Galaxy: Samsung aposta em mais memória e descarta dar itens de graça

Exclusivo › Confira a entrevista com Gustavo Assunção, vice-presidente de dispositivos móveis no Brasil. Executivo diz que “Flip 5 é um S23 que dobra”.

Thássius Veloso
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Pessoa segurando um smartphone em cada mão
Flip 5 e Fold 5 fazem parte da nova geração de celulares dobráveis (Imagem: Thássius Veloso/Tecnoblog)

Os novos celulares dobráveis Galaxy Z Flip 5 e Galaxy Z Fold 5 serão vendidos no Brasil com o apelo adicional da maior memória interna. O chamado double storage será uma das estratégias adotadas pela empresa para promover os dispositivos, que foram anunciados nesta semana na Coreia do Sul. Por outro lado, a Samsung não vai dar itens de graça. Lembra das promoções em que a pessoa pegava um Galaxy e ganhava um relógio? Esquece. Isso acabou, de acordo com Gustavo Assunção, vice-presidente da divisão de dispositivos móveis da Samsung Brasil.

Eu conversei com o executivo pouco antes do lançamento global. Em resumo: o Flip custa a partir de R$ 7.999 e o Fold, a partir de R$ 13.799. Na longa entrevista exclusiva, Gustavo traça o panorama do mercado de smartphones dobráveis. Ele fala abertamente das lições aprendidas com o tempo e também opina sobre a pressão da concorrência. Em dado momento, diz que o Flip rouba usuários de marcas rivais. Gustavo não menciona nomes, mas todo mundo na indústria sabe que alguns clientes de iPhone migram para aparelhos da linha Galaxy Z.

Confira o papo abaixo. Ele foi editado para fins de clareza e brevidade.

Thássius Veloso – De que forma a Samsung identificou os gargalos presentes nos smartphones dobráveis?

Gustavo Assunção – A gente olhou todos os reviews que foram publicados no lançamento das linhas Z3 e Z4 para entender pontos de melhoria. O comentário mais comum era de que os produtos entregavam design superbacana, mas perdiam em qualidade de câmera, bateria e processador quando comparados com a série Galaxy S. Todos estes pontos foram endereçados no Galaxy Z Flip 5 e no Galaxy Z Fold 5. Eu costumo brincar que o novo Flip é um S23 que dobra. Ele traz o mesmo processador, mesma câmera e bateria equivalente.

Homem de óculos, de braços cruzados, sorri em retrato
Gustavo Assunção é vice-presidente da divisão de Mobile Experience na Samsung Brasil (Imagem: Divulgação/Samsung)

Quando a gente olha os números de vendas de celulares dobráveis, percebe que há crescimento, mas não necessariamente como se esperava lá atrás. Qual a sua avaliação deste cenário?

É natural que uma nova tecnologia tenha um tempo de maturação. Foi o que vimos com as linhas Z3 e Z4. Agora existe uma aposta maior nos modelos Z5 porque eles corrigem eventuais desconfortos que aconteceram nos modelos anteriores. No Z Flip 5, por exemplo, a possibilidade de entregar uma tela externa maior dá mais qualidade de uso para os consumidores. Este ponto é importante porque o produto fica mais convidativo. A gente percebeu que os usuários de Fold usam muito a tela externa, sem precisar abrir a tela interna maior. Queremos que o mesmo aconteça com o novo Flip.

Eu testei o Z Flip 4 e fiquei com a impressão de que a tela externa não proporcionava uma experiência digna de smartphone. Agora quero testar o Flip 5 com calma. Em princípio, esse é o diferencial?

Exatamente. Essa é uma grande melhoria do novo Galaxy Z Flip 5. Também repito o ponto do poder de processamento, um tema levantado pela imprensa logo que a gente lançou as gerações anteriores. Ainda corrigimos a bateria.

Qual a expectativa em relação às vendas do Z Flip 5? E como elas se comparam com o S23?

Nós não abrimos números estratégicos, mas eu diria que o crescimento esperado é da ordem de 3 vezes o que vimos no Flip 4. Este produto vem ganhando participação. Antigamente, o mix de produtos flagship da Samsung era composto de 10% de Flip 3 e 90% de Galaxy S21. Subiu para 20% na época do Galaxy Z Flip 4. O problema é que o Galaxy S23 vendeu muito bem, então ele subiu a barra para o Z Flip 5.

