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Diretamente da Coreia do Sul: como é a vida no país da internet

Os celulares fazem “Chalkak” e os cachorros latem “Mong Mong!”

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5 anos e meio atrás

Muito se fala sobre a Coreia do Sul – terra da Samsung e da LG, e também onde estão alguns dos mais importantes times de e-Sports do planeta. Para desvendar alguns mistérios do país, convidamos o Luiz Sardinha para escrever esse artigo. Ele vive na Coreia desde o ano passado. O primeiro artigo foca principalmente nos serviços de telecomunicações. Está permitido babar. (Thássius Veloso)

Olá! Inicialmente gostaria de me apresentar: me chamo Luiz Sardinha e estou morando temporariamente em Seul (cujo nome oficial na verdade, traduzindo para o nosso alfabeto, é Seoul e se lê como a palavra em inglês Soul), capital da Coreia do Sul. Sou viciado em tecnologia. Na verdade, vivo disso: sou programador e estudo Ciência da Computação. Defendo até a morte o uso do UNIX e suas versões repaginadas do terceiro milênio (Linux e OS X).

Desde que cheguei percebi que aqui as coisas funcionam de forma bastante diferente do que eu estava acostumado no Brasil. A mais notável é que todos (ok, foi uma palavra forte, quase todos) têm smartphones. Isso se deve em parte ao alto índice de escolaridade – a maioria tem ensino superior completo –, e também em parte ao alto índice de desenvolvimento tecnológico. Ele permite, por exemplo, que a gente acesse a internet de forma rápida (por sinal, MUUUUUUUITO RÁPIDA) a partir de qualquer canto desse país.

Por pouco do que o equivalente a 70 reais você pode contratar uma conexão à internet de 50 Mb/s (download/upload) para a sua casa sem limite de transferências. A parte legal é que esse é o plano de entrada, ou seja, ninguém tem uma conexão pior que isso. Ela realmente chega a essa velocidade ou bem próximo durante todo o tempo. Por sinal, aqui não precisam de Anatel para garantir o mínimo de velocidade entregue. Por 9 reais a mais você pode contratar o plano de 100 Mb/s (download/upload). Eu não tive que escolher um pacote de internet porque a minha moradia é na própria universidade: tenho acesso a rede interna que é 100 Mb/s full-duplex. Sério, é linda demais a conexão daqui.

Se você é do tipo que adora uma conexão móvel, como a maioria das pessoas, a internet aqui é vendida por quantidade de dados. Os planos, com chamadas e mensagens de texto, variam do equivalente a 25 reais com 500 MB inclusos a 300 reais pelo completamente ilimitado. Os planos pós-pagos normalmente funcionam em LTE ou LTE-A, com velocidades bem próximas dos limites permitidos pela tecnologia usada. Nos meus testes usando o Speedtest em um iPhone 5s, facilmente chega a 90 Mb/s de download e 35 Mb/s de upload).

Mas isso vem a um preço talvez não tão bom. A internet aqui não é livre. Você não pode escrever o que quiser, tampouco ser anônimo. A maioria dos sites e serviços daqui exige confirmações de identidade para usar. A motivação para coleta desses dados é tal como propõe o marco regulatório da internet no Brasil: tirar o conteúdo da responsabilidade dos criadores e provedores de sites. Publicações e textos com opiniões anti-governo são sumariamente bloqueados. Nem pense em pornografia. Ao tentar entrar em qualquer destes você é redirecionado para um site da comissão de segurança da internet do governo sul-coreano.

Coreia do Sul - Censura

E a pirataria? Sites como o The Pirate Bay funcionam normalmente aqui. Justificam que estes não hospedam nenhum tipo de conteúdo “proibido”. Bloqueados são os sites de hospedagem de conteúdo e trackers famosos. Formalmente dizendo (não quer dizer que é aplicada na prática), existe a política de três strikes (como na França). Detentores de direitos autorais não costumam processar cidadãos por pirataria, até porque a multa máxima que pode ser aplicada nestes casos é de valor equivalente a pouco mais de 450 reais. Coreanos têm medo que prisões e/ou multas altas causem problemas na juventude e levem ao aumento do índice de outros crimes. Só a possibilidade de poder ficar sem acesso à internet neste paraíso já amedronta muito.

Bem, voltando a falar da mobilidade e dos smartphones, aqui também podia ser chamado de terra do Wi-Fi. Tem Wi-Fi na rua, nos shoppings, no metrô, nos táxis, nos ônibus etc. Não falta Wi-Fi e todos os pontos de acesso te fornecem uma conexão de internet suficiente para usar tranquilamente. Nunca peguei conexões com velocidade menor do que 5 Mb/s (download/upload)

Coreanos, por exemplo, usam as redes Wi-Fi para ver televisão. Não há necessidade do uso de um padrão de transmissão específico para TV móvel tal como o padrão OneSeg em uso no Brasil e no Japão. Mas isso não quer dizer que eles não tem TV digital, ok? E ela funciona muito bem na superfície.

Por fim, se você não tiver sorte e estiver em algum dos poucos lugares que não há redes, você ainda pode se salvar com um roteador móvel WiMax (dá pra comprar ou alugar). É importante citar, porém, que todas essas redes não são completamente abertas. Você precisa ser cliente de alguma das operadoras de telefonia para usá-las, incluindo pré-pagos. O Wi-Fi das operadoras também ajuda a economizar alguns preciosos megabytes do seu plano de dados, como acontece no Brasil.

Os telefones celulares vendidos aqui também são adaptados às necessidades deste país. A maioria vem com uma bateria extra extremamente necessária. Algumas linhas de celulares até têm modelos modificados para o mercado local com bateria removível (como o LG G2) ou capacidade de carga maior. Assim como no Japão, todos os aparelhos vendidos aqui fazem um barulho que não pode ser desativado (por uma pessoa normal; nada que um jailbreak/root não resolva) na hora de bater uma foto. Em volume máximo. Chatice talvez extremamente necessária, pela falta de pornografia.

O Google não domina nesse país. Os coreanos usam o Naver para buscas. Em vez de usar o Google Maps, por exemplo, eles utilizam o Naver Map. O Facebook também não aparece na frente como rede social mais usada. Todos aqui têm Facebook, só que não está na vida deles como na nossa, do Ocidente. Aqui fazem muito sucesso os serviços de uma empresa chamada Kakao. Você pode até mandar uma mensagem pelo Facebook, mas o seu amigo só vai responder quando mexer no computador e lembrar de abrir o gigante das curtidas. A regra é clara: se você quer falar com um coreano de forma rápida, ligue para o celular dele ou mande uma mensagem no Kakao Talk. Se não tiver o que fazer, baixe um joguinho da Kakao e desafie os amigos. Só vale o lembrete de que os coreanos são muito competitivos.

Queria até contar mais, talvez sobre outros assuntos, mas acho que isto é mais do que suficiente para entender como o básico da tecnologia coreana funciona. Por fim, só queria dizer que aqui os cachorros não falam “au au”. Coreia do Sul: terra onde os celulares fazem “Chalkak” ao tirar uma foto e os cachorros falam “Mong Mong”.

Escrito por Luiz Sardinha: Peixe (pelo menos de nome) e de arroba enigmática no Twitter. Programador desde os 12 anos, não vê a hora de terminar o curso de Ciência da Computação – mas não liga de ter atrasado um ano para tentar a vida do outro lado do mundo.

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