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As redes neutras podem mudar a internet no Brasil

Entenda como funciona o modelo comercial de rede neutra e como ele pode aumentar a concorrência de banda larga no Brasil

Lucas Braga Por

A reestruturação da Oi trouxe à tona o conceito de redes neutras para o cotidiano brasileiro. A operadora quer transformar toda a infraestrutura da Oi Fibra numa empresa aberta para outros provedores de internet. O modelo foi defendido por concorrentes como TIM e Vivo, que também planejam se aventurar no formato.

Esse tipo de rede permite que diversas operadoras atuem com uma mesma infraestrutura, o que permitirá otimizar os investimentos e aumentar a concorrência de internet banda larga no Brasil.

O que são as redes neutras?

O Tecnoblog conversou com Rogério Takayanagi, vice-presidente de Estratégia e Transformação da Oi. Ele explica: “Redes neutras são redes que podem ser fixas ou móveis e que atendam vários operadores de telecomunicação de forma não discriminatória”.

Para o executivo, o formato lembra o compartilhamento das torres de telefonias móveis, que é amplamente adotado no Brasil, defendido pelas operadoras e incentivado pela própria Anatel. “Este tipo de compartilhamento (…) ajudou a comprovar o valor do modelo para o setor”.

Na prática, um operador neutro habilita que várias companhias utilizem a mesma infraestrutura, que pode ser fibra óptica, cabos metálicos, redes móveis e até mesmo satélite. Uma empresa interessada em se tornar um provedor de internet pode simplesmente alugar a capacidade dessa rede e cobrir cidades inteiras sem gastar um centavo com rede própria.

Exemplo de rede neutra (Imagem: Henrique Pochmann/Tecnoblog)

Para o consumidor final, o serviço é transparente e o usuário nem precisa saber que está conectado em uma rede neutra. Todo o atendimento, desde a instalação até o suporte técnico é feito pela operadora contratada. Várias empresas conseguem operar no mesmo cabo graças a tecnologias como VLANs, que permite a criação de redes virtuais na camada de enlace.

É importante lembrar que as redes neutras são completamente distintas das operadoras virtuais, que as companhias-mãe revendem a infraestrutura existente sem o controle e gerência de rede. “As redes neutras se caracterizam por fazer altos investimentos na infraestrutura de telecomunicações e vender esta capacidade para vários ‘inquilinos’. Desta forma, não só consegue ter acesso a capital de forma mais econômica, mas também uma otimização do uso da infraestrutura construída”, afirma Takayanagi.

As grandes operadoras precisam de fibra

A demanda por internet fixa é crescente no Brasil. Dados da Anatel de agosto de 2020 mostram que o país possuía 34,3 milhões de acessos de banda larga. No mesmo período do ano anterior, eram 32,9 milhões de modens e em 2018 tínhamos 30,8 milhões de contratos.

Os acessos cresceram consideravelmente graças aos pequenos provedores, que desempenharam um papel importantíssimo para a popularização de fibra óptica no Brasil. Em 2018, 18,6% de todas as conexões no país utilizavam o formato FTTH; em 2019, o número saltou para 31,5%, e agora a fibra óptica já atinge 41,3%.

Só que as grandes operadoras ainda não conseguiram atingir o mesmo patamar de fibra: em 2018, Claro, Oi, TIM, Vivo e Algar tinham apenas 10,9% de acessos com fibra; em 2019, o número saltou para 19,2%, enquanto em agosto de 2020 são 27,5% de conexões FTTH.

Parece uma alta grande, mas esse número está inflado pelas desconexões do cobre: juntas, essas grandes operadoras perderam quase 5 milhões de clientes de banda larga fixa com tecnologia legada entre 2018 e 2020.

A Oi já entende que as velocidades oferecidas no cobre não atendem às expectativas do consumidor, parou de vender novos acessos com tecnologia xDSL e concentra quase todos os esforços na construção da rede de fibra. A Vivo também tem feito a sobreposição da rede de cobre nas áreas da GVT e da Telefônica de São Paulo, mas de forma bem lenta.

Equipe da Oi construindo rede da Oi Fibra. Foto: Lucas Braga/Tecnoblog

Equipe da Oi construindo rede da Oi Fibra em Belo Horizonte. Foto: Lucas Braga/Tecnoblog

A única grande operadora que está numa posição “confortável” é a Claro, que usa cabos coaxiais na maioria dos municípios. A tecnologia adotada permite entregar velocidades de download equiparáveis às de fibra óptica graças ao padrão DOCSIS 3.1, mas com o ônus de velocidades de upload baixas e interferências eletromagnéticas, que não ocorrem na fibra. A própria empresa já adota fibra nas localidades entrantes — e não duvido que num futuro distante passe a atender as regiões mais rentáveis de grandes cidades com FTTH.