Eu tenho visto muitos movimentos da Samsung no sentido de vender o ecossistema Galaxy por meio de vouchers. Por outro lado, as pessoas comentam comigo que os valores são anunciados nas alturas e rapidamente caem. Quais mecanismos serão usados nessa nova leva?

Quando a gente lança um produto, oferece várias iniciativas de affordability com a ideia de deixá-lo mais acessível ao consumidor. Trade in é uma delas, então a gente aumenta o valor residual do novo aparelho por meio de um bônus. Quando você compra um produto do ecossistema Galaxy junto com o smartphone, você também tem um benefício que a gente chama aqui de buy more, save more. Quanto mais você compra, maior o desconto. Tem ainda os planos de assinatura e de aluguel de aparelho, que estão ficando muito comuns. A gente mantém parcerias com empresas de loyalty, que dão milhagens de companhias aéreas. O mercado está mais desafiador e todo mundo quer vender mais. Por isso nossos parceiros também criam condições comerciais mais favoráveis.

Você não acha que a pessoa pode ver o preço de lançamento e pensar “hmm, vou segurar mais um pouco porque daqui a pouco o preço cai mais”?

É possível. O que a gente tem percebido com as vendas é que a gente tem tido um crescimento significativo em smartphones. Infelizmente não posso abrir detalhes de share aqui, mas crescemos em torno de 20 pontos percentuais na categoria flagship, que custa acima de US$ 600. O Galaxy S23 foi muito bem aceito neste ano e a gente também manteve, por exemplo, o Galaxy S22 Ultra, algo que não fazíamos antes. A pessoa que quer um produto S mas não pode pagar pelo S23 agora tem acesso ao S21 FE, ao S22, até ao S22 Ultra. A sensação de que o preço está caindo pode ser resultado da maior oferta de produtos S.

Minha primeira entrevista contigo aconteceu em fevereiro, quando você falou pela primeira vez com um jornalista logo ao assumir a vice-presidência de Mobile Experience. O que você aprendeu nestes seis meses?

Eu vim para celulares depois de 11 anos na área de consumer electronics, que tem a TV como principal pilar. Este mercado é maduro, saturado e estável. Nosso desafio era criar novas tecnologias e inovações que encorajassem as pessoas a trocar de TV, geladeira e outros utensílios que têm um ciclo de vida mais longo. O smartphone está longe disso. Ele tem ciclo mais curto, mas ele vem aumentando. As pessoas vão ficando mais tempo com os celulares hoje.

Porque os dispositivos intermediários e flagship já são muito bons...

E é natural que agora as pessoas cobrem a atualização do sistema operacional por mais tempo. Quando um consumidor escolhe o Galaxy S ou o Galaxy Z, essa decisão é muito parecida com a escolha de um automóvel. Ele pensa no valor da revenda, que ainda não é bom. A Samsung está no momento de encorajar a renovação do parque de telefones móveis. É preciso entrar com mais incentivos. Nós optamos por repetir a estratégia do Galaxy S23, que foi anunciado simultaneamente com o evento nos Estados Unidos. Começamos a pré-venda em 26 de julho e seguiremos assim até 25 de agosto. O principal benefício é a memória em dobro porque fizemos isso no S23 e foi muito bem aceito.

Smartphone sobre apoio de madeira
Tela externa do Flip 5 aumentou de 1,9 para 3,4 polegadas (Imagem: Thássius Veloso/Tecnoblog)

Como vocês formularam essa mecânica?

Nós estudamos os dados internos e notamos que as pessoas utilizam todo o armazenamento e poucos consumidores mandam as imagens para a nuvem. Naquele momento, a gente entendeu que poderia estruturar uma oferta de lançamento. Existia até dúvida interna se seria bem recebido pelos consumidores.

Por que tinha dúvida disso?

Porque a gente sempre veio com promoções de Galaxy que envolviam acessórios de graça. Não vamos fazer mais isso. A gente optou pelo double storage, que significa dar mais armazenamento pelo preço mais baixo. O Z Flip de 256 GB passa a ter 512 GB sem mexer no preço, durante o período promocional.

Ainda vai ter smartphone com 128 GB?

Nós não vamos vender Flip 5 assim porque não queremos que ele seja um produto de nicho, normalmente associado a design. Trata-se de um smartphone robusto que entrega tudo que o consumidor deseja. E queremos coroar os consumidores que escolherem nosso ecossistema com 50% de desconto na compra do Galaxy Watch 6.

