.3 em uma boa promoção para quem só precisa do básico, mas, na situação atual, ele não vai muito além de um produto para fãs da marca que aflora sentimentos bons do passado.

Especificações técnicas

  • Bateria: 4.000 mAh com carregamento de 5 watts
  • Câmera frontal: 5 megapixels (f/2,4)
  • Câmeras traseiras:
    • Principal: 13 megapixels (f/2,2)
    • Sensor de profundidade: 2 megapixels
  • Conectividade: 3G, 4G, Wi-Fi 802.11a/b/g/n, GPS, Glonass, BeiDou, Bluetooth 5.0, Micro-USB
  • Dimensões: 157,7×75,4×8,7 mm
  • GPU: PowerVR GE8320
  • Memória externa: entrada para cartão microSD de até 512 GB
  • Memória interna: 32 GB
  • Peso: 183 gramas
  • Processador: quad-core MediaTek Helio A22 de até 2 GHz
  • Plataforma: Android 10 com atualização garantida para Android 11
  • RAM: 2 GB
  • Tela: 6,2 polegadas, HD+ (1520×720 pixels), notch em formato de gota, painel LCD

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