De qualquer forma, as grandes operadoras precisam da fibra para conter a queda nos acessos e continuarem relevantes no mercado de telecomunicações. A adoção do modelo de redes neutras dão chance para as companhias maximizarem seus investimentos, seja aumentando a ocupação das portas de fibra ou alugando a infraestrutura neutra de outras empresas.

O CEO da TIM, Pietro Labriola, disse em entrevista coletiva que a empresa já tem mais de 20 acordos de não-divulgação para construção de rede neutra. “Tem parceiro puramente financeiro e parceiro industrial”, comentou o executivo ao diferenciar investidores e empresas de infraestrutura. No passado, o executivo não descartou que a TIM se torne cliente da InfraCo — ou seja, a operadora poderia alugar a infraestrutura neutra da Oi para chegar a mais clientes.

As redes neutras otimizam o investimento

As redes neutras trazem vantagens, tanto para a dona da infraestrutura quanto para quem aluga. Takayanagi afirma que a adoção do modelo neutro permite uma redução de custos para todos os envolvidos: “Isso permite a companhia destravar seus investimentos, atrair novos investidores, acelerar o capex e a expansão da rede de fibra”.

O executivo também aponta que a expansão do serviço deve contribuir para a inclusão digital no país. “Através desse modelo, reduzimos investimentos redundantes nas redes de transporte. Com isso, os prestadores de serviço podem focar seus investimentos e atenção no seu serviço core. Acredito que teremos uma melhor competição com maior qualidade e preços competitivos”, afirma Takayanagi ao Tecnoblog.

É certo que com mais concorrência, a rede ficaria mais “cheia”. Ao ser questionado sobre como a experiência do usuário pode ser comprometida, Takayanagi afirma que os critérios de dimensionamento devem sempre prever a demanda.

“A ideia de ter uma maior ocupação é diminuir a ociosidade, buscar sinergia nos investimentos e não de ocupar as redes além de suas capacidades. Por exemplo, ao invés de lançar dois cabos de fibra óptica ao longo de uma rodovia, você pode lançar apenas um e colocar um equipamento mais potente nas pontas para atender mais de um cliente”, afirma o executivo.

Resolvendo problemas urbanos

Uma hipotética adoção massiva de redes neutras poderia solucionar alguns problemas urbanos, como a grande bagunça gerada pelos cabos dos postes de energia. Por aqui, é importante ressaltar que as concessionárias de energia são as donas desses postes, que são alugados para operadoras pendurarem seus cabos de telecomunicações.

As normas da Aneel permitem que cada poste tenha uma faixa de 50 cm para acomodar até cinco pontos de fixação para serviços de telecomunicações. Só que há locais onde uma única operadora extrapola sozinha a capacidade permitida, e também há regiões onde existem mais de cinco provedores de internet.

Um monte de cabos de telecomunicações pendurados num poste de energia

Esse é um poste comum de Belo Horizonte, que nem está tão cheio. Complicado, né? (Imagem: Lucas Braga/Tecnoblog)

Com postes tão cheios, novas operadoras encontram dificuldades para instalarem sua infraestrutura, uma vez que a companhia de energia não irá alugar seus postes enquanto as empresas atuais extrapolam a capacidade máxima. É por isso que vários pequenos provedores utilizam os postes de forma irregular e já tiveram seus cabos cortados.

Com várias operadoras dividindo os mesmos cabos de fibra óptica, seria possível remover diversos fios dos postes de energia. Por sinal, essa é a sugestão da Superintendência de Competição da Anatel, que sugere um operador neutro para lidar com ocupação desses postes. Caso contrário, a agência estima um custo de R$ 20 bilhões para reordenar os cabos de telecomunicações em 1,4 mil cidades do Brasil.

Redes neutras em outros países

Para virar um provedor neutro, a Oi decidiu adotar a separação estrutural da empresa. A InfraCo será a unidade produtiva isolada responsável pela construção e gerenciamento da rede de fibra, enquanto a ClientCo será a dona dos clientes da operadora. Rogério Takayanagi disse que Oi se inspira em operadoras de países como Austrália, Índia, Itália, Reino Unido e Tchéquia.

No entanto, a separação estrutural de uma operadora já existente não é o único formato existente. É possível criar uma rede neutra do zero, sem companhias telefônicas envolvidas, na qual o provedor ou o próprio cliente paga o aluguel da infraestrutura de fibra.

Fibra Óptica iluminada. (Imagem: Visor69/Pixabay)

Fibra Óptica iluminada. (Imagem: Visor69/Pixabay)

Na Itália, a Open Fiber é uma empresa agnóstica que leva infraestrutura óptica para centenas de cidades e atende mais de 150 diferentes provedores de internet. Nem todos estão disponíveis em qualquer município, mas cada empresa tem diferentes planos, valores e qualidade de acesso. A fibra atualmente suporta velocidades de até 1 Gb/s para o consumidor final.