O double storage realmente encanta as pessoas. Ao menos é o que eu escuto dos leitores, seguidores nas redes etc. Mas eu preciso ser o advogado do diabo: tem gente que entende que, desta forma, a Samsung tem mais facilidade na cadeia de suprimentos. É verdade?

Não, porque a compra da cadeia de suprimentos é global. Na verdade, dificulta a situação porque nós temos que combinar este formato de oferta com todos os nossos parceiros comerciais, que vão receber somente um tipo de memória no primeiro momento. Depois, a Samsung tem que começar a entregar a segunda memória. Tivemos muita fricção interna com a chegada do Galaxy S23 com double storage. Aprendemos bastante.

Launcher da tela externa
Motorola Razr 40 Ultra tem tela de 3,6 polegadas (Imagem: Giovanni Santa Rosa/Tecnoblog)

Recentemente a Motorola lançou o Motorola Razr 40 Ultra com o destaque para a tela externa graúda, antes mesmo do lançamento do Z Flip 5 neste formato. Como vocês encaram este novo player? Até pouco tempo, a Samsung era sinônimo de dobrável aqui no país.

A Samsung dedicou oito anos de desenvolvimento até lançar o primeiro Fold. Até então ninguém apostava nisso. A gente vem construindo essa estrada dos dobráveis até aqui. O tempo mostrou que estávamos certos e eu encaro a concorrência como um fator natural. Nossos concorrentes não investiriam nisso se não vissem potencial. O mercado está crescendo e nós estamos atraindo novos consumidores para o Galaxy.

Vocês se preocupam com o que eles apresentaram até agora?

Nós temos muita confiança nos nossos produtos. Ter mais um concorrente muda nossa forma de atuar, mas nós acreditamos que contaremos com o prestígio da escolha do consumidor neste momento de lançamento.

Eu sei que vocês não falam da Apple. Ainda assim, queria saber se os celulares flagship da Samsung roubam usuários da concorrência?

A gente conversou no início do ano, logo que eu entrei aqui na divisão de smartphones, que naquele momento o mercado parecia muito desafiador. Ele continua assim, mas eu costumo dizer para o meu time que o mercado de telefonia não está caindo. A série S atrai usuários de outros ecossistemas e o mesmo acontece com o Flip porque o dobrável entrega o que nenhum outro produto tem. Estamos muito confiantes de que a gente vai continuar com essa trajetória. É por isso que a gente também está divulgando os outros produtos do ecossistema, como os recém-lançados Watch 6 e Tab S9.

Samsung Galaxy S23 Ultra tem AMOLED Dinâmico 2X (imagem: Paulo Higa/Tecnoblog)
Linha do Galaxy S23 Ultra fez sucesso no primeiro semestre (imagem: Paulo Higa/Tecnoblog)

Faz um ano que o 5G SA começou a chegar ao Brasil. Queria entender: quão importante está sendo essa tecnologia no momento em que o consumidor toma a decisão de compra?

Existe muito estímulo da indústria pela adoção do 5G e a Samsung é o protagonista nisso. As operadoras fizeram um bom trabalho de trazer a nova rede e os consumidores naturalmente são impactados por essa mensagem. Hoje em dia, a pessoa que quer trocar de celular busca pelo 5G. São clientes que têm a consciência de que vão ficar mais tempo com o aparelho. No Dia das Mães, por exemplo, nós tínhamos o Galaxy A14 em versões LTE e 5G. Este último modelo foi o mais procurado numa das datas mais importantes para nós.

Mesmo custando mais?

Mesmo custando mais caro. Houve muito estímulo para concretizar a venda nos canais da Samsung. A gente utilizou a campanha que dizia “Sua mãe merece Samsung na velocidade 5G”. Isso cria um desejo nas pessoas porque se não derem um smartphone 5G para a mãe, então não é um presente bacana. É preciso considerar também os prazos de financiamento. O aumento no valor mensal pago pelo aparelho com 5G acaba sendo muito pequeno.

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Thássius Veloso

Editor

Thássius Veloso é jornalista especializado em tecnologia e editor do Tecnoblog. Desde 2008, participa das principais feiras de eletrônicos, TI e inovação. Na mídia, também atua como comentarista da GloboNews e da CBN, além de ser palestrante, mediador e apresentador de eventos. Já apareceu no Jornal Nacional, da TV Globo, e publicou artigos na revista Galileu e no jornal O Globo. Ganhou o Prêmio Especialistas em duas ocasiões e foi indicado diversas vezes ao Prêmio Comunique-se.

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