Outro exemplo interessante é a Utopia Fiber, que atua nos Estados Unidos em localidades selecionadas do estado de Utah. A empresa cobra mensalidade de 30 dólares do cliente de banda larga que quer utilizar a rede. O acesso à internet é cobrado separadamente pelo próprio provedor. Cada operadora tem seu próprio preço, qualidade de acesso e serviços adicionais, que oferecem velocidades de 250 Mb/s até 10 Gb/s.

Tecnocast 168 – A próxima revolução da banda larga

Tecnocast 168 – A próxima revolução da banda larga (Imagem: Leandro Massai/Tecnoblog)

Tecnocast 168 – A próxima revolução da banda larga (Imagem: Leandro Massai/Tecnoblog)

As redes neutras estão chegando e podem alterar radicalmente a internet banda larga no Brasil. O novo modelo comercial tem potencial para aumentar a concorrência, a penetração das operadoras e até resolver velhos problemas urbanos, como o acúmulo de cabos em postes. No episódio de hoje conversamos sobre como esse modelo funciona e a sua possível adoção no Brasil. Dá o play e vem com a gente!

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João Luiz G (@Joao_Luiz_Gomes_Silv)

O bom da rede neutra é que se o serviço no local é ruim, é ruim para todo mundo rsrs

Lucas Braga (@LucasBraga)

Não necessariamente.

A última milha é compartilhada, mas cada operadora tem seu próprio backhaul, com suas respectivas características, vantagens e desvantagens.

@bkdwt

Se o Brasil fosse um país em que os cabos passassem pelo subterrâneo, esse problema de locação dos postes não ocorreria.

E sobre a Claro, ela vai continuar apostando no DOCSIS até sabe-se lá quando e fibrando somente onde ela não opera.

Siebel (@Siebel)

A Claro/NET é a que menos expande a fibra e vai usar a rede de cobre até que os cabos esfarelarem de velhos.

Bruno (@Unknown)

Não entendi bem essa parte da diminuição de cabos no poste.
Nos postes aqui da rua tem diversos ‘grampos’ de conexão de fibra, um para cada cliente, no final fica o mesmo amontoado de cabo de sempre.

Jefferson Rodrigues (@Jefferson_Rodrigues)

A operadora de energia não poderia instalar postes só para uso das operadoras de Internet?

Everton Favretto (@evefavretto)

Outro exemplo é a Openreach, no Reino Unido, apesar que ela existe por imposição legal. Ela mantém a rede física até os clientes e os armários, mas os serviços são oferecidos por diversas empresas, incluindo a BT, que é ultimamente a dona da Openreach (e, portanto, não tão neutra assim).

Bruno Cabral Peixoto (@Bruno_Cabral_Peixoto)

Depois da fibra, não volto pra internet a cobre de jeito nenhum.
Fibra é outro mundo. Vc até esquece que esse é um país sub-desenvolvido.

Ian Carlos (@IanCarlos)

fiação via poste em si já é um meio falho e atrasado que só. subterrâneo seria bem melhor.

imhotep (@imhotep)

Não. Há regras urbanisticas a se cumprir.

Leandro Alves (@KILLME)

A solução ideal seria separar por feixe de luz como no DWDM, pena que não temos algo para atender a ultima milha com essa tecnologia. Outra opção seria seguir o modelo da Utopia nos EUA utilizando ethernet em vez de xPON. Aí seria uma fibra dedicada para cada cliente.

Felipe Silva (@Felipe_Silva)

Se não dividirem a capacidade de cada fibra e sim o cabo como um todo vejo potencial na solução, em vez de passarem 10 cabos de 4 fibra passa 1 só de 40 fibras, cada grupo de fibra é de uma operadora.

Felipe Silva (@Felipe_Silva)

Imagino que coisas assim se façam contratos muito longos, tipo 10 anos, ai perto de vencer se a empresa tenta dar o golpe os outros pulam fora e passam a sua própria fibra.

Alberto Prado (@Alberto_Prado)

A medida que houver a migração do cobre para a fibra, muita cabo velho e grosso de cobre irá sair. Fora que se vc tiver um demanda grande em um lugar, tipo um prédio, ele podem coloca somente um splitter óptico que servirá a todas as operadoras. Antes teria que ter um para cada uma que fosse servir o prédio. Se não me engano tem splitter 1x64 até. Imagina, chega duas fibras de maior capacidade e coloca 2 splitters e já serviriam um prédio médio de 4 por andar.
O mesmo vale para a rua. Só tá assim pq não é todo mundo que tá migrando, até o splitter fica a 100 metros rua acima e eles vem puxando fibra até a sua casa pq não vale a pena coloca um novo só atender você. Mas assim que tiver mais pessoas ao seu redor, ele puxam um fibra nova e põe um splitter na frente.

Felipe Silva (@Felipe_Silva)

E como evitar que uma operadora sature a fibra e degrade o sinal de todas?

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